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sábado, 30 de julho de 2011

O Missionário

“Eu não tive escolha. Ou era meu emprego ou a verdade”, e arrematou a tulipa de cerveja com uma golada que tragou meio copo. “Não vou ficar remoendo, não... Tenho família, uma filha...”

O Homem, que bebia ao seu lado, num boteco no Largo da Carioca, parou de falar e pôs a mão açodadamente no bolso de trás da calça, puxando a carteira. Do bolso dos níqueis, retirou uma três por quatro. Era uma menina alva como uma pomba, de cabelos lisos e olhos esbugalhados.

“Eu sei o que é isso”, disse o outro, na outra ponta do balcão, que bebia com vagar a cerveja, “também tenho uma filha. Eu acho que faria qualquer coisa por ela. Às vezes penso que se alguém fizesse alguma coisa pra ela, eu mataria!”, terminou com o resto de cerveja que restara em seu copo americano.

O Homem da outra ponta do balcão tirou do bolso uma nota de dez reais e pagou pelas duas garrafas de cerveja que bebera com o amigo enquanto conversavam. O que o ladeava pôs a mão na carteira do outro, não queria que lhe pagasse a bebida. O da extremidade do balcão insistiu, Deixa de bobeira, rapaz, ele disse. O balconista já estava de volta da caixa registradora com o troco. Era pouco, o homem da ponta do balcão lhe agraciou com uma gorjeta. Não precisava, senhor, respondeu.

Era final de expediente, e Jorge trabalhara tanto, envolto em tantos processos, tantos despachos, que nem vira o tempo passar. Por isso estava no bar, bebendo, antes de pegar o trem do metrô para casa. Saíra maquinalmente do edifício onde ficava seu escritório, na Avenida Nilo Peçanha. Até atravessar o vestíbulo, despediu-se como um robô enferrujado dos faxineiros, cumprimentou com um lance de cabeça o ascensorista, que achou estranha a débil deferência de quem sempre lhe tratara tão afetuosamente. Torciam pelo Fluminense e isso os aproximou; só falavam disso enquanto Jorge circulava pelos andares do edifício do Ministério Público Federal através do elevador.

Caminhou pela calçada; atravessou a Avenida Graça Aranha apressadamente – o sinal o admoestara com seu verde intermitente; cruzou a Avenida Rio Branco, seguindo em direção ao metrô. Só então caiu em si. Balançou a cabeça como quem acaba de acordar da sesta e arremeteu. Estava prestes a descer as escadas rolantes em meio à multidão que pelo rol de entrada da estação do Largo da Carioca acorria. Foi até a esquina e resolveu parar no bar cujo cardápio lhe apetecia desde os tempos da faculdade. Sentou-se no banco e pediu uma cerveja e um sanduíche de pernil. O garçom lhe atiçou a lembrança. Olhando-o por cima dos óculos escuros que sempre punha ao sair do trabalho, teve a certeza de que o garçom o havia reconhecido.

Dois homens conversavam ternamente, como se já estivessem ali por uma meia hora. Jorge sabia que o bar é um ímã, que torna tanto os que nele bebem pouco quanto os que nele se embebedam confidentes; homens simples desfiam teses sobre qualquer assunto; aposentados vetustos falam dos amores passados aos jovens; juízes se dignam a colóquios sórdidos com qualquer tipo que se aproxime.

Acompanhara somente o final do diálogo entre os dois. Depois de sentar-se ao balcão, apoiando o peso do torso nos antebraços sobre o aparato de vidro, de onde o garçom retirou o pernil despedaçado para lhe preparar o sanduíche, Jorge deixou sua mente evadir-se de si novamente. Bebeu, mas foi como se não o tivesse feito. Só o sabor do pernil, quiçá pelo longo tempo sem degustar da iguaria, pôde trazê-lo de volta.

A cevada amalgamada ao trigo e à proteína animal o tornou mais desperto. Até onde sua vista pôde alcançar, acompanhou com atenção os homens que o circunstavam, e que agora caminhavam em direção à Avenida Chile. O que bebia ao seu lado punha com cuidado a foto de sua filha na carteira, no exíguo compartimento dos níqueis, quase a esbarrar na multidão afoita ao sair do trabalho; o da extremidade do balcão falava enquanto tamborilava com a mão esquerda sua própria perna.

Ao perdê-los de vista, Jorge novamente caiu fleumático no nada de sua mente. Quando voltou a si, a cerveja já havia descido por completo pelo seu esôfago; sobrara-lhe um pedacinho do sanduíche. Jogou o pão fora e mastigou lentamente o que sobrara do pernil. Pagou a conta, disse até mais ao garçom, que lhe respondeu. Um lembrara do outro, de fato.

Caminhou lentamente até a estação. Menos de um minuto. Desceu as escadas rolantes. Era o ápice do afluxo de passageiros. O dia útil chegava ao fim. Havia filas para pagar as passagens, filas nas máquinas para carregar o cartão dos usuários dioturnos do metrô e havia filas para ultrapassar as roletas. Jorge as transpôs como um sonâmbulo.

Uma mulher deslumbrante passou por ele no rol. Usava uma calça colada ao corpo, sapatos altos, uma camiseta amarela; os cabelos eram como um polvo, saltitando sobre os ombros. Seus olhos se arregalaram. Sua atitude pachorrenta celeremente desapareceu. Jorge seguiu a mulher, mas até mudar de seus passos até este momento lentos para um caminhar intrépido, a mulher o despistou. Uma dezena de transeuntes se interpôs entre Jorge e seu alvo feminino na direção das escadas rolantes que a estavam levando até a plataforma. Jorge tentou ultrapassar um senhor obeso que estava a sua frente. Avançou pela esquerda, mas deu de cara com um muro humano de caminhantes desesperados para retornar às casas. Perto da escada rolante, viu a mulher descer correndo do último degrau em direção à composição que partiria à Zona Sul. Refugou como um cavalo açoitado. Nem se pudesse alcançá-la... Jorge morava na Pavuna.

A freada inesperada, num segundo, foi interrompida pela multidão que vinha das catracas. Jorge, empurrado, compulsoriamente caminhou indeciso como um boi rumo ao abate. Olhava para o chão; estava a ponto de se perder em devaneios estéreis novamente.

