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domingo, 20 de fevereiro de 2011

[Trecho] A Guerra Santa

O MERCENÁRIO

1
Existe um bar na periferia de North City que apesar da pouca badalação em comparação as boates e aos pubs do centro e da região litorânea da cidade, é tão frequentando quanto. No entanto, por mais que o movimento no local perpetue até as mais altas horas da madrugada, seus frequentadores passam longe do glamour vivido pelos atores, atrizes, músicos, empresários, esportistas e políticos que contemplam aqueles ambientes com suas ilustres presenças. Seus fieis frequentadores em contrapartida, não passam de gângsteres, prostitutas, cafetões, viciados e pessoas em geral com uma miserável perspectiva de encher a cara de cerveja, dar umas tacadas de sinuca assim como uma foda com as namoradas e se tiverem tempo, arranjarem uma briga durante esse meio termo. O estabelecimento atende pelo simpático nome de TOCA DOS RATOS e o cheiro lá dentro não é os dos melhores. Uma mistura de cevada e nicotina. Isso para não mencionar os banheiros.
Um homem estava sentado em uma mesa completamente consumida pelo vandalismo dos frequentadores. Há 3 dias, tal mesa serviu como um escudo numa tentativa mal sucedida de esfaqueamento. O cidadão que ia ser apunhalado ergueu a mesa em defesa aparando o objeto pontudo que lhe penetraria no peito. O atacante no ato de tentar tirar a faca enterrada naquela madeira, perdeu segundos preciosos, dando assim a oportunidade do defensor contra golpear com uma garrafada bem no centro de sua cabeça fazendo-o cair desfalecido.  Havia vulgaridades entalhadas na mesa, algumas sem nexo, outras engraçadas que chegou a fazer o homem emitir um espectral sorriso no canto dos lábios. Vulgaridades como : ESCREVI, SAÍ CORRENDO, PAU NO CU DE QUEM TA LENDO.  XOXOTA É MUITO BOM.  BOCETA TINHA QUE NASCER EM ÁRVORES.  A garçonete chegou e deixou a cerveja que pedira sobre aquela superfície judiada e empoeirada. O homem agradeceu com um simples menear de cabeça. Seus cabelos eram rubros como o sangue e desgrenhados como o de um morador de rua. A barba quase alaranjada por fazer, percorria a extensão de seu rosto criando uma camada de pelos sobre sua tez. Uns óculos escuros de aros redondos escondiam seus olhos, embora o ambiente fosse mal iluminado, ele insistia em não tira-lo do rosto. Um cigarro pendia no canto de sua boca, havia algumas herpes naqueles lábios. Vestia uma descolada jaqueta de couro preta sobre uma blusa também preta com as iniciais J. W. estampada. Usava um jeans surrado que exibia seu joelho esquerdo, e uma grotesca bota de xerife do velho oeste cobria seus pés. Seu nome, JACK WEST.
Alheio às tacadas de sinuca e ao burburinho instaurado na Toca dos Ratos, Jack West observava com olhos vítreos um papel que acabara de tirar do bolso da jaqueta.  O conteúdo do papel era algo que lhe interessava, mais do que isso, era algo diferente de todos os trabalhos que já executara até então, algo que lhe dava uma ambígua sensação de temor e anseio. Indubitavelmente, a missão mais difícil de sua longa carreira de assassino.
- Snake, o grande manipulador das chamas, o homem que ao lado de Spider, o mestre dos raios, destruiu a cidade de Paladium.  – Ele balbucia.
Ele tira o cigarro da boca e amassa a guimba contra a própria mesa por falta de um cinzeiro. O papel tem outra folha anexada e West passa os olhos nos anexos sem muito interesse. 
Nesse curto período, surge no bar uma jovem de 17 anos munido de um belo par de pernas, vestida com um minúsculo short jeans que está mais para um cinto do que para um short propriamente. Sua bunda fica bem evidenciada naquelas vestes. Seu nome é Ju Felina, tem um longo cabelo preto de índia que vai a altura da cintura, seios medianos escondidos por um top branco e usa brincos de argolas. Seus lábios são grossos e lentes verdes ornam seus olhos lhe dando um certo charme.  Ju passa sob os olhares contidos de todos os homens ali presente. Seus saltos, estalam a cada passada. Ela caminha com um olhar imponente e o nariz empinado não ligando se está esbarrando nas mesas pela Toca dos Ratos e tampouco, esquentando se está pisando no pé de alguém. Esbarra na mesa cujo um homem ruivo ler um papel fazendo sua long neck oscilar naquela superfície. O ruivo apara a garrafa evitando-a que caia. Porém ela chama sua atenção e por alguns segundos, ele a observa com um olhar vagamente ardoroso com relação aquele traseiro. Porém, não demora em voltar a se concentrar em seu trabalho.
Otto Heidfelt, conhecido como O Garra, devido a uma enorme tatuagem de uma garra de tigre em suas costas, está diante do balcão e se irrita com o que acabou de ver. Ele fita o desconhecido sobre a mesa a 10 metros de distância e franze seu cenho num único sobrolho. Ju Felina chega perto dele e o beija calorosamente apertando suas unhas postiças contra o seu peito. Porém, mesmo beijando-a, seus olhos não deixam o desconhecido.
- O que foi Garra ? – Ela indaga.
- Aquele homem – ele aponta para West – aquele homem teve a coragem de olhar pra você diante da minha presença.
Ju dá um suspiro que denota.  Ah, outra vez isso. E contemporiza lamentando não ter entrado no bar como uma cidadã normal:
- Deixa isso pra lá, Garra, ele deve ser apenas um viajante perdido.
Otto aperta com forças as magras bochechas dela e a olha bem nos olhos com fúria.
- Escute aqui! Ninguém, olha pra mulher do Garra, entendeu bem? Ninguém!
Ju diz algo, porém sua voz sai indecifrável.
- O que está dizendo?  - Ele pergunta.
Ela se livra do rude aperto de Garra e repete.
- Está me machucando seu imbecil!
Garra estala os dedos e dois brutamontes que jogavam uma partida de sinuca se põem a disposição de imediato interrompendo a disputa.  Um careca alto com uma bizarra cicatriz em forma de X na testa e com inúmeras tatuagens nazistas pelos braços, junto de um corpulento homem com a barba ocupando boa parte do rosto, usando uma bandana do Sepultura, com uma barriga protuberante a alguns centímetros além do cinto da calça, se aproxima de Otto.
- O que foi Garra? – Perguntou o careca.
- Aquele sujeitinho ali perdeu a noção do perigo. – Limitou-se Otto.
- Aquele com o cabelo de fogo? – Apontou o barbudo.
Otto assente.
- Vamos lá ter uma palavrinha com ele. – Disse o barbudo estalando os dedos da mão direita contra a palma da esquerda.
- Garra, por favor. – Insistia Ju.
- Não se meta nisso, Ju. – Garra espalmou a mão para ela.
West acabara de dobrar o papel e por no bolso de sua jaqueta quando 3 sujeitos pararam diante de sua mesa.  Jack ergue os olhares para eles e reticente, saboreia o ultimo gole de sua cerveja. Os homens permanecem impassíveis e com caras de poucos amigos encarando-o. Com toda a serenidade do mundo, West pergunta:
- Algum problema, rapaziada?
- Está vendo aquela mulher ali parada em frente ao balcão? – Garra aponta para Ju – Ela é minha namorada.
- Meus parabéns – responde Jack – é uma bonita moça, apesar de ser um pouco nova pra você, não acha?
O sangue subiu a cabeça de Otto a ponto de apitar pelas orelhas como uma panela de pressão. Naquele instante, por mais que aquele forasteiro se curvasse aos seus pés e lambesse suas botas, não seria suficiente para escapar de uma boa surra. Com os dentes trincados, ele rosnava:
- Ninguém olha para ela, entendeu? E ninguém zomba da minha cara!
Jack West ergue as duas mãos até a altura dos ombros e com um dissimulado sorriso se desculpa:
- Ora, não me leve a mal, cavalheiro, eu não sabia que ela era sua namorada e eu não olhei para ela com olhos libidinosos. Olhei apenas por curiosidade. Vamos fazer o seguinte, eu pago uma cerveja para vocês e esse mal entendido acaba por aqui, o que me diz?
Otto hesita por um milésimo de segundo, contudo, pega a garrafa vazia sobre a mesa e a quebra na quina formando uma arma pontuda e perigosa. As conversas e as tacadas que aconteciam na Toca dos Ratos cessam de imediato. Todas as atenções estão voltadas para eles.
- Abaixa essa garrafa, cara, acha mesmo que tudo isso vale a pena a terminar assim? Por que simplesmente não aceita a minha cerveja? – Falava West.
- Acho que esse falastrão está a fim de perder a Língua, Tom. – Falava o careca ao Barbudo.
- Eu também acho, Kerry, está falando demais pro meu gosto. – Replicava o barbudo.
-Bem, eu não quero confusão, se me deixarem apenas ir embora, eu vou agradecer, pois não quero machucar ninguém aqui. – Dizia Jack levantando-se lentamente ainda com as duas mãos erguidas.
Embora o sujeito seja tão alto quanto eles, os três se entreolham e dão uma longa risada.
- Você parece que não entendeu – rosna Garra – a pessoa que vai sair machucada aqui, é você!
Assim que acabou de falar, Garra se precipita em ataque na direção de Jack West. Em um movimento uniforme, ele tenta atingir Jack na altura do abdômen levando a ponta da garrafa em uma linha reta. Todavia, West em uma lépida e ágil técnica evasiva, se esquiva facilmente do golpe e segura o braço direito de Garra.
- Eu disse que não queria machucar ninguém! – Rosna West agora com os dentes trincados.
Em um curto instante de tempo, do ataque precipitado de Garra a defesa de Jack West, o ruivo quebra o braço do valentão deixando-o em um ângulo hediondo. Foi possível ouvir o estalo dos ossos se quebrando em 3 partes diferentes. O esgar foi inevitável na expressão de cada um ali que testemunhava aquela briga. Otto urrava um grito esganecido e implacável de dor. A mão que segurava a garrafa se abriu como uma aranha espatifada não tendo forças nem para segurar uma pena. Seu braço agora estava mais para um S do que um membro de seu corpo. As lágrimas desciam de seus olhos e toda a sustentação de sua perna se foi. Caiu de joelhos com a mão esquerda apalpando a arruinada parte de seu corpo como se ela pudesse curá-lo.
- Ahhhhhh! Meu braço, ele quebrou meu braço! – Gritava Otto.
Perplexo pela agilidade do oponente, Kerry, o careca, avançou sem confiança para atacar, porém, antes mesmo que pudesse erguer os punhos e efetuar um único soco, West num piscar de olhos, já estava a 5 centímetros dele e o careca da cicatriz levou um soco que parecia mais um atropelamento de carreta do que propriamente um soco. Voou uma distancia de mais ou menos 10 metros. Atravessou por cima do balcão e se chocou contra as prateleiras espelhadas quebrando inúmeras garrafas. O golpe lhe provocou um deslocamento de maxilar que Kerry tivera de alimentar a base de líquido por 6 meses tendo também de se comunicar a base de papel e caneta por quatro.
Tom, não estava mais confiante, não estava hesitante e tampouco estava com medo. Estava horrorizado. Diante dos olhos incrédulos das pessoas que ele sempre intimidou, não sabia se demonstrava uma dignidade e enfrentava o forasteiro, ou se preservava a sua integridade física e fugia como uma criança assustada. Olhou para trás e se assustou com a distância que o soco dele fizera com que um grandalhão como Kerry, fosse arremessado. Olhou para baixo e viu Otto completamente inutilizado com seu braço apontando em 4 direções diferentes. O tempo era curto e ele tinha que decidir logo; Jack West dava passos em sua direção. Todavia, havia uma saída, pelo menos ele julgou que fosse uma.  O barbudo Tom levou a mão para trás e de lá tirou um .38 que jazia sob a sua blusa, presa na altura do cóccix. Rapidamente, ele a apontou para Jack West com suas mãos trêmulas de indecisão e medo. Houve um pequeno alarido quando Tom sacou o revólver, por mais que o bar fosse barra pesada, jamais houvera um assassinato no local.
- Para trás! – Gritava Tom – Para trás ou eu juro que meto uma bala nessa sua cara!
Jack West ignorou os imperativos e continuou a avançar na direção de Tom que caminhava para trás. Tirou o óculos do rosto revelando seus olhos implacáveis, seus olhos assassinos num cruel verde rubi.
- Você é louco? Não vê que estou armado? – Dizia Tom com a voz mais trêmula do que uma garotinha.
- Se está armado, por que não atira? – Desafiava West.
Tom era um rato encurralado. Não tinha saída, se quisesse ter alguma chance de levar a melhor naquele embate teria de puxar o gatilho. E, como Jack West continuava avançando impiedosamente em sua direção com seus olhos desafiadores e cruéis, ele assim o fez.
Um estampido ecoou na Toca dos Ratos. A Maioria das testemunhas fecharam os olhos de imediato não querendo presenciar tal espetáculo dantesco. Porém, assim que abriram, viram o mesmo forasteiro de pé diante de Tom. Dessa vez, ele tinha o braço esquerdo erguido na altura do rosto com o punho fechado.
Será que Tom errou o tiro? Esse foi o questionamento que rondou a cabeça de todos ali presente. Contudo, quando Jack West desfez o punho cerrado, o projétil do .38 caiu de sua mão como um truque de mágica, fazendo um barulho metálico ao atingir o chão. A perplexidade foi tamanha.
- Q-Q-Q-Q- Quem é você? –Perguntou Tom com os olhos formando dois Os em sua face.
- Eu me chamo Jack West. – Respondeu o forasteiro antes de socar a enorme pança de Tom fazendo-o vomitar tudo que comera naquele dia. Há quem dissesse que vomitara a própria merda. O barbudo se viu perdendo todo o ar.  Foi como ser atingido por um meteoro incandescente bem na boca do estomago. Segundos após vomitar, tudo ficou baço em sua visão e ele caiu de cara na sua própria nojeira.
Jack olhou ao redor e pela primeira vez desde a inauguração da Toca dos Ratos em North City, o silêncio reinou. Salvo é claro, pelos gemidos agonizantes de Otto com seu braço completamente destruído. Ele foi ao balcão e perguntou quanto custara a cerveja. A garçonete que naquele momento não sabia nem qual era o número de seu sapato devido ao seu sumo estarrecimento, gaguejou tanto que fora impossível manter uma comunicação básica. West assentiu e deixou uma nota de 5.
- Pode ficar com o troco.
Tornou a por de volta os óculos de volta no rosto e saiu do bar para cumprir a sua missão.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Martim

