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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Semana sombria, cidade soturna

O Cupido Negro

Sábado...

Paulo Rodrigues vivia em um deserto. Não em um deserto literalmente onde existem dunas, cactos e o implacável sol que rasga a tez como uma folha de papel, mas em um deserto que só existia ele e todo seu egocentrismo de uma vida isolada. Onde suas únicas companhias era uma velha foto emoldurada e sua própria insanidade.
A foto o afrontava, o intimidava e o deprimia. Entretanto, ele não conseguia livrar-se dela puro e simplesmente. Não era apenas um objeto efêmero bojando em seu carma; existia uma macabra relação que interligava ele a ela. Em sua obsessiva e insana vida, a fotografia lhe era algo inevitável.
Abriu os olhos após uma noite mal dormida e fora até a janela de seu quarto. Puxou as cortinas e se debruçou sobre o peitoril e lá ficou a contemplar os morros que circundam o bairro carioca de Campo Grande. Os raios solares lhe enviavam um agradável aquecimento, era bom tomar sol nas primeiras horas da manhã. Acendeu um cigarro e com o olhar a quilômetros, anuiu que aquele sábado seria mais uma data especial.

Maria Rodrigues e Bruno Almeida também não se deleitaram em uma boa noite de sono. Porém o grande causador da insônia do casal, era um sentimento chamado ansiedade.
Os jovens estavam completando 2 anos de namoro naquela data. Ambos no auge de seus 18 anos haveriam de comemorar de uma maneira que jamais comemoraram. Na verdade, o que planejavam fazer, era uma espécie de quebra de tabu.
Preso a valores religiosos, Maria e Bruno sempre viveram seu relacionamento em meio a uma impetuosidade controlada. Evangélicos assíduos, sexo antes do casamento sempre fora uma coisa que desde novos, lhe causavam certo assombro e um tímido reboliço mental. Porém, quando se tem 18 anos, os hormônios explodem em uma erupção cataclísmica que fazem com que qualquer dogma ou valor, seja em suma, desconsiderado.  Todavia em meio a toda essa exaltação, eles sempre conseguiram conter a avidez sexual. Até aquele sábado.
Jamais um sábado fora tão inebriante com seu reluzente céu de anil e com o imenso e radiante sol transformando os verdes dos cumes das árvores em pontos cintilantes ao céu. A lua cheia de sexta feira era um espectro baço observando tudo lá de cima.  Maria e Bruno deixaram suas casas às 15h30 e às 15h45 respectivamente. Encontraram-se na porta principal do West Shopping exatamente às 16h15 e fizeram um ordinário programa – passeio, cinema, praça de alimentação.
A purpura cor crepuscular já tomava os céus de todo o Rio de Janeiro. Minutos antes, em algum lugar a beira do mar, pessoas contemplavam o pôr do sol lançando sua imensa mancha alaranjada por cima do horizonte.
- Acho que chegou a hora. – Disse Bruno com um sorriso que extrapolava a falsa sinceridade.
Maria enrubescida, retribuiu o sorriso.
Por mais que o casal tivesse canalizado que faziam a coisa certa, havia uma vaga sensação de culpa em órbita sobre um sol de incertezas. Todavia, seria naquele dia ou fosse lá quando. O matrimônio entre eles levaria bastante tempo. Logo umas ligações entre o subconsciente de ambos os fizeram assentir que seria naquele dia.
Encaminharam-se ao ponto de táxi defronte ao shopping e entraram em um Fiat Doblo que lá estava.
O taxista girou a chave na ignição e os fitou pelo retrovisor com olhos relativamente febris. Um olhar que poderia aterrorizar qualquer pessoa se a mesma percebesse.
- Para onde?
O casal se entreolhou. Havia um constrangimento emanando de ambos. Contudo, Bruno quebrou a ligeira estagnação de sua língua.
- Motel Carbonara na Avenida Brasil.
O taxista assentiu.
O homem mantinha os olhos atentos na Avenida Brasil enquanto seguia em frente com sua corrida. Seus ouvidos captavam a conversa do casal. Tal tipo de confabulação era denominado por ele como diálogo masturbatório. E isso, só alimentava um instinto sombrio e primitivo que vivia nas profundezas de sua alma.
Ao chegar à altura de Deodoro, ele deu uma guinada no carro que atravessou a pista subindo o canteiro do outro lado, numa manobra pra lá de arriscada e surpreendente.
- O que aconteceu? – Perguntou Bruno com coração palpitante.
Maria ficara tão pálida como um defunto. Seus olhos castanhos se arregalaram a ponto de formar vagos pés de galinhas nos cantos. Estava devidamente assustada.
-É o fim da linha. – Disse o Taxista.
- Como é? – Bruno indagou aturdido.
- A viagem acabou. – replicou ele olhando para o casal por cima dos ombros.
- Escute aqui, cara, você está louco? Pois se está pensando que...
Maria já estava apavorada naquele momento; pelo retrovisor, ela pôde ver a expressão dele e não foi uma coisa nada agradável para se observar.
- Bruno, vamos descer. – Ela disse interrompendo o namorado que retrucava.
- Nada disso – insistia Bruno – ele vai ter que nos levar até lá, isso não...
- Por favor, Bruno, me ouça pelo menos uma vez! – Ela bramiu.
Bruno se emudeceu, porém mantinha seus olhares iracundos apontados para o taxista.
- Está certo, vamos descer então.
Contudo, ao levar o dedo até a maçaneta da porta, ela simplesmente não se abriu.
- Poderia destranca-la ao menos? – Bruno perguntou em um tom irônico.
Trêmula, Maria pressionava avidamente a maçaneta e a porta jazia estagnada para seu desespero, porém quando ela pensou que o taxista movia-se para destranca-la, ele ergueu-se por sobre o banco empunhando uma pistola com um silenciador na extremidade. Puxou o gatilho atingindo a cabeça de Bruno e antes que ela pudesse gritar em horror, o homem colocara uma bala bem rente às junções de suas sobrancelhas.
Maria de imediato caíra sem vida por sobre o corpo de seu namorado deixando uma hedionda mancha de sangue no acolchoado do Fiat. Ele pôs a arma no banco do carona e girou a chave novamente na ignição.

Domingo...