Quando peristalticamente concentrou-se para acertar o pé direto no degrau que assomaria logo abaixo dele, outra mulher o deteve. Uma mulher de idade indefinida, pele carmesim; usava um vestido gris escuro no busto e notadamente mais claro da cintura para baixo; os joelhos ora apareciam, ora se escondiam por baixo da barra do vestido, como crianças num pique-esconde; os olhos, embaçados, escondiam-se por detrás de uma lente grossa; seus cabelos eram desgrenhados e encanecidos. Toda tez comprimia-se em torno dos olhos; aqueles olhos quase cerrados, olhos de uma quase cega, sugavam para sua órbita todo o rosto da mulher grisalha, como o Sol atrai despoticamente os corpos celestes que em torno dele giram; as têmporas eram gretadas como se lhe as tivessem cavado com um estilete cego; suas sobrancelhas, arqueadas num “v” em ângulo obtuso; a boca aberta, pois o lábio superior também fora atraído pela densa gravidade impressa pelos olhos defeituosos; a testa, fresada.

A mulher arqueara seu corpo para ver com a maior clareza possível os degraus que corriam. Tateou o corrimão. Quase caiu, pois numa escada rolante isso deve ser feito concomitantemente ao passo, contudo não se sentira segura para pisar o degrau.

Jorge caminhava a passos curtos e fitava-a. Ficou esperando alguém lhe oferecer ajuda, tinha medo de socorrê-la e piorar situação que já lhe parecia deveras perigosa. Ninguém apareceu. Mesmo evitando, teve que lhe oferecer sua mão. Antes que Jorge a levantasse, a mulher segurou com força seu antebraço.

“Me ajuda, meu filho?”

Sua voz era jovem, mas insegura. Jorge a olhava com intensidade, talvez por saber que a mulher não o mirava, senão quando intentava pisar algum dos degraus rolantes e refugava.

“Claro”, disse Jorge segurando-lhe o antebraço com a outra mão. “Vamos lá... Olha o degrau e... Pronto”.

Na escada, Jorge concentrou-se, desde a subida, com a descida. Não havia pessoas à frente deles. Ninguém subira na escada enquanto a senhora lutava contra a falta de visão. Atrás deles, a multidão se espremia entre os degraus. Na escada que subia para o rol e trazia os passageiros da viagem de trem, todos os observavam. Alguns pensaram se tratar de um casal esquisito. A maior parte dos que subiam olhavam para Jorge e com ele se solidarizavam; era um recado mudo de boa sorte, de parabéns, de vocês vão chegar bem à plataforma. Jorge se sentiu bem.

Enquanto desciam ficaram em silêncio. Jorge estava concentrado em realizar sua boa-ação, a mulher só olhava para baixo.

Na metade do caminho, Jorge a inquiriu.

“A senhora está acostumada a andar sozinha aqui?”

“Sim. Sempre tem alguém pra me ajudar.”

“Então... Estamos chegando. Isso, isso mesmo... Mais um pouquinho e... Pronto!”

Não foi bem um gritinho de júbilo, entretanto estava bastante feliz. Era a mesma inflexão que usava com sua sobrinha ao vê-la realizar alguma tarefa ou brincadeira pela primeira vez.

“Obrigado, meu filho. Vai com Deus”

“Vai com Deus, Senhora.”

Ateu que era, sorriu. Não de si próprio. Não obstante sua condição de ímpio, sentiu-se abraçado por Deus, mas era como uma abraço de mãe, de um freira gordinha, de uma catequista velhinha. Só depois de passado o calor do amplexo dEle(a/as) pôde rir de si mesmo.

Num instante, a plataforma estava como sempre, àquele horário do dia. A mulher se perdeu na multidão que se ricocheteava em frente aos lugares onde se abririam as portas da composição vindoura. Jorge olhou para todos os cantos. Seu altruísmo agora era só seu e da mulher de cinza – com efeito, era somente de Jorge, pois no dia seguinte, a mulher iria descer pela mesma escada e contar com a ajuda de outro estranho, o que faria sua atitude de herói esvair-se da memória da simpática ceguinha.

A mente sem luz e sem cais de Jorge jazia agora no trabalho, no bar, no caminho para o metrô. Outra pessoa, renovada, estava agora a se apinhar no formigueiro . Sorria, bem de leve, mas sorria. A alma sorria mais desavergonhadamente ainda. Não podia demonstrar o quanto se sentia bem por ter feito o bem. Nem atinou que deveria ficar triste por pouco ter ajudado aos outros até então, tampouco pôde – ou não quis – concluir que não poderia ter feito outra coisa, que nem um facínora negaria seu braço à mulher.

Pensava em ajudar mais gente, aos seus vizinhos pobres, frequentar a associação de moradores, ministrar aulas de alguma coisa no curso pré-vestibular comunitário.

Foi então que sorriu de si mesmo pela primeira vez. A porta do trem se abriu. Seu sorriso fátuo não se abalara, enquanto quedava-se ao sabor dos homens e mulheres que o empurravam para o vagão superlotado.

Do jeito que entrou, ficou. Braço direito para cima, pé direito pisando outro pé de quem não podia se movimentar, senão pela força da multidão enfurecida.

Imóvel, refém dos rumores do vagão em movimento e dos colóquios que ainda se podiam escutar, tendo em vista a dificuldade para amigos, mães e filhos, casais se manterem juntos, lutando contra as torrentes de corpos humanos; fustigado pelos odores ora de cigarro, ora do miasma dos hálitos, ora das axilas malcheirosas, Jorge matutava feito um enxadrista. Para cada vaticínio humanista e beneficente que lhe aplacava o coração, seguia-se um leve sorriso indolente e censor para consigo. Como se quisesse desfrutar para sempre do prazer de ter ajudado a mulher míope, Jorge criava irrefreavelmente elucubrações de uma vida nova, cheia de doação, comunitária, mais dos outros do que de si. Tão logo se imaginava coletando cães sarnentos nas ruas, como se cochilasse numa sessão de cinema, uma mão invisível logo lhe esbofeteava de leve, como que para acordá-lo e lhe tirar um sarro do devaneio juvenil no qual acabara de embarcar. Imaginou-se plantando árvores nas ruas, Mas na hora da minha pelada?, retorquiu-se, balbuciando a pergunta entre as cabeças e ombros bem ao seu lado. Sorriu novamente. Não havia como controlar o furor de Madre Teresa que lhe subia à cabeça. Era uma visão atrás da outra, um sorriso atrás do outro, de modo que quem o olhasse ali naquele furdunço pensaria que sorrira desde o momento em que entrara no vagão até sua a saída, na estação terminal da Pavuna.