Dez anos trabalhando na mesma seção com meu velho amigo. Era mesmo meu camarada. Levei-o para jogar na minha pelada; a pelada dos meus amigos de infância e da escola. Passamos, juntos, duas viradas de ano com minha mulher e filhos, na casa onde vivi os meus melhores dias, onde construí meu lar e eduquei minhas crianças.

No quinto mês desde o nosso encontro – uma amizade quase instantânea -, me lembro, chamei-o para a praia. Não tinha família no Rio e isso me entristeceu. Falei com Marta. Ela também ficou triste. Disse-me para que o levasse conosco para um programa de família; queria conhecer aquele rapaz quase trintão de quem tanto lhe falara. Passamos em seu apartamento em Bangu e lá o apanhamos; conversava com as crianças e logo ficaram amigos. Na praia, construiu um castelinho; havia uma princesa presa numa masmorra fria, escura e úmida. Assim começou com a história e meus filhos ficaram enlevados; Martim seguia narrando a fábula, enchendo-a de personagens; havia ogros, um rei tirano, uma corte ressentida de não ver mais sua princesa, uma feira muito movimentada, uma bruxa e um príncipe arguto e ambicioso.

Marta me olhou e sorriu discretamente; não queria interromper o divertimento das crianças. Espantara-nos a destreza com que conduzia o conto e como o fazia com firmeza. As crianças interferiam; quando queriam mais um personagem ou mesmo quando não lhes agradava o papel para cada um deles criado por Martim, ele mudava o rumo dos fatos. Sem render-se ao locupletamento dos meus meninos, fez com que tudo seguisse verossímil até o final: o ogro traíra o príncipe, domara todo o povo e fizera da princesa seu mártir, mantendo-a presa na masmorra ao dizer a todo povo que ficara louca de tanto sofrer nas mãos do seu pai déspota que fora assassinado por seu filho, antes de ser destronado pela tramoia do ogro cinzento e desbotado, pelo qual tomaram partido, lá pelo meio da história, meus filhos.

Marta o interpelou, “Mas que final horrendo, Martim!”, mirando-o por cima de seus óculos de Sol.

“Ah, mãe”, disse Pedro, tremendo de excitação por ter colaborado diretamente com o prognatismo do príncipe que era belo e róseo no início,“ você não vê aqueles filmes de terror com o meu pai?”.

Marta balançou a cabeça como quem concorda a contragosto com uma criança que tem razão. E Pedro a tinha. Adorávamos os filmes de terror – ou melhor, os de suspense. Passávamos horas vendo a coleção do Hitchcock que ganháramos de presente de casamento de um velho amigo. Assim que descobrimos que um VHS poderia ser convertido para o DVD, gastamos uma grana violenta com um moleque de dezoito anos viciado em computador que se aproveitara da demanda gigantesca engendrada pelos cinéfilos órfãos do videocassete.