O domingo acordara tão radiante quanto o sábado, apesar de estar em meados do inverno. Se há uma coisa que torna uma manhã de domingo diferente das outras manhãs, é o singular sorriso que as pessoas ostentam, estejam elas indo para as igrejas ou para os campos de peladas. Logo, o que torna o domingo tão apoteótico e especial, sem dúvida, são as suas primeiras horas. Obviamente sem deixar de mencionar os clássicos da rodada no fim da tarde, sejam eles no Maracanã ou no Engenhão.
Paulo Rodrigues por volta das 11 da manhã finalmente terminara de lavar o Fiat Doblo na qual tirava seu sustento. As manchas de sangue custaram a sair, porém, nada que um coquetel de produtos não pudesse dar conta. Seu estômago já reclamava por alimentos, talvez comprasse um galeto numa padaria próxima a sua casa. Contudo, antes de qualquer coisa, ele haveria de voltar para seu egocêntrico e desolado mundo.
Encarava com olhos vítreos algumas reportagens na qual ele colara na parede de um quarto acre e pouco iluminado.
CASAL ENCONTRADO MORTO ÀS MARGENS DO RIO GUANDU dizia uma reportagem, a mais velha da parede.
CASAL DE ADOLESCENTES DESAPARECIDOS HÁ 2 MESES ENCONTRADO MORTO dizia a outra. E assim, fora uma sucessão de jornais sobre assassinatos em um mesmo estilo até que na mais recente, ele ganhasse o apelido de
CUPIDO NEGRO FAZ MAIS DUAS VÍTIMAS.
Um dia te pegarão, Paulo, um dia te pegarão. Ele pensava enquanto contemplava a sua pistola. Todavia, por mais que cedo ou tarde ele fosse pego, sua arma sempre haveria de ter uma bala especial. Uma destinada a ele próprio.
Em outro cômodo da casa, a foto em uma moldura com a sua imagem ao lado da única mulher que ele realmente amou.


O estranho

Segunda Feira...

Leonardo Miguel lia as noticias na pequena banca de jornal da estação ferroviária de Bangu.
CUPIDO NEGRO FAZ MAIS DUAS VÍTIMAS. 20 MORTES JÁ SÃO CONTABILIZADAS EM SUAS AÇÕES CRIMINOSAS
Pessoas que também passavam os olhos pelas noticias, comentavam indignadas sobre o décimo casal que o maníaco dos namorados, como também era conhecido, havia matado. Porém, algo mais chamava a atenção de Leonardo Miguel, mais ainda do que a própria noticia do derradeiro fim de semana daqueles jovens.
Um cidadão estranho. Com cabelos ralos, rosto devidamente pálido, nariz de aquilino e com o formato dos olhos jamais vistos. Os mesmos eram quase exageradamente oblíquos. Um homem que aparentava sofrer de alguma doença grave devido ao seu aspecto indolentemente frágil.
O que será que esse cara tem? Perguntou-se Leonardo.
O estranho homem que parecia observar com singular admiração o Bangu Shopping a frente da estação, de súbito, se virou encarando Leonardo como se ele tivesse lido seus pensamentos. Por um curto momento, os olhos deles se entrecruzaram e Leonardo Miguel sentiu uma abrupta aflição esmagando-o por dentro.

Aos 23 anos de idade, Leonardo tinha que tomar certas tendências na vida. A adolescência passara num zás, e fora uma época tão especial que ele a estendeu até a fase adulta. A primeira coisa a ser feita, era arranjar um emprego. Em sua mochila, diversos currículos a serem entregues no centro da cidade. Porém, o estranho homem que estava no mesmo vagão que ele o perturbava. A feição inexpressiva com os olhos aparentando fitar sempre algo além, algo há anos luz de distância, ainda o fazia se perguntar se tal pessoa teria alguma doença. Não obstante, cada vez que conjecturava hipóteses a respeito dele, o próprio desviava o olhar ausente para fita-lo com igual curiosidade.
Erubescido, Leonardo Miguel sempre desviava os olhares a cada vez que aquele cidadão o encarava, pois a cada olhar daquele, uma estranha aflição se abatia sobre ele.

Um mar de gente trafegava pela Central do Brasil. Uma gama de rostos, sorridentes, resignados, tristes, aborrecidos, porém, todos seguindo a sua enfadonha rotina de mais um inicio de semana. Leonardo seguiria normalmente o seu curso como aquelas pessoas, no entanto, o estranho lhe era uma bizarra atração, uma atração arrebatadora que ele decidiu não contrariar. No meio daquele mar de pessoas, Miguel o seguia.
Em uma birosca na Rua da Alfandega, Leonardo entrou perseguindo o estranho. Pessoas tomavam seus cafés que variavam do cappuccino a tradicional média. Num canto, bem junto à parede, estava ele, sentado diante do balcão e despercebido como se fosse um objeto decorativo. Leonardo também se sentara diante do balcão sobre um velho banco giratório de madeira fixado a uma trave de ferro. O assentou rangeu em um trinado metálico quando ele pôs-se de qualquer jeito. Pediu uma Coca-Cola e de soslaio, ficou a observá-lo evitando ao máximo, pensamentos a respeito. Entretanto, observa-lo era difícil daquela posição; ao seu lado, um senhor com seus cabelos grisalhos bebericava sua média tomando todo o cuidado do mundo para que não derramasse uma gota sobre a sua camisa do Fluminense. Leonardo Miguel inclinou-se sobre o balcão e o banco giratório emitiu outro trinado metálico, mais agudo daquela vez. Embora desconfortável, ele podia ver com maior clareza, o estranho que tinha em mãos o frasco de açúcar.
Estaria tudo dentro da normalidade se aquele homem não exagerasse na quantidade de açúcar que inseria dentro da xícara. Era algo devidamente surreal. Nada poderia ficar bom exageradamente adocicado. Leonardo se estremeceu e por pouco, não cutucou o tricolor que estava ao seu lado para apregoar o fato. O café na xícara era uma solução negra e pastosa. O estranho a bebeu com avidez, levantou-se e saiu.
Abismado, Leonardo Miguel notou outro fator esquisito, não tão esquisito quanto ao de ingerir uma xícara de açúcar, mas de algo capaz de deixa qualquer um com a pulga atrás da orelha. O estranho simplesmente saíra sem pagar e sequer fora repreendido. Talvez tivesse pagado antes, conjecturou Leonardo em uma hipótese plausível e aceitável, porém, algo lhe dizia que não. Algo lhe dizia que aquele cidadão simplesmente pediu um café e saiu sem pagar. Ele matou a sua coca em um único gole, pagou dispensando o troco e prosseguiu com sua estranha perseguição.
O estranho caminhava por meio as pessoas, e elas, em uma ação de total inconsciência, simplesmente desviavam dele como se ele sofresse de lepra ou outra coisa que causasse repúdio. Leonardo o observava a uma boa distancia enquanto seguia-o abrindo caminho entre os transeuntes. Por pouco, não o perdera de vista, contudo, quando este chegou a Avenida Rio Branco, a perseguição tornou-se uma tarefa não tão difícil.
 Protagonista e antagonista, sempre mantinham uma distância que ambos consideravam segura. O estranho parou defronte a um arranha céu no numero 1150. Um prédio de aspecto moderno com seus vitrais refletindo o céu azul de inverno. Leonardo Miguel dissimulou e pôs-se a observá-lo atrás de uma banca de jornal. O cidadão antes de adentrar no arranha céu, lançou o antigo olhar inexpressivo para ele que sentiu a velha aflição esmagadora lhe corroendo por dentro.

Se perguntassem para Leonardo o motivo pelo qual o fizera tomar aquela atitude, decerto ele não teria uma explicação. Talvez ele não conseguisse convencê-lo a si próprio de o que o motivou a fazer o que fizera. Sua ação simplesmente fora tão irracional quanto à paixão de uma pessoa para o seu time de coração.
Leonardo Miguel Costa da Silva, 23 anos, morador de Bangu, torcedor do Vasco da Gama, ali permaneceu ignorando todos os preceitos do bom senso. Ficou aguardando a saída do estranho por longas e enfadonhas 8 horas.