Quando deu por si, já no dia seguinte, Jorge já estava no elevador com quase uma dezena de pessoas e o ascensorista. Olhou para o relógio. Final de expediente. Virei mesmo um Zumbi, pensou.

“Quem joga Domingo, Rafael Moura ou Fred?”, perguntou ao ascensorista sem lhe dardejar o olhar, mantendo-o fixo para a porta que logo se lhe abriria.

“Fred”. Silêncio.

“Espero que não se machuque, né, Jorge...”, o ascensorista não conseguiu sustentar por muito tempo o gelo que tencionara dar no seu camarada, “Com o Fred a gente nunca sabe, só que na noite ele não desfalca a mulherada: joga todas e marca um gol atrás do outro.”

Os homens no elevador sorriram timidamente, senão Jorge, que gargalhou e jogou o diário esportivo no colo do ascensorista, assim que a porta se abriu para o andar térreo. Bateu no ombro do funcionário, que se despediu levantando sua mão esquerda.

Ao sair do edifício, Jorge não sabia para aonde ir. Deu três passos em direção à Avenida Antônio Carlos. Parou. Pensou. Volveu e seguiu rumo ao Largo da Carioca.

Lá chegando pediu o mesmo do dia anterior. Olhou o garçom dos dias de faculdade. O homem parecia querer lhe falar; ao menos, deu todas as condições a Jorge para que iniciasse a conversa. Jorge preferiu comer e beber, somente.

Errou novamente pelos bulevares vazios de sua mente. Estava a olhar para a sua direita, na mesma direção onde os desconhecidos que lhe haviam despertado um fiapo de interesse no dia anterior caminhavam, mas não enxergava o ir e vir dos trabalhadores na praça. Seus olhos refletiam as imagens que deveriam penetrar seus olhos.

Teve de esbugalhar os olhos e balançar a cabeça. Um borrão de gente apressada foi se desfazendo e transmutando-se numa imagem nítida. A mulher de vestido cinza andava indecisa recortando a multidão. Perscrutou-a; estava como no dia anterior, a não ser pelo vestido gris. Agora vestia um bege.

Um pastor fazia o discurso para seus fiéis, rodeado por algumas dezenas de pessoas. A mulher esbarrou numa senhora mais velha. Falou algo ao seu ouvido; a senhora crente lhe respondeu algo muito rapidamente, e as duas pararam e voltaram suas atenções à pregação. Tão logo o culto improvisado foi encerrado, a senhora mais velha pegou a quase cega pelo antebraço, caminharam pelo Largo, passaram em frente ao bar onde Jorge estava e foram até o metrô. Desceram.

Jorge assustou-se. Pagou rapidamente o seu lanche sem se despedir do garçom. Foi até a entrada do metrô, preocupado que ficara com a mulher que mal enxergava. Quem será essa mulher que a levou até a estação?, pensou. Num átimo, parou como se fora petrificado. Duas mulheres que vinham atrás lhe esbarraram, uma em cada espádua. A da sua direita reclamou. Jorge sequer a escutou. Lembrara do que a frágil ceguinha lhe dissera à mesma hora do dia anterior.

Sua pasta ficara no balcão do bar. Voltou para lá apressado, sem poder correr, sob pena de servir como bola de boliche e derrubar meia dúzia de transeuntes.

A pasta ainda estava lá, robusta, cheia de papéis. Havia levado trabalho para a casa. A imagem da mulher indefesa já lhe ocupara a cabeça, e com ela os sorrisos. Sorria de si próprio mais do nunca.

Atrás o balcão o garçom. Estava de costas, lavando uma fileira de copos americanos sujos de cerveja. Ainda com os dentes de fora, criou coragem.

“Eu não conheço o senhor?”, disse Jorge, coçando o queixo.

“Conhece sim”, respondeu o garçom, lavando o último copo, “você não mudou nada”, virou-se o balconista, escorando-se na borda pia, enxugando as mãos, “nem seus amigos. Eles sempre aparecem aqui”.

“Os da faculdade?”, perguntou Jorge, baixo e ininteligivelmente, de si para si.

“Toma”, disse Jorge, tirando do bolso cinquenta reais, “põe na conta”.

“Você não tem conta aqui, que dirá pendura.”

“Eu sei. Eu vou voltar aqui amanhã. E depois de amanh... Não, depois de amanhã é sábado. Volto aqui na segunda. Já deve ter aí”, Jorge apontou para a nota que o garçom segurava, “uns sete sanduíches de pernil”.

“Mas o senhor não precisa pagar tudo agora. Pra quê?”, respondeu o garçom, mostrando toda a sua incredulidade diante da situação, perquirindo a cédula.

“Eu sou meio esquecido. Não é por mal, eu sou assim. Nos últimos tempos isso tem ficado pior. Esses cinquenta reais vão me fazer voltar aqui. Aliás, quinze desses cinquenta são seus”

“Não precisava”, respondeu-lhe o garçom, com uma inflexão de quem já dramatizara agradecimento parecido a outros fregueses que lhe haviam dado gorjeta. “Quem doa algo – pode até ser pouco dinheiro – tem uma missão especial aqui nessa Terra. Pena que essas pessoas de bom coração não se dão conta. Você pode ser uma delas”.

Jorge sorriu. De si mesmo, como fizera nas últimas vinte e quatro horas. A viagem de volta para casa já não lhe seria tão fatigante, contudo não menos fátua que a do dia anterior, ao contrário.