Martim disse que a arte, principalmente a literatura, não moldava os caracteres dos jovens, que se assim fosse os pais deveriam tapar os ouvidos das crianças toda vez que o padre proferia seu sermão, ou desligar o televisor quando percebessem a afeição magnética das crianças pelos vilões das novelas.

“O senso de justiça das crianças é até maior que o nosso. Vê o exemplo do castelinho de areia e do reino despótico do deserto do Grumari:” - foi o nome que deu ao feudo erguido à sombra daquele guarda-sol – “O Rei não era boa pessoa, mas, como era Rei, você não falaria nada se ele subjugasse o ogro e seu filho traidor. O ogro só trocou um mal por outro, e ninguém garante que ele, daqui pra frente, mesmo que tenho mentido e vilipendiado o príncipe, não seja um monarca austero. Na História, há centenas de casos de Chefes de Estado assassinos que fizeram muito pelo seu povo. Na verdade, o povo quase nunca assume a sua responsabilidade; aquela estória de cidadania...”

“Claro. Eu, por exemplo, nem lembro em quem votei pra vereador, e isso só tem uns seis meses. Mas não precisa ser tão dramático; só falei que o fim foi terrível, e não foi?

Fiquei com medo de a tarde terminar mal, mas quando vi a Marta dando corda na conversa, tranquilizei-me. Era assim que demonstrava afeto. Antes de namorá-la, discutíamos sobre tudo e todos; quase nunca concordávamos e, segundo ela, apaixonou-se por mim justamente quando a chamei de burra por não concordar comigo acerca a Guerra dos Bálcãs. Ela disse que percebera em mim alguém para discutir fervorosamente até a velhice.

“Não achei terrível.”

“Nem eu”, disse Soninha, minha filha mais nova, que decidira pela continuidade do cárcere da princesa.

Sorri. Fiz questão de olhar para Marta nessa hora, enquanto eu passava protetor solar nas crianças. Ela segurou o sorriso com dificuldade. Martim nada percebeu.

“Eu sempre gostei das crianças, apesar de não ter filhos.”

Todos ficaram em silêncio. Só o barulho das ondas que resfolegavam as partículas de água no céu azul.

“As crianças – Martim quebrando o silêncio – possuem ética, nós não. O que nós fazemos é polir as palavras e deixar bem claro para o mundo todo o que nos incomoda; aquilo que não queremos que seja feito conosco. O problema é que os adultos fazem com os outros justamente aquilo que os incomoda.”

“Tá legal, Martim, o que você diz, então, daquelas crianças que desde novas são líderes? Elas são fortes de espírito, tenazes e fazem das outras crianças da mesma idade gato e sapato. Na última reunião de pais, a Tia Márcia, professora da Soninha, disse que ela brincava só do que queria, que, além disso, todas as outras crianças do seu círculo de amiguinhas faziam só o que ela ordenava”.

Soninha estava olhando o mar enquanto passava-lhe o creme protetor nas costas. Fingiu que não falavam dela.

“Ela faz isso porque é dela. Pior será se não continuar fazendo depois de velha. Ninguém ensinou isso pra ela. Nessa idade se aprende a escovar os dentes, escrever, pintar, pique-esconde, mas não isso. O que a professora não lhe disse foi se as outras crianças estavam felizes brincando com a Soninha”. A menina virou para Martim e sorriu abertamente. “Bom, pela cara dela ninguém ficou triste, não é verdade, Soninha?”

“Não”, lacônica.

“Marta, desde cedo, as crianças já mostram o que são, e todas se respeitam mutuamente. O problema é que o tímido escolhe ser advogado; o forte vira polícia; o encostado, professor; o feio quer ser ator e o triste vira empreendedor.

“Como assim? – perguntei enquanto me levantava para levar as crianças até a água.

“Como os pais, os professores, os psicólogos e todos os outros são, na maioria das vezes, aquilo que não nasceram para exercer, eles acham normal que os pequenos sigam qualquer caminho profissional, como se isso não representasse a frustração eterna. Isso é tão forte na nossa sociedade que nos desacostumamos a ver aquilo que é tão óbvio. Ninguém vê isso nas crianças; muito pelo contrário, antes dos filhos nascerem, já queremos que eles sejam médicos, advogados... É triste.”

Marta e eu nos fitamos novamente. Um vento frio veio do mar. Levei as crianças para um último banho e fomos embora.


Transcorreram-se os anos após aquele primeiro dia em família. Martim logo afamilhara-se, não antes de contar a sua origem; como fora parar em Campo Grande vindo do interior do Estado. Não tinha Pai nem mãe, só uma tia que vivia num asilo em Angra dos Reis. Não era próximo dela. Era uma estranha, dizia.

As crianças cresceram. Martim e elas tornaram-se amicíssimos. Soninha ainda estava na escola e Pedro, no primeiro semestre da faculdade. Martim tornara-se o melhor tio, o mais amigo. Era duro quando tinha que ser. Jamais se metera nas minhas ordens ou admoestações, tampouco nas de Marta. Diferente dos meus irmãos que davam de ombros para tudo aquilo que não fosse relativo aos seus filhos, Martim tinha tempo de sobra para as crianças. Com Pedro, ia aos shows de rock. Comprou-lhe uma guitarra quando passou para o ensino médio. Matriculou-o numa aula de música. A verdade é que isso mudou a vida do meu filho. Ele se tornou mais compenetrado e culto, sem ficar esnobe. A cumplicidade entre os dois era latente. Em certos momentos me batia um ciúme, mas Marta logo ria de mim quando lhe confessava esse sentimento tolo. Não era algo que me fazia mal, tampouco, ao contrário. Gostava do meu filho, que gostava de mim – e muito, eu podia sentir – e gostava de Martim com um amigo; o melhor que ele tinha.

Soninha tornou-se uma menina linda. Era forte, tinha os olhos redondos e convexos e a boca pequena como se tudo fosse de moça em seu corpo, menos os lábios. Era decidida, justa e amiga de muitas pessoas. Tinha uma coisa que eu adorava nela desde as primeiras manifestações do seu caráter : sempre escolhia os enjeitados da escola para levá-los a nossa casa. A amizade de Soninha significava muito para seus queridos e o apreço dos outros por ela era cultivado; gostava de estar com que lhe queria bem. Dura quando devia ser – não gostava de mentiras – e afável na medida certa. Com quinze anos tornara-se o porto-seguro de muita gente, inclusive da mãe.

A minha relação com Martim fortalecera-se a tal ponto que ele se tornara meu melhor amigo. Meus amigos também se tornaram amigos dele. Onde eu estivesse, também estava Martim. Se chegasse sem ele à casa de minha mãe ou no Maracanã, as pessoas perguntavam-me por ele, como se vivesse comigo debaixo do mesmo teto. E não era exagero dizê-lo. Martim adentrava minha casa à hora que queria e a deixava também quando lhe convinha. Marta o adotara como um irmão. Viviam conversando sobre tudo. Por vezes, chegava a casa e os dois estavam em guerra discutindo sobre quem era melhor: John ou Paul; quem acabou com os Beatles, Linda ou Yoko; se ainda existia esquerda no Brasil; se havia efeito estufa ou não.

Ela adorava debater infrutuosamente e ele também. Eu passei a gostar cada vez menos disso. Como Marta não mudara nada desde aquele dia em que se enamorou por mim, minha taciturnidade crescente foi nos afastando, mas em momento algum me sentia pressionado a falar mais. Martim fazia as minhas vezes – e com maior habilidade, isso é irrefutável.

Não sentia ciúmes, juro. Meu amigo cuidava das preliminares e eu fechava noite. Parece estranho, mas Martim percebia com facilidade quando deveria se retirar mais cedo. Nunca cheguei a conversar com ele sobre o tema, nem com minha mulher, mas certos assuntos deixavam-na excitada; ela os puxava com Martim como fazia comigo. Algumas taças de vinho a mais e Marta sentava-se no meu colo enquanto falava de Kafka e Tolstoi com nosso amigo. Defendia hirtamente seus pontos de vista para depois beijar o meu pescoço de leve; parecia olhar para Martim nessas horas. Antes que aqueles colóquios começassem a remeter a uma suruba mais do que a um reles bate-papo, ele saía e nós transávamos; àquela altura do casamento, nossas melhores transas sempre decorriam de longas noites de conversa-fora com Martim.


Tudo começou a mudar quando seu primo apareceu em Campo Grande procurando por per ele. Ao entrar no prédio da Secretaria da Receita Federal, o homem moreno e alto, depois de passar pelos seguranças, dizendo-se parente de Martim Delgado, adentrou nossa sala. Ao vê-lo, Martim descompôs-se; Cláudio e Beto, que trabalhavam conosco, nada perceberam. Eu conhecia bem meu amigo; aquele silêncio gélido não combinava com ele, tampouco a impessoalidade com que recebera a visita, depois de tantos anos, de um parente que, pelo menos para mim, a quem foi dito que só restara uma tia na vida, não existia.