O inverno em países tropicais como Brasil é uma das coisas mais peculiares que a natureza pode aprontar. Pois em alguns dias, faz-se calor sob um céu azul, em outros, frio sob um céu cinzento e pálido. Não obstante, a coisa mais singular que ocorre no inverno, e esse em qualquer canto do mundo, é que a noite sempre chega mais cedo, pintando de negro o pálido céu do fim de tarde trazendo consigo uma sensação térmica inferior.
Por volta das 17h30, quando as pessoas esticavam suas passadas em busca de um lugar a se sentar nos coletivos ou tentando ganhar segundos preciosos, súbitas luzes circundavam o prédio que o estranho entrara. Luzes baças que pareciam provir de holofotes, no entanto, se movimentavam livremente de um lado para outro chamando a atenção de uns poucos que levantaram os olhos para o alto. Leonardo fitava as luzes com máxima contemplação; jamais vira algo tão sinuoso e relativamente belo. Contudo ao baixar os olhos de volta para a entrada do prédio, o estranho lá estava, parado com sua expressão inflexiva e seus olhos oblíquos e resignados. Por um momento bastante considerável, eles se entreolharam como dois inimigos ante um embate mortal.
Leonardo Miguel se perguntou por que aquele olhar lhe causava tamanha aflição.
Quem é você? Perguntava-se. Que diabos de pessoa você é?          
O estranho se virou e seguiu seu rumo. Caminharia até a Central do Brasil assim que pegasse a Av. Presidente Vargas.

Tanto Leonardo quanto o estranho embarcaram no trem das 18h03 destinado à Santa Cruz. Um amontoado de gente se acotovelavam nos vagões da Supervia, com suas expressões taciturnas após um longo dia de trabalhos. Os venturados que conseguiram se sentar, confabulavam criando uma litania de vozes. A rotina fizera com que alguns rostos conhecidos, se tornassem pessoas conhecidas. Imprensado em um canto junto à porta do trem e um banco, estava Miguel. Observando com uma fascinação singular o estranho que estava no lado oposto do vagão, despercebido como se fosse mais um entre muitos.
O trem foi seguindo viagem com o barulho dos trilhos fazendo uma sinfonia cadenciada. Parando de estação em estação, havia um fato notório que Leonardo Miguel havia percebido. Ninguém embarcava.
Ao chegar ao Méier, boa parte dos usuários do transporte ferroviário já tinham desembarcado. Em Bangu, estação que Leonardo teria que descer, pois era seu destino, 80% dos que embarcaram na Central já haviam deixado os vagões. Ele se perguntava por que as pessoas ignoravam aquele trem, por que elas simplesmente não adentravam aos vagões?
Quando o trem chegou a Campo Grande, só restava ele e o estranho naquele vagão. Leonardo não tinha como perceber, mas em todo trem, só havia eles.
O cidadão o observava sentado no banco oposto do qual ele se encontrava. Leonardo Miguel não sentia apenas a velha aflição que aquele olhar lhe causava, agora, aglutinado a este sentimento, existia o medo. Seu coração batia acelerado. Suas pernas estavam tão trêmulas, que ele tivera grande dificuldades para pôr-se de pé. Fora longe de mais, ele assentiu. Desceria ali mesmo, porém ao dar dois passos em direção à porta, ela se fechou bem rente ao seu nariz.
O trem pôs-se em movimento. Contudo, o alto falante que sempre anunciava a próxima estação, ficou mudo. Estaria o trem sem o próprio maquinista? Leonardo se estremeceu e não tinha certeza se queria volver-se para fitar o estranho no outro lado do vagão.
Por que está me evitando agora? Soara uma voz.
Todavia, a voz não fora captada pelos seus ouvidos, fora captada diretamente pela sua mente.
Oh meu Deus! Desde quando eu posso ouvir uma pessoa por telepatia? Perguntava-se com os olhos arregalados e o maxilar travado.
Não está curioso a meu respeito, Leonardo?
Leonardo tentava ignorar inutilmente a realidade.
Não, isso não é real, isso não pode ser real.
Vire-se e me encare nos olhos, seu covarde! Imperou o estranho.
Assim Leonardo Miguel o fez, não por vontade própria, mas porque não tinha escolhas.
Olhe nos meus olhos e eu vou tirar as suas dúvidas a meu respeito, porém eu vou lhe mostrar desde o princípio.
O tem que seguia em seu ritmo cadenciado, acelerava-se a uma velocidade surreal para aquele veículo. A estação de Benjamim do Monte passara em um desfigurado borrão pela janela do trem.
Leonardo estava catatônico e com dificuldades, tentava manter-se equilibrado. O trem já efetivava uma surreal velocidade supersônica. Pela janela, só passavam luzes desfiguradas e à medida que a velocidade ia aumentando, o borrão de luz se transformava em uma linha cintilante. Um zunido aterrador explodia em seus ouvidos que ele mal podia ouvir os próprios pensamentos.
- Nós vamos morrer! – Ele gritou mesmo sabendo que Santa Cruz já deveria estar a quilômetros atrás, talvez, anos luz atrás. – Pare esse maldito trem!
O fulgor da linha cintilante do lado de fora se intensificou a ponto de tornar a sua visão turva. Leonardo Miguel cerrou os olhos e apenas o zunido unido ao desespero lhe fazia companhia Uma pressão se abatia sobre ele, e tal pressão lhe exercia uma energia negativa; o ar ia acabando e pouco a pouco, Leonardo ia perdendo a consciência. Todavia, perder a consciência não era de todo ruim, uma vez que ele imaginava que aquele trem iria parar de uma maneira nada suave, e não querer estar acordado para vê-lo parar, era totalmente justificável.
Seu último pensamento antes das luzes se apagarem para ele foi que não só o último terminal, o de Santa Cruz, havia ficado para trás, mas sim todo o tempo na qual ele estava inserido, toda uma dimensão. O espaço tempo não fora dobrado, e sim, completamente amassado como uma folha de papel.
Eu vou tirar as suas dúvidas sobre meu respeito, porém eu vou lhe mostrar desde o princípio.