“Isso não é nada, mas não é nada mesmo”.

domingo, 10 de julho de 2011

O último elo


O último elo



“E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou
No dia em que a Terra parou”
- Raul Seixas-

“Vidas estrangeiras formam o inventário
Estado suspendido de criogenias
Memórias selecionadas são a história
Acreditada e profetizada, mas quem suspeitaria
A inteligência militar
Duas palavras combinadas que não podem fazer sentido”

- Megadeth-










PARTE 1
O DESPERTAR

A pelada de domingo foi a última lembrança que tive do mundo como ele era. Se eu fechar os olhos, certamente terei um vislumbre daquela manhã estival sob o céu de anil. Se minha voz silenciasse, poderia ainda ouvir os meus amigos na roda de conversa após os jogos. Assim como poderia sentir o odor de suor que minha camisa do Fluminense impregnava caso minha mente ficasse vaga. Realmente, essa foi a última lembrança que tive antes do fim do mundo, por mais estranha e simplória que possa ser, foi a última lembrança.
            Assustei-me quando abri os olhos e me vi em um quarto de hospital. O susto não se deveu ao fato de estar em um leito hospitalar, afinal, pessoas voltam e meia são internadas e acordar em um hospital, soa tão normal quanto cagar sentado, porém, o que mais me apavorava era que não conseguia me lembrar de como fui parar ali.
            Meu estômago doía e minha garganta estava seca quando arqueei meu corpo e ajeitei-me a por de pé. Minha cabeça pendeu para frente de tal maneira, que por pouco, tive a impressão que ela rolaria do meu pescoço como uma bola de futebol. Ruídos ressoavam de minha barriga como se lá houvesse um animal clamando desesperadamente por comida. Não sabia em qual hospital estava, mas tinha a certeza que não me alimentavam há dias.
            Quando pus meus pés descalços no frio piso daquele quarto, meus joelhos vacilaram e minhas mãos buscaram um apoio imediato. Fazia tempo que não usava minhas pernas e pela agulha espetada em meu braço vinda de um tubo de soro na qual jazia uma embalagem já vazia na outra extremidade, me deu a ideia que estava em um estado de coma. O pedestal que fixava o soro no alto caiu no chão devido a um movimento brusco que fiz causando um estrondoso ruído metálico.
            Definitivamente, despertei de um coma, porém naquele instante, não sabia quanto tempo estive fora de sintonia, no entanto, era uma coisa deveras irrelevante; havia algo estranho acontecendo, eu pude anuir, e não era só comigo, se tratava de algo global.
            Tirei a agulha do soro de meu antebraço direito onde havia deixado uma hedionda marca roxa em seu contorno. Caminhei em passos trôpegos em direção da porta e girei a maçaneta fazendo as dobradiças guincharem em um longo e agudo trinado.  Silêncio absoluto. Um silêncio demasiado até para um hospital. Os corredores estavam vazios e uma mórbida brisa gelada penetrava pela janela basculante localizada no limiar do andar.
            A brisa trouxera consigo um cheiro peculiar. Um horrendo cheiro de podridão e morte.
            - Alô? – chamei hesitante – Alguém?
            Não havia ninguém conforme eu havia imaginado. Olhei para o elevador na minha frente e não me senti seguro em usa-lo. Teria que ir pelas escadas e torci para não estar no Décimo-e-Lá-Vai-Caralho-Andar (não estava). Ainda com dificuldades, fui caminhando até as escadas usando a parede como apoio. Meu estômago insistia em roncar, a fome uma coisa abstrata com sintomas concretos, me debilitava, todavia, ela sumiria assim que eu entrasse no quarto 507.
            A porta entreaberta causou um pequeno vão entre o batente e a quina da mesma. Por aquele vão, pude notar que havia uma pessoa sobre a cama daquele quarto. Empurrei a porta e de imediato, um fétido cheiro de carne estragada penetrou em minhas narinas. Algo estava morto. Alguém estava morto.
            A pessoa sobre a cama estava coberta por um fino edredom.
            - Olá. – Eu disse por desencargo de consciência.
            Como esperado, ele não respondeu.
            Mergulhado em uma curiosidade mórbida, aproximei-me daquela pessoa e puxei o edredom como um mágico sacramentando seu número. Para meu horror (não para minha surpresa) o sujeito de fato estava morto.
            Uma nuvem de moscas varejeiras voou espalhando-se pelo quarto 507 causando um zumbido singular assim que tirei o edredom de cima daquele sujeito. Junto delas, o horrendo cheiro de putrefação de um corpo decomposto. Meu estômago embrulhou-se de imediato e se houvesse alguma coisa nele, certamente sairia pela minha boca ou por qualquer outro buraco disponível. Recompus-me e fui até a janela a fim de trazer um pouco de ventilação naquele ambiente funesto.
            O céu era pálido e o vento era gélido. Percebi naquele momento que o verão havia ficado bem para trás. Tornei a olhar para o corpo em decomposição em um fascínio aterrador. As larvas consumindo-o em um trabalho lento e feroz. Suas órbitas vazias, mergulhadas em um negrume infinito. Sua barriga inchada prestes a explodir como uma bomba de tripas. Fezes ladeando suas nádegas, o que significava que aquele homem morreu abandonado naquele local. Morrera mergulhado na própria merda, o que me fez perceber também, que enquanto estive em coma, alguém devia ter feito em mim uma lavagem intestinal ou coisa do tipo.
            Deixei aquele quarto com uma péssima sensação. A ideia de abandono era algo que causava certo desconforto na alma. Desci as escadas e nunca precisei tanto de um corrimão como havia precisado naquele dia. Levei quase 15 minutos para chegar ao primeiro andar. O “Blang” que a porta da escada fez atrás de mim ao se fechar, explodiu em um ruído que ecoou pelos corredores vazios.
            Metros adiante, no meio do corredor principal do hospital, havia uma porta que dava para um pequeno jardim que antes do fim do mundo, devia ser mais bem cuidado. O mato já tomava os canteiros e ervas daninhas cresciam pelo chão de pedras de brita. Uma cantina se oferecia para mim no fim daquele pequeno jardim. Os bancos de madeiras estavam tomados pelos cupins e a cantina estava devidamente saqueada. Para minha sorte, um pacote de Ruffles ficara esquecido pelos vândalos, mas não pela umidade. Uma garrafa de água mineral mesmo que vazia me seria útil. Havia merda de ratos por todos os cantos.
            Um corpo jazia sobre uma das poltronas da recepção. Os longos cabelos esbranquiçados sobre o rosto cadavérico e desmilinguido me fez perceber que se tratava de uma senhora. Uma máscara jazia sobre sua face e tal apetrecho não lhe tivera serventia. Diversos buracos de mordidas existiam ao longo de seus braços e pernas e suas roupas estavam em farrapos. Decerto, ela fora um belo banquete para uma colônia de ratos.