Sorri para o homem, mas só porque pensei que Martim sorrira assim que o sujeito identificara-se (“Martim Fonseca Delgado?”, leu de um pedaço de papel amassado que levava à mão). Martim levantou-se e tirou-o para conversar no corredor. Alguns minutos se passaram e não consegui controlar minha curiosidade – não era bem isso: foi uma mistura de excitação e preocupação, senti um mau augúrio mais do que vontade de xeretar a vida alheia.

Passei pelo corredor como quem vai pedir uma garrafa de café fresco na cozinha. Martim sequer me olhou, ao oposto do primo vindouro. Parecia querer- me contar algo, como se me conhecesse e soubesse da amizade que Martim e eu devotávamos um ao outro. Fui até outra seção; enrolei para não dar na telha; puxei papo com a senhora do RH. Quando retornei a minha sala, Martim estava suando e seu primo havia sumido.

“Martim, onde está seu primo?”

“Foi embora. Nem sei se é meu primo. Nunca vi a figura. Veio me pedir dinheiro. Com certeza é algum espertalhão de Angra que ficou sabendo que minha tia tinha um sobrinho que vivia no Rio há muito tempo.”

“Mas ele sabia seu nome”, dei sequência à conversa, conquanto estivesse nítido que meu amigo não queria remoer o assunto.

“É, mas e daí? Se ele não soubesse de nada, como viria até aqui no Rio para me extorquir?”

“Era isso que ele queria?”

“Sei lá, Juca!”, gritando, como o vira fazer em pouquíssimas oportunidades - pensando bem, Martim jamais gritara antes . “Um cara desses, molambento que só, parecendo um fantasma, chamando o primo querido pelo nome completo só pode querer o quê?

Verdade. Algum proveito ele queria tirar.

E eu queria saber da verdade. Martim já dera infinitas provas de seu carinho pela minha família. Eu não desconfiava de nada daquilo que contara há anos atrás. Meu amigo tinha uma vida ilibada, e ponto final! Eu sentira uma curiosidade hercúlea, e só. Mas isso não é pouco.


No fim de semana, sem contar a Martim, fui a Angra dos Reis com Marta. Pedro ficou no alojamento da UFRJ e Soninha com sua madrinha no Recreio dos Bandeirantes, para ir à praia e a um show que haveria no Via Parque.

Quando cheguei do trabalho no dia da visita do falso primo, contei tudo que ocorrera a Marta. Ela achou tudo muito estranho; ao contrário de mim, ainda nutria algumas desconfianças em relação ao passado de Martim, mas achava que era algo bobo, que, se não queria contar-nos nada, era para não nos aborrecer com reminiscências enfadonhas. Mesmo assim, repreendeu-me duramente por meu comportamento. Logo você que vive falando mal da minha irmã e de suas fofocas, me disse. Senti-me mal depois disso. Marta tinha razão, e um remorso timidamente lúgubre me acometeu, além de não aguentar ver na minha mulher a figura materna, ralhando comigo; cortava-me o tesão cada vez mais difícil de fazê-lo emergir até minha pele e membro. Já transava com a mesma mulher havia quase duas décadas.


Chegamos à noite. Odiava viajar depois do crepúsculo, mas era necessário. Marta chegaria cansada e, com sono, dormiria feito uma pedra. E assim foi. Banhamo-nos e rapidamente Marta adormeceu. Não era o seu feitio acordar no meio da noite, ainda mais depois de uma longa sexta-feira de trabalho seguida de uma viagem longa, silenciosa, sinuosa e às escuras. Quando adormeceu, já no hotel, tentou me agarrar pelo pescoço, como um zumbi. Pedia para comê-la, mas assim fazia sempre quando estava prestas e dormir. Além disso, dizia para que ficasse no quarto, que não a deixasse só naquela cidade. Nem uma cervejinha, disse; está cheio de boteco nessa cidade. Isso dera para perceber, mesmo à noite.

Saí. Não tinha referência, somente “Martim Fonseca Delgado”. Inventara uma viagem romântica só para saciar minha curiosidade. Talvez não somente isso, mas era o que pensara desde o momento que a sudorese desmesurada descascou o escudo do meu amigo naquele escritório. Parei num restaurante e pedi uma água tônica. Perguntei ao garçom se era da cidade. Sim, era. Não sabia nada sobre Martim, tampouco da sua tia e primo. Pedi-lhe que averiguasse com seus colegas e nada. Disse-lhe que era amigo de Martim; ninguém o conhecia. Pedi-lhe a conta e fui até a rua que fica à beira-mar e deparei-me com uma aglomeração. Um barco acabara de voltar do mar com muitos peixes frescos e lulas. Esperei o furdunço dissipar-se e fui até os pescadores. Eram quatro; três adultos jovens e uma criança. Perguntei sobre Martim e sua tia. Nada. Entretanto, disseram-me para ir ao bar do Seu Eriberto, que ficava perto do hotel onde me hospedara. Lá estavam os mais velhos e cachaceiros moradores da cidade. Se o que procurava estava vivo, ali seria o melhor lugar para coletar informações. Para agradecê-los, levei um robalo. Fritá-lo-ia para minha mulher no dia seguinte.

No bar, logo vi que se tratava de uma chafurda. Não pelas mesas e cachaças dispostas nas estantes de madeira velha, mas pela clientela. O fedor não era somente do queijo curtido ou da sujeira dos banheiros. A falta de asseio dos borrachos impregnava o ar; o barulho era lancinante; cada qual tentava falar mais alto que o outro para se fazer escutar em meio a tantos bêbados. No balcão, um sujeito alto e espadaúdo conversava com o balconista. Interpelei-os.

“Com licença.”

“Como?”

“Com licença.”

“Fala alto, porra!

“Meu nome é João Carlos e estou procurando alguém da família Delgado ou Fonseca?

O grandalhão não escutou, mas o vendedor, sim.

“Vem até aqui do outro lado”, e me levou até a parte interna do balcão, de onde tirou uma chave como daquelas com que se abrem portas velhas. Subimos as escadas até dar de cara com uma porta. Estava escuro. Com dificuldade, abriu a fechadura e demos com um alpendre velho e empoeirado. A luz dos postes preenchia parte do lugar com halo forte. O homem puxou duas cadeiras de ferro enferrujado escrito “Brahma” no espaldar.

“Eu sabia que iria chegar esse dia”, disse o homem, para depois sorrir.

“Dia de quê, Senhor?”

“O dia que alguém viria desenterrar o velho Martim”

Senti meus intestinos rodopiarem. Arrependi-me de pronto. Pedi desculpas ao meu amigo Martim em silêncio, enquanto me preparava para levantar. O vendedor não me deixou e segurou-me pelo braço com força.

“Meu nome é Oswaldo, muito prazer. E o Senhor?

“João Carlos”

“Deve então ser Joca, Juca...”

“Juca”, disse-lhe, já me levantando aparvalhadamente, mas fui novamente compelido a ficar sentado por aqueles braços fortes.

“Se perguntou, é porque quer saber, então vou direto ao assunto para não perder seu tempo. Martim era diretor da Escola Municipal... Escola Municipal... Ah, deixa! Esqueci a porra do nome, é mole? haha. Bom, ele era diretor. Até aí tudo bem, tirando o fato de ser muito novo. Havia acabado de entrar no magistério e virou diretor. Alguma ele armou... Se armou! Eu não o conhecia bem antes de trabalhar com ele. Fui servente naquela época. Era uma merda de ofício, mas só tinha isso pra fazer. Angra não era o que é hoje. Quem não trabalhava para a prefeitura não trabalhava, entende?”

Coçou o queixo durante uma pequena pausa. Já não queria ouvir mais nada; ou melhor, não queria saber da verdade; mas, ouvir? Como queria!

“Tudo ia bem, até que um pai de uma aluna lá disse que o Martim havia acobertado um professor que passava a rola nas meninas. Uma semana depois, outro pai disse que o Martim não acobertava nada, que era ele mesmo que comia as crianças. Eu gostei daquilo. Adorei! Veio até TV na época pra cá. O pior veio depois: todo homem que trabalhava na escola passou a ser taxado de estuprador; e nessas horas, o povo acha mais fácil que um servente de merda passe a rola num menininho que um professor. De repente, estava trabalhando na Sodoma da Costa Verde. Todos me olhavam de canto. Todo mundo que trabalhou naquela escola ficou marcado. Mas isso já faz tempo, Seu Juca.”

Essa estória é absurda, pensei.