- Acho que foi um pesadelo. – murmurou Leonardo Miguel antes de abrir os olhos. – Meu Deus, que sonho mais estranho.
Entretanto, Leonardo parecia que estava sendo atacado por uma nuvem de mosquitos sedentos por sangue. Quando o mesmo abriu os olhos, percebeu que não estava na sua cama e sim sobre o chão metálico coberto pelo agora corroído carpete daquele trem.
Logo, a absurda realidade vinha à tona, e de fato, mosquitos enormes que ele jamais havia visto se banqueteavam de seu sangue. Leonardo se levantou abanando-se e afastando tais insetos. O vagão cheirava a um odor bolorento e as janelas estavam cobertas de lodo e plantas trepadeiras.
- Cadê você? Apareça! Que lugar é esse?
Não houve respostas, apenas ruídos de pássaros grasnando batendo as asas em súbita disparada.
Embora o odor acre e bolorento impregnado no vagão, ele jamais sentira um ar tão puro e imaculado em sua vida. Com dificuldades, ele pôs-se a abrir a porta do vagão. As juntas estavam enferrujadas e rangiam como se fosse um ser vivo, por sorte, não cortara os dedos naquele ato.
Quando finalmente abriu a porta, a luz do sol penetrou implacável e ele cerrou os olhos. Contudo, era um fulgor agradável típico das primeiras horas da manhã. Quando ele os abriu, os mesmos se arregalaram em suma perplexidade. Eles fitavam uma paisagem que, para os mesmos, só eram conhecidas pela TV. Onde é que o trem tivera chegado, caíra no meio de uma selva.
Meu Deus! – Ele exclamou em sussurro.
Olhou para os dois lados e percebeu que só havia aquele vagão, a outra parte do trem ficara em algum outro lugar. Logo só restava aquele único pedaço de metal envolto no infindável verde da selva.
-Mas que lugar é esse? – Ele se perguntou inseguro se ficava ou não dentro do vagão. Sob ele, o matagal alto.
A luz do sol fora coberta por algo que surgira abruptamente. Algo que lançava sombras ao vagão lá do alto.  Leonardo olhou para cima e ficou sobressaltado ao ver mais uma coisa inacreditável. Um enorme pássaro, não, não era exatamente um pássaro, era algo que se assemelhava a uma criatura pré-histórica. Uma criatura que ele tinha visto somente em um documentário do Discovery Channel.
- Eu não acredito! – Ele disse horrorizado.
A criatura sumiu de sua vista soltando um grunhido agudo, hediondo e assustador. Seu coração palpitava a ponto de lhe fazer o peito doer.
Abruptamente, veio à sua mente as palavras do estranho que lhe permitia ter uma vaga, porém soberana compreensão do que acontecera.
Eu vou tirar as suas dúvidas sobre meu respeito, porém eu vou lhe mostrar desde o princípio. Desde o principio. Desde o princípio.
Leonardo percebera que não fora tão longe em questões geográficas, talvez estivesse ainda no Rio de Janeiro, porém aquele lugar desolado e imaculado era um Rio sob uma perspectiva de milhares, talvez milhões de anos.
Ele olhou novamente para o céu onde uma bola de fogo surgira cruzando aquela imensidão azul deixando um rastro cintilante e rubro para trás. A bola de fogo vista mais de perto, se notabilizava como um disco, um disco flamejante, que ao cruzar um dos morros que cercavam o cenário, causou um estrondo fazendo todo àquele local tremer. Leonardo Miguel começava a compreender, a principio, já entedia de onde o estranho viera.

Eu sei

Terça Feira...

Numa sala de aula no colégio estadual Mário Quintana em Campo Grande, o silêncio reinava mediante a tensão de uma decisiva prova de língua portuguesa. O professor, Anderson Guimarães, consultava o relógio e constou que o tempo de seus alunos estava se esgotando.
- Senhores, vocês têm exatamente 10 minutos para terminarem a prova.
Houve um burburinho entre eles e o pavor que existia na face da alguns, simplesmente se intensificou para o deleite do professor.
Atrás de sua mesa, Anderson vez ou outra lançava olhares para uma bonita aluna de 16 anos que sentava nas primeiras fileiras da classe. Luciene Maria era uma linda ruiva dos olhos verdes. Seus cabelos eram lisos e escovados caindo até a altura dos ombros. Tímidas sardas delineavam seu rosto lhe dando um aspecto inocente. Seus lábios eram rosados e ela lembrava e muito a estonteante Lindsay Lohan. Em suma, a jovem Luciene era de fato uma adolescente bela e chamava a atenção até de homens mais velhos.
Por vezes, os olhares de ambos se encontravam, ela lhe lançava um lépido e libidinoso sorriso. Anderson se erubescia e dissimulava, porém, a cada olhar e a cada sorriso, algo dentro de suas calças passava a pulsar como se tivesse vida própria. Porém, o que mais o excitava, era que Luciene fazia aquilo por mera provocação.
O sinal tocara sinalizando o intervalo. Era o fim da prova para desespero de alguns e resignação de outros.
-Muito bem, senhores, fim da linha, não se esqueçam de assinarem e, pelo amor de Deus! Coloquem seus números da chamada, facilitem ao menos a minha vida. - Dizia o professor enquanto recolhia as provas.
Anderson ficara sem jeito quando Luciene dissimuladamente acariciou a sua mão enquanto lhe entregava a prova. Aquela menina sabia mexer com os brios de um homem já vivido. Nem mesmo a aliança em seu anelar parecia intimidá-la. Para ela, o céu era o limite.
O professor continuava a recolher as provas carteira por carteira enquanto discursava o velho: “Não caiu nada do que não tenhamos visto em sala de aula.” Porém, algo de imediato, lhe roubou a atenção.
Fabiana Guedes, uma gordinha pálida dos cabelos exageradamente enegrecidos contrastando com sua tez, assim como era exagerada à maquiagem mórbida que usava a qual lhe rendera o apelido de Mortícia, encarava seu professor com olhos febris, olhos acusadores. Ele, por sua vez, se estremeceu diante daquele olhar.