PARTE 2
O MUNDO SEM NINGUÉM

            As ruas de Campo Grande e em todo o Rio de maneira geral estavam desertas. Folhas de amendoeiras cobriam as calçadas formando um amarelado pungente. Ferrugens já tomavam as latarias dos veículos esquecidos pelos estacionamentos. O céu cinzento era um pátio para os urubus que voavam em círculo espreitando a carniça lá do alto. Alguns estavam sobre os postes de luz e pareciam que me lançavam olhares perplexos, pois fazia tempos que não viam alguém caminhando por aquelas bandas.
            Quando criança, sempre ouvi a história de que se uma guerra nuclear estourasse, no fim, só restariam as baratas como únicas sobreviventes, porém, posso dizer com propriedade que, em uma extinção da raça humana, quem passa a dominar o mundo são os gatos. Jamais havia visto tantos pelas ruas, perambulando e ronronando a procura de comida e até mesmo, a procura de companhia.
            Uma garoa passou a cair trazendo com ela um congelante vento ártico. Precisava tirar aquela camisola hospitalar e colocar uma roupa de verdade antes que a noite caísse. Conforme ia me movimentando, minhas pernas pareciam que se adaptavam paulatinamente as suas velhas funções motoras. E, em 20 minutos numa estimativa de 40, cheguei ao centro comercial de Campo Grande.
            O centro de Campo Grande estava parcialmente devastado. Metade das lojas do calçadão estava destruída por um incêndio e suas estruturas esqueléticas jaziam apontadas para o céu plúmbeo. As lojas que não foram atingidas pelo incêndio devastador, exibiam-se com suas vidraças quebradas e com seus interiores mergulhados numa bagunça insana. Por um instante, fechei os olhos e divaguei imaginando o pandemônio que engolira o Rio de Janeiro. A chuva começou a cair com maior intensidade e me vi obrigado a buscar um abrigo.
            Não tive dificuldades em encontrar um par de tênis (dois número maior que o meu) e uma calça jeans junto de uma blusa de manga. Embora existisse um forte cheiro de mofo que me fez espirrar nos primeiros minutos, era melhor do que sentir frio. Enquanto o temporal caía sobre uma terra abandonada, eu comia aquela batata. Estava horrível, mas foda-se, pensei na hora, era a única coisa que tinha.
            A noite caíra enquanto eu imaginava se alguém além de mim teria sobrevivido. Pensava se meus familiares estariam bem em algum lugar, ou até mesmo se estariam em casa assistindo TV alheios a tudo, porém, voltar em casa estava totalmente fora de questão. Tinha medo de encontra-los igual ao senhor no quarto 507 do hospital, abandonado sobre a própria merda. Relampejava e o ambiente escuro era clareado por um curto segundo. Apenas a escuridão e a incerteza me fizeram companhia naquela noite funesta.

PARTE 3
LUZES NO CÉU

            Dois dias após eu ter acordado do coma, Já me encontrava no centro da cidade. Por sorte, havia encontrado uma bicicleta e por mais sorte ainda, uma mochila e vários biscoitos aparentemente bons pelas embalagens conservadas. Encontrei os biscoitos em uma loja de conveniência e fora lá que tive a primeira pista do que havia ocorrido com o mundo.
            Em um jornal com a data de 28 de dezembro, totalmente amarelado pelo tempo, trazia em sua página principal a seguinte notícia.
            GRIPE MUTANTE FAZ SUAS PRIMEIRAS VÍTIMAS NO PAÍS
            - Uma grande epidemia. – Eu disse enquanto segurava o jornal.
            A quantidade de corpos que encontrei ao longo do meu solitário percurso foi algo surpreendente. Pessoas mortas pelos meios das ruas, caídas pelas sarjetas sem sequer terem a chance de um leito, sem a chance de um velório e uma extrema-unção. Todavia, nada fora mais perturbador do que vi em Deodoro.
            Às margens da Avenida Brasil, no local onde foram disputadas as provas de tiro e hipismo do Pan Americano de 2007, existia uma hedionda e insalubre pilha de corpos carbonizados. Os urubus tomavam aquele lugar como O banquete. Passou pela minha cabeça a possibilidade de meus parentes e amigos estarem naquela pilha da morte. O vento soprou em minha direção e trouxe com ele aquele horrendo cheiro, o cheiro do churrasco do inferno. Minhas estranhas se remexeram em um nó e vomitei o biscoito de chocolate que havia comido antes de partir pedalando ao léu.
            Durante o meu caminho até o Centro, o que passava em minha cabeça em uma perturbação arrebatadora era o que teria provocado a tal gripe mutante e por que uma sociedade tecnologicamente avançada, não havia conseguido lidar com ela.
            O centro do Rio estava tão devastado quanto o centro comercial de Campo Grande. Com suas lojas saqueadas e corpos pelas sarjetas com as inúteis máscaras cobrindo bocas e narinas, a cidade estava mais para uma Chernobyl sul-americana. A noite não demorou a cair assim como não demorou a cair à típica garoa do inverno. Havia rodado quase toda aquela região a procura de sobreviventes, porém, o que encontrei foram apenas gente morta.
            Em uma livraria localizada na esquina entre a Avenida Rio Branco e a Rua Theophilo Otoni, eu apenas contemplava a noite com o seu peculiar e primordial silêncio soturno. Talvez em São Paulo houvesse de ter sobreviventes. Eu pensava tencionando em me mover para lá.
            - Amanhã irei atrás de um carro, dirigir não deve ser tão difícil e com as estradas vazias, não haverá tanto perigo. – Murmurei enquanto conjecturava a hipótese de levar vários livros comigo. Pois se eu estivesse sozinho no planeta, a leitura adiaria o pleno estado de insanidade que me dominaria cedo ou tarde.
            Dormia profundamente quando um barulho vindo do lado de fora me acordou. Abri os olhos de maneira imediata com um brilho de esperança ardendo em centelhas dentro deles. Não era ninguém a princípio, cheguei a imaginar que fossem os dominantes gatos a procura de comida, afinal, a Terra pertencia a eles agora, no entanto, um feixe de luz penetrou pelas frestas dos compensados postos diante das vitrines (quem em meio a uma epidemia devastadora saquearia uma livraria?) iluminando o breu absoluto.
            - Ei! – Gritei levantando de imediato. – Eu estou vivo!
            A luz que se movia do lado de fora ia se distanciando. Assenti que não me ouviram e corri em direção à porta tropeçando numa pilha de livros derrubando-os. Esgueire-me pela porta semi arrombada, porta que eu não conseguiria atravessar se estivesse em meu peso regular. A tal luz vinha do céu e iluminava a Avenida Rio Branco em busca de pessoas vivas, e a primeira impressão que se tinha, era que se tratava de um helicóptero.
            Gritei acenando desesperadamente pela avenida deserta quando a coisa que emitia aquela ofuscante luz lá de cima parou e tão rápida como um piscar de olhos, passou a me cobrir de modo que eu mal pude semicerrar os meus.
            Por um curto instante, a voz da razão, aquela que por muitas das vezes fica escondida e adormecida em nosso subconsciente, gritou em alerta.
            Ei cara, você não acha que helicópteros fazem um barulho dos diabos e provocam uma ventania filha da puta?
            Antes que pudesse tocar me que a coisa que estava sobre mim não era do nosso planeta (planeta dos gatos), uma voz feminina soprou como um tufão em meus ouvidos e uma mão se fechou contra o meu pulso puxando-me para fora do feixe cintilante.
            - Não fique sob a luz!
            A mulher me conduzia correndo entre as ruas do centro do Rio. A luz nos perseguia como nos vídeos policiais. A perseguição não vinha apenas dos céus; podíamos ouvir coisas correndo em nossas costas.
Quebramos numa direita entrando numa pequena rua que servia de estacionamento rotativo. As coisas que nos perseguiam pelo chão não eram tão rápidas para a nossa sorte, porém, podíamos sentir que estavam próximas. Seguimos num ritmo desenfreado, subimos uma pequena escada na qual nos acessava a uma cozinha comercial. Atravessamos a cozinha e os demais setores daquela empresa saindo na Rua da Candelária. Despistamos as luzes do céu, mas as coisas do chão ainda estavam em nosso encalce. Seguimos mais alguns metros adiante até que entramos em um antiquário que cheirava a merda de cachorro.
- Foi por pouco. – Disse ela olhando a rua pela janela temendo que as coisas nos encontrassem.