“No final das contas, não deu porra nenhuma pra ninguém. O Martim foi embora daqui e nunca mais voltou. Ele tem uma Tia chamada Maria do Amparo. Vive de amasso com um pescador chamado Luis Bumba.”

“E como ele é?”

“Alto. Tem a pele feito cobre, de tanto Sol que pega. Todo pescador é assim.”

Dei uns trocados ao homem. Ele aceitou dizendo que aquele papo o fizera perder alguns clientes. Sorriu e eu também, mas de nervoso que estava. Não sei se por agitação ou por não querer mais saber da verdade, esqueci de perguntá-lo sobre a tia e o primo, onde moravam, como achá-los.

Voltei ao quarto do hotel. Deitei de dorso para Marta, que me abraçou.

No dia seguinte, pagamos uma escuna que nos levou a várias ilhas paradisíacas. Tudo parecia virgem como nos primeiros dias da Terra e assim me senti, puro, com Marta. As lembranças da noite anterior foram se apagando a cada maravilha que surgia naquela baía suntuosa. O desejo profícuo de Marta ao viajar comigo passou a ser o meu também; beijávamo-nos como adolescentes, causando certa ojeriza aos os outros que embarcaram conosco no píer; as crianças sorriam e olhavam estupefatas para os pais. Éramos quase velhos, pensaram.

No hotel novamente. Dormi. Decerto, pus-me a dormir forçosamente, como quem não quer romoer maus pansamentos e produzir estórias mirabolantes e perfidiosas rolando no colchão. No entanto, sabia que se deitasse na cama dormiria com relativa celeridade, mesmo que uma parte minha quisesse elucubrar. O dia fora cansativo, mas belo e chistoso. Não queria vasculhar o passado do meu amigo de longa data, não depois daquele mar turquesa, ladeado por ilhas olivas e nuvens argentas nas arestas e cobalto no centro. Tudo ornando Marta, perfumando-a.


Nunca contei a Marta das minhas descobertas; a Martim, nem que fomos a Angra. Parece que nem Marta o informou da viagem. Se ficou sabendo, não comentou nada comigo. Nas semanas posteriores, a rotina me fizera quase nunca rememorar aquele bar fedorento; Ao inverso, contava a todos os amigos e parentes das ilhas e dos casarões incrustados nelas. Tive sucesso com o robalo que preparei artesanalmente no quarto do hotel, quando ficamos da sacada do hotel abraçados aproveitando o maral que vinha da enseada forrada pelo plenilúnio.

É difícil dizer quando a parte ignominiosa daquele fim de semana começou a me atormentar. O primeiro sintoma, o esquecimento; claro, que o dos momentos jubilosos ao lado da minha mulher; se não estivesse aqui escrevendo e recontando os fatos, não sei onde estariam enterrados na minha memória prodigiosamente seletiva o peixe frito e a lua cheia; e a Marta daquela viagem também se esvaíra completamente da minha mente.

Um leviatã ciumento e asqueroso apoderara-se de mim. Martim começara a roubar meus instantes preciosos de pai zeloso e de marido ora boquirroto, ora parceiro de minha mulher - como um côjuge sempre o é. O ônus da convivência diária começara a entornar-se todo de uma vez sobre minha cabeça; já Martim esquivava-se como toda visita alvissareira faz, assim que sua companhia latente começa aborrece os anfitriões. A concorrência tornara-se desleal. Sentia-me acuado, desrespeitado. Quis voltar aos tempos de parlatórios com Marta e ela não se interessava mais; desaprendeu a ter comigo, ao passo que com Martim seguia falando de tudo; tinham cada vez mais e acerca de tópicos cada vez mais estranhos a mim. Isso me intrigava, já que, no ambiente de trabalho, Martim não revelava qualquer interesse ou mesmo que soubesse de algo do que danava a falar em minha sala de estar com minha mulher. Era como se guardasse tudo para ela. Um ciúme dúplice traspassava-me; perdia amigo e mulher à medida que ambos se sintonizavam mais; sentia vontade de matar Martim e o invejava por ter de Marta o que me escorria das mãos. Já percebia que cruzavam olhares lânguidos. Será que isso teve início agora? Há quanto tempo tramavam às minhas costas?

Passei a patrulhar a vida de Martim. Pensei em um detetive, mas os dois que contatei eram rudes, pareciam ter saído dos filmes policiais da Tela Quente. Aqueles clichês, o cigarro, o bloquinho de notas... Passei a odiar aquela raça rapineira. Um amigo policial – um dos poucos que não tinham também a Martim na conta dos colegas – ofereceu o serviço de um larápio que lhe devia um favor, mas que, segundo ele, sabia das coisas; se houvesse traição, logo descobriria. Em uma semana e meia seguindo-o, o detetive disse a meu amigo que Martim ia da casa para o trabalho e só; só estivera com Marta quando reunimos toda a família para comemorar o aniversário de Pedro. Agradeci ao PM amigo e lhe pedi que guardasse esse segredo e que se esquecesse, se possível, que lhe pedira favor tão sórdido. Ele entendeu; também já havia recorrido à persecução de um terceiro para desbaratar a traição da mulher. Quando quis saber o desfecho do episódio, desligou o telefone celular. Nunca mais lhe liguei ou falei com ele.

Meu ódio foi me consumindo mais e mais à medida que aprendia cada vez melhor a encortinar meus sentimentos.Entrementes, um ator temporão nascera em mim. A conveniência faz o ladrão, pensei. Não haveria nada que não pudesse aprender ou utilizar de expediente para tirar a limpo o que se escondia por detrás dos perfidiosos amantes... Amantes, isso que se tornaram.

Aos poucos fui juntando os cacos. Uma conspiração maliciosa e fria sustentara esse triângulo afetuoso até aqui. Por que Marta sequer quis tomar nota das informações que colhi sobre Martim quando fomos a Angra? Ela sabia que saíra para vasculhar a vida de Martim, ou será que essa que me traiu debaixo do meu nariz durante anos pensava mesmo que iria arrumar uma viagem cálida e repentina ao mar? Nunca fora dessas coisas. Mais do que ninguém, Marta podia ler na minha mudança de hábitos que eu fora atrás da verdade. Ela estava acordada quando cheguei da rua. Eu fingi que não percebi quando me abraçou. Como sabia que estava ali, a partir daquele momento? E ela, com desfaçatez, me envolveu num gesto peristáltico, típico de casal, daqueles que, mesmo dormindo, não se deixa de fazer.

Marta e Martim me traem. Como se somente isso não bastasse para matá-los, humilhá-los; roubaram-me o afeto dos meus filhos; lenta e premeditadamente, jogaram-me para longe da vida deles; Se não fosse o costume, nem teriam de recorrer a mim para coisas básicas, como um beijo, um “parabéns, pai, pelo seu aniversário”, um conselho ou a mesada. Tudo o que se tornara minha vida já poderia ser feito sem minha aquiescência. Até as fodas da minha mulher.

Marta e Martim...

Amanhã é Sábado. Vou até Angra novamente.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A bastarda


Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, 1937. Época difícil para a lavoura de uma pequena comunidade isolada às margens do rio Guandu. As fortes chuvas castigaram as plantações por duas semanas levando tudo literalmente por água abaixo e, como se todo castigo fosse pouco, a maioria dos homens estavam em idades avançadas. Fato que dificultava as tentativas de recomeço. Logo, não tiveram outras escolhas a não ser obrigarem as crianças a labutarem desde cedo na tentativa de ao menos tirar o mínimo sustento da terra.
Numa noite parcialmente nublada onde a lua era uma foice amarelada no céu. No dia 17 de janeiro precisamente. Em um quarto de um casebre iluminado por um lampião a querosene, Francisca dava luz a uma criança.
-Uma menina. –Disse a parteira.
Um grupo de pessoas aguardavam ansiosas ao lado de fora do casebre. Ansiedade que fora triplicada quando a parteira surgira diante deles segurando o lampião que delineava sua face enrugada e bronzeada em sombras obscuras. A expressão dela era severa.
-É uma menina. – Anunciou.
Houve cochichos entre o grupo de pessoas. O marido de Francisca, Adílio, não conseguiu conter a sua frustração ao ouvir aquela anunciação. Adentrou no escuro casebre indo ao encontro de sua esposa enquanto as pessoas cochichavam o quão azarado era aquele casal.
Francisca amamentava a criança enquanto Adílio a olhava desconsolado. O cricri dos grilos e o coaxar dos anfíbios se intrometiam naquele silêncio mórbido.
-Não deve desperdiçar o leite com ela, mulher. Meninas não conseguem ajudar na lavoura e já temos muitos velhos que não conseguirão dar conta do serviço.
Francisca arregalou os olhos, pois para ela, seu marido não teria coragem de cometer tal ato, contudo, o semblante dele exprimia convicção.
Com a decadência da lavoura daquela comunidade a beira do rio Guandu, os moradores convencionaram que filha mulher só seria prejudicial naquele momento de crise, pois a colheita era escassa, uma menina não resistiria aos duros trabalhos braçais que aquelas adversidades exigiam, logo era mais vantajoso ter um filho homem sob esses aspectos.
- É melhor do que vê-la morrer de fome – rosnou Adílio contemporizando – pela manhã resolveremos isso. Agora descanse que a tarde teremos muito trabalho a fazer, creio que virá mais chuvas durante esse mês.