As terças, Anderson sempre aproveitava uma carona com seu amigo, o professor de geografia Sebastião Vilela. Seu carro, um Gol bolinha branco, era utilizado por sua esposa nesse dia da semana, que por sinal, havia amassado a lataria dianteira numa pequena colisão há algumas semanas.
Sebastião notou a face pálida e assustada do amigo. Anderson engolia um Tic Tac atrás do outro.
- Pelo amor de Deus, Anderson! O que está havendo?
- Acho que uma aluna descobriu. – Guimarães respondeu.
- Descobriu o quê?
- Que eu ando comendo a Luciene!
Vilela que estava prestes a engatar a segunda no seu Celta prata, de imediato pisou no freio e os pneus guincharam no estacionamento do colégio.
- Descobriu como? – Perguntou ele aturdido.
- Eu não faço ideia, cara. – Respondeu Anderson pondo na boca outro punhado de Tic Tacs.
- Calma, calma e calma. Vamos por a cabeça no lugar. Primeiro, quem descobriu? Segundo, como você soube que essa pessoa tem ciência dessa verdade?
- Fabiana Guedes.
- Cara, sou péssimo em nomes.
- Aquela que anda como uma gótica.
Sebastião assentiu.
E como soube que ela descobriu? – Indagou Vilela.
Anderson abriu a palma da mão e sacudiu a embalagem de Tic Tac antes de responder o interrogatório do amigo. Nenhuma bala caíra. Havia comido todas.
- Estava verificando as provas que apliquei na 1303, e me deparei com isso. – Guimarães tirou do bolsou um pedaço de papel com letras de revistas e jornais coladas.
Sebastião tomou o papel em mãos e pôde ler:
EU SEI
Por um momento, as palavras se entalaram na garganta do professor de geografia. Por fim, ele disse; contudo sem muita convicção.
- Sinceramente, isso não prova muita coisa que alguém saiba que Luciene e você...
- Cara, se isso não prova muita coisa, o que mais provará? Um flagrante?
- Por que suspeita de Fabiana?
- O jeito que ela me encarou dizia tudo.
Sebastião tornou a assentir e pôs seu Celta em movimento novamente.
Após 10 minutos de silêncio sepulcral, a confabulação sobre o caso de Anderson voltou a ecoar naquele automóvel.
- Chegou a conversar com Luciene a respeito? – Indagou Sebastião.
- Não, creio que só pioraria as coisas. Ainda mais se alguém nos visse. – Replicou Anderson.
- Fez bem, mas como ela deve ter descoberto? – Sebastião já entoava como se de fato, Fabiana soubesse da verdade. – Por acaso Luciene e ela são amigas?
- Duvido muito. Fabiana é muito isolada, pelo que sei, seus únicos amigos na escola são aqueles maconheiros que vivem matando aula atrás da biblioteca.
Sebastião assentia enquanto tamborilava com os dedos no volante.
- E além do mais – continuava Anderson – Luciene embora adolescente, tem uma maturidade bem acima para uma garota de sua idade. Duvido muito que ela tenha contado para alguém.
- Puta merda! Você deve ter dado algum mole, tem certeza que não vacilou?
- Não que eu saiba – respondia Guimarães enquanto matutava – A não ser que...
- A não ser o quê?
- Bem, teve um dia que eu a apanhei em frente a regional de Campo Grande.
- Ali é um pouco perto do colégio. – Comentou Sebastião.
Anderson aquiesceu.
- Cara, se essa porra vier à tona, estarei fodido de verde e amarelo.
- Vira essa boca pra lá, Anderson, ainda mais agora que sua esposa está grávida.
- E você acha que eu estou preocupado com isso? – rosnou Anderson – Imagina o escândalo que essa merda vai se tornar. Ainda mais com essa merda de que tudo é pedofilia. Certamente será o fim da minha carreira e da minha vida como cidadão.
- O que você fará a respeito?
- Não sei Tião amigo velho, sinceramente eu não sei. O que você sugere?
- Você aplicou prova para eles hoje não foi? – perguntou Sebastião numa retórica – Sugiro que você dê um bom conceito a ela independente de sua atuação. Ela é uma boa aluna?
- Não, quero dizer, é uma aluna regular, mas está longe de ser um fiasco e longe de ser boa.
- Isso é muito bom. Quando dará aula para eles de novo?
- Quinta de literaturas e sexta de língua portuguesa.
- Entendi.

Em casa, Anderson sequer tocou na comida e sequer trocou 3 palavras com sua esposa. Sentado ante a escrivaninha, ele contemplava o bilhete que soava tão acusatório. Seus olhos conjecturavam as piores hipóteses antevendo um futuro bastante ruim. Por fim, ele amassou o bilhete e o jogou na lixeira ao seu lado esquerdo. Abriu a sua pasta e fez algo que jamais fizera desde que ingressara no magistério, corrigiu as provas que dera no mesmo dia.
O desempenho de Fabiana havia sido regular, Anderson queimou a cabeça para transformar um 4,5 em 5,5. Contudo, estava feito. Deitou-se na cama e o sono só chegou lá pelas tantas da madrugada.

Quinta Feira...