PARTE 4
A GRIPE MUTANTE

- Eles só caçam a noite pelo que parece. – Ela murmurava enquanto permanecia a observar o lado de fora à espreita.
- Eles? – Quem são eles? – Perguntei.
- Alienígenas, ET’s, como você preferir. – ela respondia sem tirar os olhos da janela – Há duas semanas, eles abduziram um cara que encontrei após levantar do coma.
- Você também esteve em coma? – Perguntei num sobressalto.
Ela olhou para mim num olhar surpreendido. Decerto, tal informação lhe era uma novidade.
- Não me diga que... Bem é mais uma peça que se encaixa nesse quebra-cabeça do inferno. Como se chama?
- Dário Leonardo e você?
- Agatha Pimenta.
Assenti.
- Sabe o que houve Agatha?
Ela saiu da janela se encaminhando até um pequeno balcão de onde ela pegara uma mochila. De dentro da mochila, tirara um jornal que parecia conservado. Entregou-me o tal jornal junto de um isqueiro que jazia no bolso esquerdo de sua jaqueta.
Acendi o isqueiro e pude ler a notícia datada em 14 de fevereiro.
CURA? CIENTISTAS COMEMORAVAM POSSÍVEL AVANÇO NA CURA DA GRIPE MUTANTE
- Esse jornal foi a data mais recente que encontrei – dizia ela – talvez seja uma das últimas tiragens da nossa imprensa, se não for a última.
Antes que o gás do isqueiro se acabasse, pude ler que em fevereiro, 3 bilhões de pessoas já havia morrido, quase a metade da população mundial, e que corpos estavam sendo queimados em todos os cantos do mundo, inclusive no Maracanã.
Naquele instante, pela primeira vez após despertar do coma, me veio à ideia de quanto tempo havia passado desde a minha ultima lembrança do mundo vivo até então.
- Sabe em que dia estamos?
- Oito de julho. – Ela respondeu após consultar o relógio de pulso. Claro, o relógio. Pensei. Bem óbvio.
- Estive em coma por quase 7 meses e daqui a 3 dias será meu aniversário.
Mesmo entre a escuridão, pude ver os olhos de Agatha se arregalarem como se ela estivesse diante de uma assombração.
- Está falando sério? – Ela me perguntou boquiaberta.
- Sim, não me diga que você também...
Ela gesticulou com a cabeça.
- Isso que eu chamo de coincidência.
- Não! – ela retrucou – Isso não é coincidência, tem alguma razão para isso.
Assenti.
- Quantos anos tem?
- Vinte e seis. – Respondi.
- A mesma idade que eu. – Limitou-se Agatha.
De alguma forma, os que nasceram há 26 anos na data de 11 de julho sobreviveram. Assim podia-se supor de maneira superficial.
- O rapaz que estava com você também...
- Eu não sei. Acordei há 4 semana em São Paulo e o encontrei nas margens da Dutra. Tudo o que sei dele, é que se chama Juan. Estávamos vindos ao Rio quando os alienígenas o pegaram.
Uma curiosidade irrelevante se abateu sobre mim naquele instante.
- Como me viu aqui? Digo, você não me encontrou ao acaso não é?
Ela gesticulou que não com a cabeça antes de responder.
- Você é muito barulhento, Dário, daqui pude ouvi-lo tentando arrombar a porta da livraria, porém como já era noite, apenas torci para que eles não aparecessem. No entanto, apareceram e imaginei que você iria atrás deles pensando que era algum tipo de ajuda.
- Foram eles não é? – disse apontando para cima – eles que foram os responsáveis por essa tal gripe mutante.
Agatha fez que sim com a cabeça antes de falar.
- Tudo indica que sim. Seria óbvio de mais uma batalha entre espécies como no romance de H. G. Wells, pois de certa forma, teríamos uma chance, porém, uma arma invisível foi uma tacada de mestre por parte deles; atacaram-nos em nosso ponto mais vulnerável e tiveram êxito. É o que eu chamo de terrorismo biológico extraterrestre.
- O que não consigo entender é porque nós.
- Andei recolhendo jornais e revistas desde que acordei, pelo que li, a gripe mutante recebeu esse nome pelo fato de conseguir modificar seu próprio DNA seguindo uma cadeia evolutiva de devastação. Na data desse jornal em suas mãos, ela já matava as pessoas em poucas horas, ou seja, não tínhamos nada de diferente para sobreviver, aparentemente, a não ser...
- A não ser que eles tenham dado nos uma espécie de vacina. – Interrompi o raciocínio dela.
Agatha assentiu.
- Faz ideia por que eles nos caçam agora?
- Faço sim. Nós não passamos de uma experiência, somos os seus ratos de laboratório.
Estremeci-me, e antes de dormimos, compartilhamos experiências tentando juntar as peças do quebra-cabeça.