O dia amanhecera nebuloso. Havia uma tímida névoa cobrindo os campos. As folhas das árvores estavam úmidas pelo orvalho da madrugada.
Maria bebera um copo de leite antes de se dirigir a casa de Adílio e Francisca. Caminhara por entre as brumas do campo enlameando a sua surrada e humilde sandália. Adílio a esperava na porta de seu casebre com sua filha embalada em um esquálido pano marrom. Havia um cigarro de palha no canto de sua boca. Ao avistar Maria se aproximando, ele precipitou-se para a pequena varandinha.
-Minha mãe disse que conversou ontem com o senhor.
Adílio meneou afirmativamente a cabeça sem tirar a expressão severa do rosto.
- Afogue essa pobre alma no rio para que as próximas possam ter a mesma sorte que você teve, Maria. –Ele entregou o bebê a jovem maltrapida menina que estava diante de si – Espero você daqui a pouco lá na horta.
Maria segurava o bebê às margens do Guandu. Em sua inocente mente de 12 anos de idade, não houvera questionamentos para o que ela estava prestes a fazer. Questionamentos que surgiriam anos depois. Para aquela gente, a morte não era uma coisa pior que a fome. A água estava gelada naquela manhã. Maria fitou a indefesa criança antes de deixá-la cair no rio.

Damião encontrava-se sobre uma enorme rocha que desafiava o rio. Fazia os últimos preparativos para arremessar sua tarrafa no Guandu quando avistou algo estranho sendo levado pela correnteza. Sua visão já não mais era aguçada como há 7 anos, apesar disso, o velho pescador pôde notar algo hediondo naquele momento.
Damião deixou a tarrafa sobre a rocha e cautelosamente fora até a coisa à deriva no Guandu. Naquele ponto a correnteza não era forte, mas qualquer descuido poderia ser fatal. Lentamente ele se aproximava daquele pedaço de estopa marrom presa em um galho que despencara de uma árvore marginal do Guandu. A água batia no peito de Damião. Ao tomar aquele pedaço esquálido de tecido em mãos, o pescador pôde confirmar o que de longe seus olhos haviam suspeitado. Uma criança! Uma criança que por um milagre divino não se afogara e não morrera de hipotermia ou de outra maneira mais provável que a própria sobrevivência.
-Santa Maria Mãe de Deus!

Se acha que essa criança teve uma vida digna sob os cuidados de um pescador que a tratou com sua autêntica filha, engana-se. O ato misericordioso de Damião paulatinamente havia se tornado um fardo cujo ele não gostaria de carregar sobre seus ombros.  A menina dera muito trabalho quando era bebê, porém daria mais com o passar dos anos e já dava naquela primavera de 1949. Damião jamais tivera uma esposa e jamais imaginara que Deus colocaria mais uma boca além da sua para ser sustentada em sua vida. Numa ensolarada tarde de quinta, os dois comiam as últimas gramas de feijão que havia na dispensa do casebre de madeira de um único cômodo em que moravam. Os tempos permaneciam difíceis, principalmente para o pescado, e Damião passara a ter bastantes concorrentes nas feiras em que vendia seus peixes. Diante daquele silêncio, a menina feliz pela refeição o surpreendeu com um questionamento que poderia emocionar qualquer pessoa...
-Posso te chamar de pai?
... Exceto Damião.
-Não, já disse que não sou o seu pai. Te encontrei boiando no rio.
A menina se estremeceu com as rudes palavras de Damião. Embora soubesse o seu passado, aquela rejeição de uma figura cujo ela via uma paternidade, fizera seus sofridos olhos marejarem.
-Depois do almoço, lave os pratos e vá regar a horta. – Ordenou Damião antes de se levantar da pequena mesa de madeira e sair para só voltar à noite.
Como já não bastasse uma vida sofrida desde o seu nascimento, a jovem rejeitada também tivera que conviver com um homem violento. Por inúmeras vezes sentira o peso das mãos dele contra seu frágil corpo. Mãos que fediam a entranhas de peixe. Quando o cheiro de pinga emanava daquele homem, ela temia.
Em dias de feira, Damião sempre tomava suas pingas para tirar um pouco do peso do mundo de suas costas. Todavia, quando a venda não era boa nem na semana santa, ele bebia para esquecer. Esquecer de seu fracasso e esquecer de uma intrusa em sua vida que ele tinha de alimentar.  Voltava para casa quando a estrela d’alva já despontava no céu. Cambaleando pelas ruas ora de barro ora de paralelepípedos. Carregando uma pequena carrocinha com o pescado não vendido simbolizando o seu fracasso.
A menina o aguardava ansiosa. Por poucas vezes, Damião lhe trazia doces e outras guloseimas. Certo dia, após o natal de 45, ele a presenteara com uma boneca de trapos. Apesar de toda aquela simplicidade, fora o maior presente que já recebera. Aquela boneca feita a trapos, com um rude pano vermelho formando um vestidinho. Com dois botões que formavam os olhos. E, com sua boca formada por um pequeno retalho interpretando um sorriso. Aquela bonequinha lhe trouxera uma dignidade diante de tantos maus tratos. Porém, aquele 28 de dezembro de 1945 fora apenas um extraordinário fato em sua vida. Damião jamais estivera com aquele humor desde então. Contudo, ela sempre o aguardava com olhos esperançosos.
Ao fitar o homem que salvara a sua vida chegar cambaleando pela embriaguez, ela temeu. E seu temor fora totalmente justificado, pois naquele dia Damião a espancou como se ela fosse a grande culpada por todos os revéis que ocorriam em sua vida. A menina ficara 4 dias sem poder andar e Damião chegou a imaginar que ela jamais tornaria a andar depois daquilo. Ficara com o corpo repleto de equimoses. A jovem maltrapida sequer teve forças para comer durante aqueles dias.