Anderson estacionou o seu Gol no estacionamento do Mário Quintana e por ora, não tinha certeza se gostaria de sair do automóvel. Por 5 minutos de total indecisão, ele apenas se encarava diante do retrovisor. Por fim, desceu do carro.
Quando o professor de Língua Portuguesa estava a ponto de girar a maçaneta da sala dos professores, a voz do diretor soou clamando por seu nome no fim daquele corredor.
Anderson fez uma Mea culpa com a sua expressão contorcida. Severo, o diretor queria conversar com ele naquele exato momento.
Nunca uma distância fora tão claudicante como fora para Anderson Guimarães da sala dos professores até a diretoria. Seu coração pulsava a ponto de se fazer o peito doer. Por um curto instante, aquele corredor se tornou turvo e se duplicou. Ele estava a um triz de desmaiar e lamentou muito não ter caído desfalecido ali mesmo. Tirou o Tic Tac do bolso e colocou um punhado daquelas balinhas coloridas na boca. Abriu a porta da sala da direção e já formulava uma defesa naquele curto segundo.
No entanto, o assunto que o diretor tinha para com ele, era completamente distinto do que ele imaginava.
- Meu Deus, Anderson! Você está se sentindo bem? – Perguntou o diretor.
- Hã? Sim, só dormi um pouco mal.
- Cara você está pálido, parece que viu um fantasma.
Anderson emanou um sorriso amarelo.
O diretor tomou 5 minutos do tempo de Anderson falando sobre um assunto sem relevância a esta narrativa.
O professor tinha o costume de ser o primeiro a entrar na sala de aula. Fazia isso meia hora antes do sinal da entrada tocar. Naquela quinta feira em especial, ao entrar na classe, um grande sobressalto o atropelou como uma locomotiva em alta velocidade. Por um dado momento tudo perdeu a sustentação, seus joelhos oscilaram e seus dedos mal aguentavam o peso de sua pasta que caiu no chão de imediato. Ele dera um passo em falso para trás; na lousa, em letras que quase a preenchia por completo, estava escrito:
EU SEI
Conforme os alunos iam chegando, o desespero ia aumentando em Anderson a cada adolescente que passava cochichando. Ele tinha vontade de aguçar a sua audição para ouvir o que de fato eles falavam. Apesar de tudo, Guimarães tinha que manter-se calmo e seguir com a aula como se nada de estranho estivesse acontecendo.
Luciene lhe lançava olhares libidinosos e ele simplesmente os evitava.
- Bem, senhores, corrigi a prova de terça feira e fiquei bastante decepcionado.
Luciene cochichava com uma menina ao seu lado com um sorriso a quem de qualquer preocupação com o seu resultado da prova. Anderson a olhou de esguelha.
- Acredito que não caiu nada que não tenhamos visto e revisado, logo, não há qualquer desculpa.
A sua jovem amante continuava com seu cochicho com sua colega de classe e o professor, num gesto que ninguém esperava, gritou para ela:
-Luciene, por que está conversando enquanto eu estou falando? A sua nota também foi bem abaixo das expectativas. Deveria levar os estudos mais a sério!
Anderson sequer manteve os olhares sobre Luciene Maria, dissimuladamente, ele os levou até Fabiana que jazia com sua expressão impassível e com os velhos olhos acusadores que tanto o intimidava.
No instante que ele a olhou, sua voz perdeu a confiança se tornando trêmula e vacilante.
-Eu- eu –s-só esp-erro q-que vocês es-tudem e c-corram atrás do prejuízo. – Pigarreou para manter a compostura e prosseguiu com seu sermão. – E lembrem-se, vocês não têm que provar nada para mim, terão que provar para vocês mesmos.
Anderson entregava as provas carteira por carteira. Luciene o olhou querendo entender o que estava havendo. Ele jamais gritara com alguém, por que gritaria com ela? Porém ele apenas deixou a sua prova sobre aquela superfície lisa e envernizada
Ao chegar à vez de Fabiana, Anderson se viu em outro dilema, elogiar ou não a aluna que sempre estivera abaixo da média por seu suposto conceito positivo. Um elogio poderia significar Oi estou em suas mãos, por favor, não conte nada a ninguém, eu lhe imploro!  Porém havia a possibilidade de Estou sendo legal com você, vamos manter isso em segredo e só irá ganhar comigo.
- Melhorou bastante, Fabiana. – Ele disse por fim.
Entretanto a jovem rosnou algo que o preocupou e muito.
- Por acaso isso fará diferença?
Enfim, ele iniciou a aula de literaturas, estava tão desconcentrado que falou merda atrás de merda. Professores assim como qualquer profissional têm seus direitos de ter um péssimo dia, mas o dia de Anderson estava horrível e pior, estava somente começando.
Apesar do martírio que era compartilhar um ambiente relativamente pequeno com uma aluna que aparentava ter ciência de um segredo que poderia arruinar a sua vida, Anderson quando olhou para o relógio, notou que as horas passaram num zás. Faltavam 5 minutos para o término da aula e ele simplesmente dispensou a turma com um Até amanhã.
Sentou-se em sua mesa e levou as duas mãos ao rosto enquanto os alunos ajeitavam as coisas para deixar a sala. Estava mentalmente desalentado, por entre os dedos, fitou Fabiana encarando-o com olhos febris. Naquele momento, ele já podia dizer com certa propriedade que não tinha dúvidas que ela sabia de seu segredo.
Um a um os alunos iam deixando a classe enquanto o professor colocava um punhado de balinhas na palma da mão, levava até a boca e ofegava lamentando algo.
- Professor? – Soou uma voz solícita.
Ele ergueu os olhos para o autor daquela voz, e para sua desagradável surpresa, tratava-se de uma autora, Luciene Maria.
- Pois não Luciene. – Ele disse em um dissimulado tom atencioso.
- Será que poderíamos ter uma conversa? – Ela perguntou.
Naquele exato instante, Fabiana passava lançando de soslaio, um cruel e julgador olhar.
Subjugado, Anderson dissimulou sob aqueles olhos intimidadores e respondeu:
- Pode ser outra hora, Luciene?  Não estou me sentindo bem no momento.
Ela assentiu e concordou deixar o que tinha de falar para depois.
Assim que todos deixaram a sala, Anderson Guimarães esmurrou a mesa praguejando.
- Merda!
Sem condições psicológicas para trabalhar naquela quinta feira, o professor alegou uma indisposição e saiu mais cedo. No entanto, Anderson não fora para casa, ficara estacionado em uma praça próxima ao colégio em que lecionava.
- Por que ela simplesmente não conta? – ele se perguntava – Qual a sua intenção em querer brincar comigo dessa forma? O que ela está querendo?
Ao mesmo tempo em que se perguntava, Guimarães conjecturava respostas para tais indagações. Respostas que só o confundiam ao invés de esclarecê-lo. Porém em meio a tantas dúvidas e hipóteses, a única que ficava clara era que ele tinha de dar um fim naquilo antes que toda a situação o levasse a loucura, que por sinal já o acariciava como a sua única companheira. Anderson decidiu ali ficar e esperar por Fabiana.
Assim que os relógios badalaram meio dia, o turno da manhã do Mário Quintana e do colégio Miécimo da Silva praticamente já se encontrava nos arredores daquela praça. Alguns seguiam o caminho de suas casas, outros aguardavam os ônibus, e é claro, o grupo dos vagabundos que insistia em ficar por ali até que o cu fizesse bico. Guimarães avistou Fabiana Guedes e permaneceu em alerta espreitando cada movimento dela.
Um ônibus passou e parou naquele ponto. Uma dezena de estudantes embarcou incluindo Fabiana. O professor girou a chave na ignição e pôs-se a segui-la.
A estranha adolescente desceu no ponto final do ônibus defronte a estação ferroviária de Campo Grande. Lá, um grupo de pessoas colavam cartazes com a foto de um homem jovem, aparentemente com 23 anos de idade. Acima da foto estava escrito:
DESAPARECIDO
Abaixo da fotografia havia o nome do cidadão.  Leonardo Miguel Costa da Silva
Tudo estava correndo como Anderson imaginava, e se ele estivesse de bem com seus palpites, saberia o destino de Fabiana. E ele haveria de estar de bem com seus pressentimentos e palpites.