PARTE 5
CONTATOS IMEDIATOS DE PRIMEIRO GRAU

O dia amanheceu ensolarado naquela manhã de inferno. A luz do sol penetrava pelas janelas sujas do antiquário trazendo um baço rubor ao interior. Agatha já estava de pé ajeitando suas coisas pronta para cair na estrada quando acordei. Pus-me de pé e perguntei o que faríamos dali em diante.
- Você tencionava fazer o quê? – Perguntou ela.
- Eu iria para São Paulo.
Ela torceu o nariz e replicou:
- São Paulo não está diferente daqui, o que há lá são corpos e mais corpos.
Assenti e perguntei:
- Então, para onde vamos?
- Vamos a esmo por ai. Talvez encontremos mais ratos de laboratórios pelo caminho.
Pegamos a estrada sem perda de tempo. Lamentei ter se esquecido de pegar alguns livros, todavia li com um horror arrebatador as revistas e jornais que falavam sobre a gripe mutante. As fotos de pais chorando sobre os corpos de seus filhos e dias depois se juntando a eles. Enquanto Agatha dirigia o Honda Civic a toda velocidade pelas estradas vazias, eu desenhava uma hipótese de como o paraíso e o inferno estariam lotados. Imaginei Caronte nos cais do rio do inferno contendo uma multidão ansiosa em atravessar e São Pedro aos berros lidando com uma caralhada de pessoas irritadas pelos atrasos dos voos para o paraíso. Seria cômico se não fosse trágico. No entanto, em meio aquele holocausto biológico, a coisa mais racional a se pensar era que jamais existira um Deus e um Diabo. Há séculos, viemos clamando e rezando para os céus vazios. Tudo isso para alimentar uma falsa premissa de continuidade. Pois digo, nada dura para sempre.
No segundo dia de estrada, após passarmos a noite em um posto da polícia rodoviária, Agatha Pimenta, devido a noites mal dormidas e o estresse de ficar atrás de um volante por dias, acabou adormecendo na direção, o que ocasionou uma colisão contra um poste. Para nossa sorte, não estávamos tão rápidos e os airbags funcionaram como deveriam funcionar; isso, sem contar no bom e velho cinto de segurança. Entretanto, ter sobrevivido ileso aquele acidente assim como a gripe mutante, não era lá uma razão para se comemorar.
Estávamos em uma estrada no meio do nada (tudo era um nada) entre a Bahia e o Espírito Santo. A noite cairia em poucas horas e era a noite que os alienígenas saiam para caçar. Havia certa tensão em nossas expressões; a única coisa que poderia nos abrigar deles, era aquele Honda parcialmente destruído.
- Vamos torcer para que eles não apareçam para que amanhã possamos ir caminhando até a cidade mais próxima. – Eu disse.
Ela assentiu, porém, seus olhos preocupados jamais deixavam os céus. Através daquelas janelas estilhaçadas pelo impacto, Agatha parecia vislumbrar o pior. Era evidente o seu descontentamento, assim como era evidente o medo que sentia. Medo que era evidenciado em mim pela voz vacilante e trêmula. O vento soprava do lado de fora chacoalhando o matagal alto que ladeava a estrada açoitando o nosso carro em um lúgubre sibilado.
A noite veio e com ela a sensação de insegurança. Ficamos em silêncio, apenas observando o céu estrelado e torcendo para que o sol surgisse o quanto antes. Porém, as horas passavam num ritmo enfadonho e torturante. Parecia que a escuridão se perpetuaria em uma eternidade mórbida.
Quando o relógio de Agatha marcava 1h30 da madrugada e quando tudo parecia que ficaria bem, a ofuscante luz dos extraterrestres caiu sobre nós como uma cortina luminosa. Nossos olhos se arregalaram em imediato pavor e a forte luz da espaçonave sobre nós, salientava a palidez em nossas expressões.
- Não saia do carro! – Ela gritou.
- E as coisas que correm pelo chão? – Retruquei indeciso.
De fato, havia um paradigma. E na indecisão entre ficar e sair, o carro começou a sacolejar bruscamente. As peças metálicas que pendiam devido à colisão com o poste, passavam a cair sobre o asfalto e a flutuar em seguida. O para-brisa estraçalhado se desprendeu caindo por sobre o capô destruído do Honda. Naquele momento, a gravidade se fez ausente e as 4 rodas deixaram o chão.  Entretanto, o que é que estava nos erguendo, não teve, a princípio, força para fazê-lo. Não obstante, tanto a minha intuição quanto a de Agatha, dizia que eles não falhariam na segunda tentativa.
Quando o carro atingiu o asfalto, o baque do impacto fizera com que eu batesse com a cabeça no teto do veículo. A dor fora grande, mas não havia tempo para assimila-la.
- Não acho que seja uma boa ideia ficarmos aqui. – Eu disse.
Agatha aquiesceu e de imediato, abriu a porta do carro pondo-se em disparada em direção ao matagal. Fiz o mesmo, porém, tomei o lado oposto do dela.
Corria alucinadamente por entre o mato alto. O terreno irregular fazia com que aquela fuga fosse um risco iminente para uma torção de tornozelo ou joelho. Cheguei a rolar pelo chão após pisar numa depressão. Pus-me de pé de imediato e mantive o ritmo da corrida por aquele infindável matagal.
A luz lá do alto me perseguia e pelos gritos distantes de Agatha do outro lado da estrada, me dava a entender que a nave se dividira em duas. Alguns metros adiante, um berro entrecortado e decrescente. Agatha fora pega.
- Merda! – Gritei.
As coisas vinham atrás de mim esgueirando-se pelo matagal e o terreno irregular, porém a presença delas não eram de todas necessárias; a luz me envolveu e minha visão ofuscou-se num branco claustrofóbico. O mundo assim perdia a sua sustentação e minhas pernas que antes se moviam sobre as irregularidades daquele sítio, passaram a mover-se sobre o nada. A sensação era de flutuar, sendo dragado por uma gravidade artificial que vinha de cima.