Você, amigo leitor, deve estar imaginando no como essa desventurada jovem sofrera em tão curto período de tempo. Todavia, a vida havia lhe preparado uma surpresa nada agradável. Em 1952, a menina deixara de ser menina tornando-se uma mocinha. Foram mudanças difíceis de serem assimiladas. Pêlos em certas partes do corpo, crescimento de outras e a apavorante menstruarão. Em sua funesta inocência, ela assentira que aquele sangramento seria oriundo de uma das sessões de espancamentos que Damião havia lhe proporcionado. Porém, aquilo vinha todos os meses e o seu tutor, digamos assim, a explicou à sua maneira. Não obstante, de longe essas mudanças foram seu maior problema.
Damião jamais fora um homem atraente em sua juventude nas fazendas do interior de Minas Gerais. Tampouco seria agora quando atingira uma idade considerável e as rugas tomavam conta de sua face. Não lembrava a última vez que tivera uma mulher ao seu lado. A última talvez tivesse sido uma meretriz barata de beira de estrada. Contudo, apesar da idade, ainda existia um fogo mesmo que tímido em seu interior. E a moça se tornara mulher, mesmo que forçada aquilo. Mesmo não compreendendo o porquê. Só compreendia que aquilo teria que ter um fim. Custasse o que custasse aquilo teria que ter um fim.
Em 1953, Damião viajara para Minas a fim de visitar um primo doente. Teria que vê-lo uma última vez, afinal aquele primo seria consumido por completo por uma doença que muitos até então desconheciam. Foram as melhores duas semanas que ela passara naquele casebre. Contudo, a vida não estava disposta a lhe dar trégua. Sentada na rede acariciando a sua surrada bonequinha de trapos, pôde ver Damião surgindo ao fundo da estradinha de barro.
A moça fitou aquele homem carregando uma maleta com resignação. À medida que ele se aproximava, um sentimento iracundo ia atormentando-a. Um sentimento que ela jamais sentira antes. Olhando aquele homem se aproximando, todos os maus tratos surgiam-lhe em uma clarividência. Aquelas duas semanas fizeram a jovem mulher a assentir que aquilo nunca deveria ter ocorrido. E ela, decididamente estava disposta a mudanças.
Damião parou diante dele e a fitou com olhos ardentes. Ela tentou dar de ombros, mas aquele olhar libidinoso intimidava qualquer possibilidade de ignorar tal situação. Ficara nervosa e sem perceber, retesava a boneca de trapos estrangulando-a. Damião estendeu a mão para acariciá-la. Não uma carícia fraternal, absolutamente não. Era uma carícia maliciosa que uma pessoa faz quando transborda em ardor.
-Sentiu a minha falta?
Ela não respondeu, apenas abaixou a cabeça desviando os olhos dele dos seus.
-Eu sei que sentiu. – Insistia ele audaciosamente.
A moça pôde sentir um singelo cheiro de pinga exalando do hálito de Damião. Embora ele não aparentasse nenhum sinal de embriaguez, o pouco que bebera seria o suficiente para transformar a vida dela num inferno.
A moça não reprimiu seu ímpeto repugnante para com Damião, e num movimento brusco, tirou a mão que lhe acariciava de seu rosto.
Damião irritou-se. A mão que antes acariciava agora agredia. Esbofeteou a face dela com um potente tapa que estalou fazendo o rosto dela corar e seus emaranhados cabelos chacoalharem.
-Ingrata! Se eu soubesse deixava os peixes comerem você! Se eu soubesse eu afogava você!
Ela o olhou com os olhos estreitados. Encarava-o febrilmente. Damião não gostava daquele olhar. Ela sabia que ele não estava gostando, porém o afrontava. Os punhos do pescador se fecharam, as veias do antebraço ficaram sobressaltadas e os nós dos dedos esbranquiçados.
-Não me olhe desse jeito se não quer que eu arranque esses olhos!
Ela ignorou aquela frase imperativa num ato desafiador.
Damião precipitou-se para socá-la, porém, ela sequer piscou, ao contrário, seus olhos desafiadoramente se arregalaram quando o punho dele se aproximava de seu rosto.
A mão dele parou a centímetros do rosto dela. Damião sentiu-se incapacitado de agredi-la ante aquele olhar. Recolheu o seu braço e praguejou antes de entrar no casebre e sair sem destino.
Já era noite e ela estava decidida. Damião chegaria a qualquer momento impregnando todo o lugar com o forte aroma de pinga.  Seria a última vez que ele sentiria aquele cheiro naquela casinha de madeira. A moça havia preparado uma pequena trouxa contendo seus poucos pertences. Esperava o retorno de Damião para se despedir. Lamentava não saber ler e escrever, pois não mais gostaria de estar frente a frente com aquele sujeito. Um simples bilhete resolveria a questão. Em sua trouxa, a sua velha boneca de trapos e uma revista cujo achara boiando nas margens do Guandu.  A revista que ela pusera para secar durante dois dias lhe mostrou que havia um grande mundo além das margens daquele rio. Aquilo tivera uma leve influência em sua decisão. A moça já havia assimilado um espírito indomado e desbravador.
Damião finalmente chegara e como era esperado, bêbado e violento.
-O que significa essa trouxa? – Perguntou ele com a voz trêmula pela embriaguez.
-Estou indo embora. – Respondeu ela sem a convicção que demonstrara mais cedo.
Damião jamais pensara ouvir algo tão deveras absurdo e assombroso vindo da boca dela.
-Ora, mas não fale asneiras, sua ingrata!
Ela não respondeu. Abaixou a cabeça enquanto ouvia os insultos de Damião. Poderia se sentir desejada, porém não era o caso. Sabia que o que Damião desejava estava entre as suas pernas, ela poderia ser funestamente inocente, contudo sabia que não poderia viver como um objeto sexual de um velho repugnante como Damião.
-Estou indo. –Ela murmurou.
Todavia, a vida havia de dificultar como sempre dificultou.
Damião agarrou o braço dela com força apertando até que seus dedos ficassem marcados.
-Me solte! – Ela gritou tentando se desvencilhar de suas repugnantes garras.
Damião a atingiu com as costas de sua mão jogando-a no chão. Ela caiu junto à cama, e naquela perspectiva, seus olhos puderam visualizar uma coisa sob a cama que mudaria a vida de todos.

Desde que saíra de Minas Gerais em 1929, Damião perambulou por muitos lugares antes de se estabelecer às margens do rio Guandu. Passara por inúmeras dificuldades inclusive a fome. Tivera que se desfazer de muitos pertences, alguns de grande valor financeiro e sentimental, tal como um colar foleado a ouro que fora herança de sua mãe e um par de alianças também foleadas a ouro que ele teoricamente deveria usar em seu casamento. Porém, existia uma coisa que Damião seria incapaz de se desfazer não sabendo por que cargas d’águas. Uma coisa que ele preferiria ceder um braço para mantê-la em seus domínios. Uma carabina que ao longo de sua vida desde a sua fabricação, só fora utilizada umas 3 ou 4 vezes.

Ela olhava para a carabina como olhos vítreos. Damião a pisava e a insultava.
-Eu vou te matar sua ingrata!
Ela esticou o braço levando-o para baixo da cama. Tencionava pegar aquela arma e por um momento, duvidou que fosse conseguir.
Damião estava bêbado demais para assimilar a intenção daquela moça que ele agredia. Só iria descobrir da pior maneira possível.
Ela alcançou a carabina e puxou-a um pouco para perto de si com a ponta dos dedos. A arma já estava numa posição onde ela poderia agarrá-la. E assim o fez. Damião pisou em sua cabeça e ela bateu com a testa no chão, contudo, esta ação fora suficiente para que perdesse o equilíbrio que já não era dos melhores. Ele se irritara demais ao cair e é claro, culparia aquela moça cujo salvara há 16 anos. O pescador se levantaria e a espancaria até quase matá-la. Porém, a vida colocaria seu destino nas mãos dela.
Quando Damião perdera o equilíbrio e caíra de costas no chão, ela aquiescera que era o momento ideal para reagir. Agarrou a carabina com firmeza e puxou-a de sob a cama pondo-se lepidamente de pé.
Com bastantes dificuldades em se levantar, Damião fazia movimentos bruscos tentando pôr-se de pé. Não obstante, ficou paralisado ao ver a carabina apontada para ele. Por um momento, seu bronzeado tom de pele se empalideceu. Aquele olhar desafiador estava de volta no semblante dela.
Embora a expressão de Damião denotasse um pavor ante a mira da carabina, suas palavras eram a antítese de todo aquele semblante.
-Você não teria coragem – rosnou ele – sequer saberia como atirar.
Ela desviou a mira dele por um curto instante e disparou provando-o que de fato sabia como atirar. O tiro causou um imenso buraco na parede de madeira do casebre em que viviam. Por pouco não havia destruído o pequeno altar com a imagem de Santo Expedito e algumas velas já bastante consumidas.
Damião se assombrou com o disparo. O cano da carabina ainda fumegava quando ela novamente apontou-a para ele. Todavia, o velho pescador dera de ombros e aos poucos fora se levantando sem nenhum temor mesmo sob a mira da arma.
A voz dele subitamente se tornou fria e sóbria. Disse:
-Se quiser pode atirar a vontade, mas jamais se esqueça daqueles que a jogaram no rio. Se quiser me amaldiçoar tem todo o direito, mas amaldiçoe aqueles que jogaram você fora como um saco de lixo.
A moça sentiu aquelas palavras como sentiria um potente soco nas costelas que já recebera em ocasiões anteriores. Ela aquiesceu que todo aquele sofrimento começou quando a descartaram de sua família biológica há 16 anos. Detestava admitir, mas Damião tinha razão. Amaldiçoe aqueles que jogaram você fora como um saco de lixo. Amaldiçoe aqueles que jogaram você fora como um saco de lixo. Amaldiçoe aqueles que jogaram você fora como um saco de lixo. Amaldiçoe...
A carabina parecia que ficava pesada nas mãos dela. Diante de toda aquela situação, ela sentia-se confusa. A arma pendia para baixo tirando Damião da alça de mira. O olhar dela aos poucos ia ficando ausente.
-Você deveria ter o mínimo de gratidão. Eu salvei a sua vida. Eu te alimentei. Eu te Vesti. – Damião falava como se realmente fosse um pai para ela. Pai que ele nunca fizera questão de ser.
Os dedos dela se afrouxaram e a carabina estaria a instante de cair de suas mãos. Será que apesar de tudo, eu ainda devo a ele? Ela se perguntava. Eu ainda devo a ele? Jogaram você fora como um saco de lixo.
Damião precipitou-se avidamente em direção da moça.
Os dedos que antes estavam frouxos e hesitantes ganharam confiança e se apertaram na carabina. Os olhos que estavam ausentes ganharam vidas novamente. Tudo acontecia tão lento e tão rápido num sinuoso paradoxo.
Damião agarrou a extremidade da arma e não encontraria dificuldades para tomá-la. Contudo, um estampido rimbombou naquele casebre às margens do rio Guandu.
Damião tinha os olhos arregalados. Seus lábios tremiam como se ele estivesse sentindo muito frio. A mão direita ainda segurava a extremidade da carabina. A mão esquerda se ergueu diante de seus olhos. Mão que estava manchada de sangue. Manchada com seu próprio sangue.
 Os olhos dela estavam aterrorizados. O corpo dela estava trêmulo como se também estivesse sentindo muito frio. Ela havia puxado o gatilho. Não por maldade. Puxara o gatilho por puro medo. Puxara o gatilho num gesto de auto-reflexo.
Lentamente, Damião ia esmorecendo-se diante dela. O sangue já escorria pelos cantos de seus lábios. Tentara dizer algo, porém sua voz não passou de um ruído esganiçado. Caíra de joelhos e abraçara as pernas dela. Encostara sua cabeça na altura do ventre da moça como uma criança buscando proteção nos braços da mãe, e naquela posição permaneceu até seu último suspiro.