Nos arredores da Paróquia da Nossa Senhora dos Desterros, mais exatamente sob a sombra de uma enorme árvore e bem próxima a uma das saídas do Shopping Campo Grande, roqueiros se encontravam dividindo o espaço com mendigos e outros tipos de vagabundos. Basicamente não faziam nada além do que fumar, beber cachaça e falar asneiras. O espaço fora apelidado pelos mesmos de Q.D. Fabiana encontrava-se lá quase todo santo dia, para horror e desaprovação de seus pais. Ela passava tantas horas lá que só ia embora quando a noite caísse. Naquela quinta feira, ela não fez diferente; apesar dos pesares, as companhias a agradavam e acima de tudo, a entretinha. Todavia, o que ela não imaginava era que alguém estava observando-a desde cedo.
As horas passaram de maneira tão enfadonha que Anderson estava prestes a arrancar os cabelos. Todavia, a obsessão em segui-la o manteve firme, mesmo ele não tendo a mínima ideia do que faria. Os sinos da paróquia badalaram às 18 horas. A noite já caíra iniciando o soturno reinado da lua. Os roqueiros, em sua maioria vestidos de preto, se agitavam preparando-se para irem para suas casas. Guimarães pôs-se em alerta ao ver Fabiana despedindo-se de seus amigos, ligou o motor do carro e lentamente ia se aproximando.
A adolescente pegara uma van na Cesário de Melo num ponto próximo ao hospital Rocha Faria. Em 40 minutos, o veículo a deixaria nos arredores de sua casa. Fabiana residia em um sub-bairro emergente de Campo Grande. Um lugar onde a iluminação pública estaria para ser instalada e as ruas haveriam de ser asfaltadas. Da estrada até a sua casa, era uns 10 minutos de caminhada. Em dias de chuva forte, o tempo para completar tal percurso dobrava devido à lama.
A gélida brisa do inverno farfalhava as folhas das árvores que ladeavam a rua na qual Fabiana caminhava até seu lar. A escuridão era relativamente perturbadora para qualquer pessoa, porém não era para ela. As trevas lhe eram algo fascinante e sinuoso. Criaturas rastejavam pelo terreno irregular enquanto a sombria lua amarelada observava tudo lá de cima.
Fabiana cantarolava um refrão que explodia nos fones de seu MP3 quando algo surgira tão rápido que ela não pôde ouvir devido ao alto volume. O sorrateiro ataque a atingiu violentamente pelas costas.
Anderson a perseguia na escuridão, pensamentos confusos o perturbavam, suas mãos soavam sobre o volante e seu coração palpitava a ponto de fazê-lo ofegar. De súbito, ele pisou fundo no acelerador e guinou o carro na direção de sua aluna.
Houve um baque surdo na dianteira do automóvel e ele pôde ver o volumoso vulto de Fabiana rolando por cima de seu Gol branco assim como pôde escutar o barulho do corpo dela percorrendo toda a lataria. Anderson parou e por um curto instante ficou estagnado com as mãos fixas no volante, olhos vítreos fitando o nada e a respiração quase nula. Reinava um silêncio brutal onde apenas o cricri dos grilos era ouvidos junto de seu coração acelerado e ritmado. Tum Tum, Tum Tum, Tum Tum.
Não acredito que fiz isso. Ele pensou. Não acredito que eu fiz isso.
O professor ligou os faróis do carro e pelo retrovisor, pôde ver a silhueta de sua aluna imóvel no chão.
Desesperado e confuso, Anderson ameaçou a manobrar o carro e dar o fora dali o mais depressa possível. No entanto, uma coerente voz na qual conhecemos como voz da razão, clamava das profundezas de seu subconsciente para que ele voltasse à humanidade. O bom e velho existencialismo racional que nos difere nos animais.
Você está louco? Por acaso quer passar o resto de sua vida na cadeia? Por acaso pensa que tirar uma vida é simplesmente assim? Pare e pense seu idiota, você acha que vai garantir o seu emprego atrás das grades? Vai ajuda-la!
- Oh meu Deus! O que eu fiz? – Ele disse abrindo a porta do carro.
Correu até a sua aluna e se horrorizou ao vê-la caída com uma faixa de sangue escorrendo por debaixo de seus cabelos. A música que ela ouvia saia abafado pelo fone em seu ouvido.
- Meu Deus! – Exclamou ele apalpando-a em busca de qualquer sinal vital. Qualquer coisa que lhe desse uma oportunidade de esclarecer a qualquer pessoas que tudo não passou de um acidente, afinal, era uma rua escura, perfeitamente cabível uma alegação dessas.
Porém não havia nada que Anderson Guimarães pudesse anuir como sinal vital. Fabiana estava morta. Ele a matara.
O horror em sua essência o dominou e ele gritou. Não obstante, seu gritou aterrorizado fora abafado pelas mãos postas ante a boca. Lágrimas desciam de seus olhos perplexos.
Anderson manobrou o carro e deixou aquela rua e o corpo de sua aluna para trás. Talvez fosse mais coerente chamar uma ambulância e alegar um acidente, porém logo viriam perguntas, assim ele pensava, e no fim, tudo acabaria para ele.
Pálido tomara uma ducha assim que chegara a casa e sequer olhou para a esposa. Nem na época de sua adolescência, Anderson demorara tanto em um banho como demorara naquela noite. Esfregou a mão desembaçando uma parte do espelho e encarou a sua imagem refletida. Não vira nada além do que a imagem de um assassino.
Com a cabeça relativamente mais fria, o professor começou uma preparação para eliminar ou dissimular possíveis provas. Verificou a lataria de seu carro e constou que não havia nada do que um quase imperceptível arranhão. Por sorte, atingira Fabiana na parte do amassado que sua esposa causara numa colisão leve.
Dormir seria uma tarefa impossível; todas as vezes que fechava os olhos, a imagem de sua aluna caída morta com uma faixa de sangue escorrendo por baixo dos cabelos o perturbava e muito. Pegou o telefone e por pouco, não telefonou para o amigo, Sebastião. Assentiu que era melhor não compartilhar aquele segredo com ninguém. Sentou-se na poltrona localizada na varanda de seu apartamento na Tijuca e com uma garrafa de Red Label em mãos, danou a se embebedar.

Sexta Feira...

A luz do sol da manhã atingiu o rosto de Anderson que passara a fria madrugada do lado de fora. Seu hálito era puro uísque e o branco de seus olhos estava tão vermelhos quanto uma conjuntivite. A principio, o professor tencionou não ir à escola, porém, concordou consigo mesmo que se agisse mais naturalmente possível, menos suspeita levantaria. Mesmo sem condições, ele ia pondo-se de pé para trabalhar. A garrafa de Red Label rolou sobre seu colo e por pouco não se espatifou na queda. Cambaleante, Anderson apenas lavou o rosto e escovou os dentes antes de sair de casa.
Naquela sexta, o professor de língua portuguesa, Anderson Guimarães, não estava em sala de aula meia hora antes do sinal de entrada como de costume. Muito pelo contrário, ele estava bastante atrasado. Havia certa expectativa dos alunos em gozarem dois tempos vagos. O ultimo dia de aula estimulava uma singular euforia em todos. A classe conversava em um tom exaltado formando um alarido de vozes. Porém a algazarra de súbito cessou; para desapontamento de quase toda a turma, o professor chegara à sala de aula.
Burburinhos se formavam, pois eles cochichavam sobre o horrível aspecto de seu professor que os encarava com um olhar peculiar. Algumas risadinhas foram dadas ao fundo da classe, porém logo o silêncio reinou absoluto.
Com todos o olhando com olhos sobressaltados, Anderson se deu conta no quanto estava mal. A primeira coisa que fizera fora olhar para a carteira vazia de Fabiana Guedes. Suspirou e sentou-se diante de sua mesa onde levou as duas mãos a cabeça que martelava num ritmo incessante. Abriu a gaveta ao léu e lá, havia algo que fizera seus olhos avermelhados se arregalarem. Uma folha de caderno que não deveria estar naquele interior jazia sobre alguns materiais. Anderson Guimarães tomou o papel em mãos e uma tremedeira passou a tomar conta de seu corpo de tal forma, que seus dedos quase rasgavam involuntariamente aquele papel. Por um momento, ele olhou por cima daquela folha encarando horrorizado seus alunos. Desceu os olhares novamente para o papel como se tal gesto pudesse mudar o que lá estava escrito.
Sobre aquela folha de caderno, recortes de jornais e revistas formavam uma frase que o estremecia. Uma frase que o horrorizou e o conduziu até as mais profanas e insólitas zonas da alma.
EU SEI

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Primeiro Segredo ( de Ana )

O filho à frente; atrás, sua mãe. Desciam os dois pela escada de madeira que levava do mezanino até a sala de estar. O barulho dos pés estacando no chão, os rangidos sôfregos do pinho e o som cada vez mais fugidio das vozes a se afastar do seu aposento no segundo andar da casa eram seus olhos. Difícil não ter como ver; ainda mais difícil é fazer da diversidade infinita dos sons sua bússola. Foram anos aprimorando forçosamente os ouvidos de cego. São os melhores entre todos, com efeito, mas a custa de muita dor e desengano; os primeiros anos da cegueira são um florete enterrado na alma.

Estava de costas para a porta entreaberta de sua biblioteca agora inútil. Tão inútil quanto fedorenta e mofada. Ninguém mais lia seus livros. Ana, a mulher, não tinha o hábito; seus filhos, Érico e Manoel, tampouco. A cada dia que passava, sentia a vida microbiótica passear e fazer lar entre as páginas de sua vida. Estranhava os odores a cada dia mais incisivos, conquanto soubesse que, além da audição, todos os outros sentidos despertaram da letargia quando o pictórico morreu por detrás do glaucoma. Com o olfato passa o mesmo. O sujo fedia mais; o limpo ficara a cada dia mais odorífico.