PARTE 6
O ÚLTIMO ELO

Abri os olhos e uma diminuta luz brilhava sobre mim. A sensação era agradável, um sentimento rejuvenescedor que me fez cogitar a possibilidade de que tudo não passava de um pesadelo e ao me levantar, eu seguiria a minha habitual rotina. No entanto, não era.
A superfície na qual eu estava deitado era algo gelado e muito sólido. Movimentei vagamente o corpo e um barulho metálico ressoou. Arqueei o pescoço e percebi que estava em uma espécie de laboratório digno de um filme de ficção científica, porém sem aqueles botões chinfrins de múltiplas cores.
- Agatha! – Gritei.
Quando ameacei a por me de pé, hastes metálicas surgiram do interior da placa que suportava o meu corpo e fecharam-se contra meus tornozelos, cintura, pulsos e pescoço, fazendo-me voltar à posição original.
Debati numa débil tentativa de me livrar daquelas algemas geladas, todavia, quanto mais força eu empregava, mais aquelas hastes se adaptavam apertando-me com mais força e me mantendo na horizontal.
- Me deixem sair! – Eu gritava como se os gritos pudessem mudar a opinião deles.
Após segundos de pavor e perplexidade, a superfície metálica que me mantinha deitado como um boneco fixado em uma embalagem lacrada, começou a inclinar-se para frente até que ficasse em um ângulo de noventa graus.
E foi exatamente naquele instante, o momento em que os vi pela primeira vez.
Enquanto encarava-nos por um longo minuto de mútua contemplação, me veio um pensamento aleatório, porém não tão distinto da situação. Um pensamento de que aquelas pessoas que diziam terem sido abduzidas por extraterrestres, não estavam mentindo, pois a descrição que elas davam em entrevistas e documentários eram exatamente as mesmas do que as que eu estava vendo com estes olhos que os vermes irão de comer.
Diante de mim, duas figuras acinzentadas com membros longos e finos. Os joelhos eram dois tumores ausentes de tendões que me fez perguntar como tais coisas conseguiram nos perseguir com aquelas articulações. O corpo franzino não era diferente de uma daquelas pobres crianças da Somália, suas barrigas protuberantes e o tórax estriado. Os ombros pequenos articulavam os finos braços com 4 dedos na extremidade; as pontas dos dedos eram quase um círculo semelhante a uma ventosa. O rosto era inexpressivo; a boca não passava de uma linha fina incapaz de emitir qualquer tipo de som, as narinas eram dois orifícios enegrecidos a uma curta distância uma da outra. Os olhos limitavam-se a ser duas membranas pretas e oblíquas que salientavam alguns graus sobre o rosto. Sua expressão era quase semelhante a um feto humano no sétimo mês de gestação.
- O que querem comigo? – disse – Por que não acabam logo com isso?
Os alienígenas se entreolharam como se combinassem uma resposta politicamente correta.
“Saudações, Mil e Oitenta e Um.” Disseram-me em uma onda telepática. “Estamos felizes por estar bem e acima de tudo, estamos felizes por todos vocês terem tido êxito nessa nova era que se inicia amanhã.”
- Nova era? O que estão dizendo?
Há anos estamos fazendo experiências neste planeta no intuito de criar uma raça híbrida que fosse superior aos terráqueos e todas as outras.”
Enquanto um deles discursava, me veio à cabeça a imagem de Adolf Hitler em sua busca por uma raça superior. Era o fim da meada, alienígenas nazistas.
Tivemos alguns ensaios no passado, porém sem muito sucesso. Entenda-se passado, como a época em que eles caminhavam tendo o apoio das mãos.”
Estremeci-me.
“Tivemos uma responsabilidade preponderante na evolução da espécie deles, se não fosse a nossa influência biotecnológica, talvez eles jamais tivessem deixado as cavernas. O elo perdido, como os antropólogos chamavam o meio termo entre o homem e o macaco, nada mais era que uma criatura híbrida entre nós e os terráqueos.”
- Não me diga que eu sou um de vocês?
“Não exatamente, Mil e Oitenta e Um. Há quase vinte e sete anos, inseminamos nosso DNA em duas mil e quinhentas mulheres ao longo desse planeta. A evolução de nossa pesquisa fizera com que conseguíssemos criar um ser com 23 cromossomos humanos e 23 dos nossos cromossomos, o que chamamos de células espiãs.”
- Células o quê?
“Células espiãs. Células que embora sejam nossa; conseguiram tomar a forma das deles. Isso explica a aparência humana de vocês.”
- E qual a razão disso tudo? Por que vocês exterminaram toda a raça humana?
“Como eu disse, buscamos uma raça superior. Uma raça que prevaleça em todo o universo. Unindo a capacidade de adaptação dos humanos, como por exemplo, andar a luz do sol, a nossa superioridade celular. Setecentos e cinquenta casais serão o bastante para povoar este planeta com uma nova e definitiva raça, o que faz de vocês o último elo.”
- Por que tiveram de matar a todos?  Por quê? – Gritei.
“Controlamos a gestação de vocês desde então. Não sei se você sabe, mas todos os mil e quinhentos híbridos nasceram no mesmo dia e no mesmo horário. Contudo, os nossos cromossomos agiram em um processo lento, calculamos que em 20 anos, o estágio final da mutação se concretizaria, porém duraram 26. Assim quando vocês hibernaram, instintivamente, liberaram uma toxina que devastou todos os humanos. Talvez fosse o inato instinto de autopreservação. A toxina fora nomeada de gripe mutante, um vírus que tinha as mesmas propriedades das células espiãs, se adaptar a um organismo estranho sem serem percebidas. E quando eles descobriram o vírus, perceberam que não puderam lidar com ele. Tecnicamente, quem extinguiu a raça humana foram vocês, os híbridos.”
Eu juro por Deus que invejei aqueles que estavam mortos. Aquela história era hediondamente fantástica. Como eu poderia ser parte daquelas coisas? Pior, como eu poderia ter uma parcela de responsabilidade na extinção da humanidade? Se pudesse, eu arrancaria a cabeça daquelas criaturas com minhas próprias mãos.
- Pois fique sabendo que eu irei matar os 1500 se for preciso. Se pensam que vou participar dessa porra, estão bastante enganados!
“Você não tem escolha, Mil e Oitenta e Um. Se há uma coisa em comum em todas as espécies do universo, é o instinto de autopreservação. Amanhã em homenagem aos 27 anos de sua criação os libertaremos para que sigam a velha máxima: Crescei-vos e multiplicai-vos.”