Naquela noite de 14 de outubro de 1953, caíra uma chuva torrencial com pingos grossos e gélidos. Alguns granizos ameaçaram a cair do céu, porém foram reles ameaças. Sob aquela implacável tormenta, ela cavava. Estava ensopada e imunda. Seus cabelos eram um emaranhado de lama. Seus olhos estavam vermelhos. Ela chorava. Matara o homem que lhe dera abrigo, comida e vestimentas. Matara o homem que poderia ter a deixado morrer afogada e não o fez. Acima de tudo, matara sua única família, mesmo que Damião jamais admitisse isso, era sua única família.
A lua surgia por entre as nuvens quando ela jogara a última pá de terra no túmulo de Damião. Ajoelhou para rezar, mas ele jamais a ensinara a rezar. Apenas entrelaçou os dedos e manteve-se em 5 minutos de total silêncio. Caminhara sem destino, não levava mais a trouxa de roupas, levava apenas a carabina. Estava confusa. Em tão pouca idade, experimentara todos os sentimentos, desde os quase prazerosos até os mais mórbidos. Em toda sua confusão mental, apenas uma frase era clara. Amaldiçoe aqueles que jogaram você no rio como um saco de lixo.

O 15 de outubro amanhecera sob um tímido sol primaveril. Maria já não era mais aquela adolescente daquele pobre comunidade às margens do rio Guandu. Era uma mulher pouco servil e doentia. Isolava-se dentro da capelinha do vilarejo onde há 7 anos desde a morte do padre Carlos não era rezada uma missa. Maria passava 8 horas do dia lá dentro. Não conseguia dormir. Por mais incrível que possa parecer, a fé lhe trouxera desconforto e perturbações. A dor da culpa.

-Eu nasci aqui!? – Murmurou uma jovem moça.
De alguma maneira, ela assentira que aquele vilarejo era a sua “terra natal”. Caminhara sem se importar com o que iriam pensar de vê-la com uma carabina em mãos. Embora o lugar aparentasse ser uma cidadezinha fantasma; todos estariam labutando na lavoura e só retornariam ao cair do crepúsculo. Olhando para cada casebre do local, ela imaginou no como seria diferente se tivesse a oportunidade de viver ali. Ao passar defronte a capelinha, pôde escutar um murmúrio vindo de lá e a moça decidiu entrar.
Maria fazia suas fervorosas preces quando a portinha da capela rangeu em suas já enferrujadas dobradiças. O sol da primavera iluminou a escuridão e a brisa apagou a vela localizada no altar onde o padre Carlos consagrava o vinho em sangue e o pão em carne. Maria olhou por cima dos ombros em direção a entrada da capelinha. Seus olhos se arregalaram num ambíguo misto de perplexidade e contemplação. Diante de seus olhos, uma figura não tão alta e não tão pequena segurando uma arma que fazia um conta-senso devido à sua altura (arma que não assustava Maria). Sua silhueta era delineada pelos raios do sol primaveril. Quando os olhos de Maria se adaptaram a iluminação vinda de fora, pôde visualizar melhor aquela moça esquálida com traços já marcando seu rosto desde nova.
A moça olhava Maria com olhos resignados. Ameaçou dar um passo a frente, mas hesitou. Havia um odor acre impregnado na capelinha. Aquela mulher a olhava como se ela a estivesse esperando por muito tempo. Houve um curto período de estagnação. Maria que estava de joelhos pôs-se de pé. A moça não mais hesitou e entrou na capelinha.
Os lábios de Maria estavam trêmulos e a cada passo que aquela figura avança em sua direção, sua pele ia empalidecendo. Seus olhos iam marejando-se. A cada centímetro que aquela moça armada com uma carabina crescia em seu campo de visão, cada vez mais Maria poderia observar o quanto ela havia sofrido naquela vida devido às cicatrizes e as equimoses em seu rosto, braços e pernas.  Maria caiu de joelhos aos prantos diante daquela moça. Sua cabeça se inclinou até os pés sujos de lama dela. Agarrou os tornozelos da esquálida mulher e a cena se assemelhou a Maria Madalena lavando os pés de Jesus com suas lágrimas e enxugando-os com os cabelos.
A moça observava aquela cena num misto de perplexidade e resignação. De alguma forma assentiu que aquela mulher chorando a seus pés havia participado diretamente da mudança de sua vida.
-Me perdoe pelo o que fiz – dizia Maria com a voz trêmula pelo choro. – eu não tinha noção... Nossa senhora me mostrou como uma vida é valiosa e eu... Deus do céu, você não sabe o quanto eu esperei para pedir perdão por tudo que fiz a vocês.
As mãos de Maria iam subindo pelas pernas daquela moça armada.
-Não consigo dormir mais... Todas as vezes que eu fecho os meus olhos eu as escuto chorar. Eu não sabia o que eu estava fazendo. Se você me perdoar eu terei um pouco de conforto. Perdoe-me, não me mate!
As mãos dela já acariciavam o ventre da moça mesmo com a carabina estacionada naquela altura.
-Não me mate, por favor, não posso morrer com essa culpa na alma. Não entrarei no reino do céu se não tiver o perdão das almas daquelas crianças. Você vai ser mãe, posso perceber acariciando a sua barriga. Eu não quero cair no fogo do inferno.
Pela primeira vez em sua vida, aquela moça maltratada pela vida sentira pena de outrem. Antes só conhecia a auto piedade, porém agora havia uma nova coisa que a fez estremecer-se.
-Foram os velhos que me obrigaram a fazer aquilo. Eram tempos difíceis – Maria se abraçou ao ventre da moça que tivera que levantar a carabina para que ela completasse o abraço – eu posso ouvir o coraçãozinho dele batendo. É um presente de Deus para você. Vai ser uma boa mãe.
A grávida armada se afastou de Maria abruptamente. Naquele momento sua vida teria de seguir por outra perspectiva. Por mais que ela não fizesse ideia de como uma criança nascia, sabia das dificuldades que era alimentá-la.
Ao vê-la tomar uma meia distância de si, Maria imaginou que ela iria atirar.
-Oh não, por favor, aqui é a casa de Deus!
Maria se inclinou para frente num gesto de assalamaleico. E naquela posição permaneceu esperando ouvir o estampido da carabina que poria fim a sua doentia vida. Porém, o que ela escutara fora a portinha da capelinha rangendo em suas enferrujadas dobradiças novamente.
Maria agradecia aos céus por estar viva. No entanto, se pudesse adivinhar o futuro, pediria para que aquela moça apertasse o gatilho num benevolente ato misericordioso. Maria passou o resto da vida em busca de paz de espirito e em busca do perdão das almas que ela mandara para o limbo. Porém, os pesadelos jamais cessaram. Sucumbiu a loucura e definhou até morrer 15 anos depois.
Os moradores daquela pequena comunidade à beira do rio jamais tomaram conhecimento daquela visita que surgiu como um espectro vingativo. A vida deles manteve-se na ordinária monotonia do local. Os tempos não eram tão difíceis e nenhuma outra menina recém-nascida fora jogada ao Guandu por eles.

A moça desistira de explorar o convidativo e colorido mundo além das margens do rio. Voltara ao velho casebre onde passara boa parte de sua vida. A gravidez lhe fora um grande empecilho. Não compreendia o porquê. Porém a vida já havia lhe provado que ela não tinha que compreender. Tinha que aceitar e resistir.
Da mesma maneira que ela sobrevivera quando a jogaram no Guandu, só Deus sabia como ela conseguira dar a luz aquela criança sozinha e isolada. A dor fora algo que ela jamais gostaria de experimentar novamente e jamais tornou a experimentar. Instintivamente ela o amamentou, porém sabia que o leite não duraria para sempre. Como iria alimentá-lo? Como iria vesti-lo? Diante daquele dilema, ela não se viu com muitas escolhas e compreendeu o espírito da coisa.
Ela tinha sua criança embalada em um esquálido tecido marrom. A criança chorava e ela a aninava. O sol refletia-se nas águas do rio, era uma linda manhã de fim de outono. A criança parara de chorar e a moça a entregou para que o Guandu selasse o destino dela assim como selou o seu.