Os livros que no passado viviam sendo folheados agora se resignavam, escorados pelos outros livros, escorando-os também; permaneciam como no dia em que o oftalmologista recomendou-lhe que cessasse a leitura . Cada um fazendo o peso necessário para igualar a força que vinha do peso dos outros livros justapostos. Não há nada mais aconchegante que uma biblioteca; não há nada mais meu que minha biblioteca. Passava as mãos sobre as obras; Vinha-lhe à mente que tudo que lera transformara-se na nuca lipídica e abaulada de seu tio Facundo ou numa rodovia feita só de quebra-molas; assim, acariciando os exemplares empilhados nas estantes e sem retirá-los de seus espaços exíguos, bolinando-os, apalpando-os, roçando a palma de sua mão direita nas capas, sentia como se encoxilhava a superfície dos enredos ali aprisionados. Doía-lhe que de tudo que pôde sorver das frases, períodos, parágrafos, epígrafes, preâmbulos, prólogos, epílogos e capítulos só lhe restara o exoesqueleto, a casca - Pelo menos ainda tenho mãos.

Costumava passar horas tentando rebocar da memória a textura dos invólucros, quais deles eram em alto relevo, quais erodiram quase por completo, quais amassaram; se naquela prateleira estavam os tomos de sua enciclopédia, se na outra os russos, acolá os modernistas. Se não podia inventar seu próprio braile quando dedilhava suavemente a revestidura, criava em sua mente um novo mapa em três dimensões, onde toda senda dava num livro. Se Madame Bovary virara o homem-barata, já não fazia diferença; quem se importaria com seus silogismos no breu; se esse é fino, deve ter cem páginas; se tem cem páginas e as mesmas esfarelam em minhas mãos, deve ser “O Relato de um Náufrago”. Uma página parcialmente rasgada, uma orelha, a textura das folhas traziam à baila estórias aleatoriamente, ensejando o batismo do objeto-livro, mesmo que dentro dele houvesse um romance distinto: quem se importa? Ninguém os lê nem sabe que os quero ler novamente. Quem há de entender que preciso conversar com meus livros outra vez? Preciso saber quem são eles, quem são seus vizinhos na estante, se se sentem bem com o bolor que não para de ficar mais impertinente às minhas narinas.

Pela janela do segundo andar, tudo é inteligível; ausculta tudo através do mínimo som que entra pelas orelhas; o mundo ganhara, além de um cego, um mexeriqueiro: já desceram as escadas; atravessaram a sala; agora, o quintal; Érico abre o portão e Ana o segue; Ana pede que Érico venha ver seu pai mais vezes, que demova Manoel da ideia de viver na Austrália; Érico está em silêncio; deve estar olhando para chão por sentir-se atalhado – se não, deve estar assentindo com a cabeça; Érico se afasta do portão da casa, contorna o carro e lhe abre a porta fechada; fecha-a novamente; pega alguma coisa no porta-luvas – logo, não contornou o carro coisíssima nenhuma -, fecha-o e dá a coisa a Ana; Ana parece choramingar e, num átimo, já não está mais a cobrar nada do filho; Érico caminha em torno do carro; Ana vai atrás e se debruça na janela do motorista; Ana diz a Érico que quer despedir a empregada, Tudo está um caos, sobretudo a biblioteca, Parece que ninguém quer mexer nela, meu filho, já é a terceira empregada, droga; Érico diz que está na hora de vender a tralha toda do velho, Ele não vai voltar a enxergar, mãe; Ana o admoesta, Seu pai agora escuta tudo, tome cuidado, Fale baixo, Você sabe muito bem que se ele souber que estamos pensando em vender seus livros ele enlouquece, Você estará longe na hora da confusão, eu que tenho que agüentá-lo; Érico diz que está bem, que se ele gosta tanto, que se explodam o cheiro de mofo e a zona, que se ficasse cego, também não quereria que vendessem seu carro, que entendia seu pai; Ana afastou-se do carro; Érico ligou o motor; a partir daí tudo virou um vórtice sonoro de metal, combustão e rudez; o carro movimentou-se e o som roufenho foi se amainando; quando o sinal fechou, Érico e seu carro viraram a esquina sumindo da vista de Ana, que desdobrou um papel, Deve ter sido isso que Érico lhe deu ; Ana fechou o portão vagarosamente e voltou a casa.

Ao adentrar a sala, sentou-se no sofá e ali ficou. Ligou o televisor, pôs o volume bem baixo e começou a tricotar. Uma hora se passara desde a saída de Érico. Subiu para ver como estava seu marido.

“Algum problema, Érico?”

“Não... Mas venha cá, meu amor”.

Ana, que havia entreaberto a porta da biblioteca, acabou por entrar e sentou-se à mesa junto a seu marido. Ele estava ereto na cadeira, como sempre; as mãos espalmadas sobre o escrínio; sob uma delas um texto escrito a lápis. Ana levantou a mão esquerda de Érico, puxou suavemente a folha de papel ofício rabiscada; Érico, impávido, não se opôs. A caligrafia de Érico ainda continuava bela e esguia, mas as linhas entrecortavam-se, confundindo a leitora.

“Eu preciso morrer para ver se consigo ler novamente. Se continuar sem ler, comerei meus livros pra ver se um ácaro, lá do meu estômago, me conta alguma estória da qual já esqueci”.

Ana sorriu indecisa depois de ter lido a confissão em silêncio; Érico também, depois que ela dobrou o papel e aspergiu das narinas o ar e o muco; assim sorria.

“Ana, sabe a parede da porta? Pegue algum livro na estante e leia alguma coisa pra mim”.

“Pego”, e depois de franzir a testar e titubear um pouco, foi até os livros e trouxe consigo um exemplar de uma coleção de três tomos.

“A Origem das Espécies. Não é um dos seus preferidos, não é? Lembro bem de você falando de Darwin quando ainda ia para a Igreja. Você parou de ir à Igreja, mas nunca acreditou que a gente viesse do macaco”.

“Darwin nunca disse isso, embora eu tenha certeza que ele quisesse. Só não conseguiu provar; morreu antes”.

Ana sorriu estridente. Chegou a olvidar o quanto a cegueira de seu Homem lhe irritava.

No primeiro folhear descuidado - aquele que só um não- leitor faz, como um menino que chuta uma bola pela primeira vez - um papel amarelado desprendeu-se do abraço das páginas e voou ao sabor do austro gelado que entrava pela janela aberta, caindo no chão. Ana olhou para Érico, e era como se ele tivesse programado aquilo; as mãos ainda estavam sobre sua mesa; a expressão, intacta. A cegueira não lhe impediu de sentir que sua mulher logo descobriria que havia planejado aquele momento. Tencionou explicar a situação, mas não pôde esquivar-se do desejo de saborear a reação da mulher, através de sua voz.

“O que é isso, Érico?”, e nada respondeu. “Será que alguém pôs algum bilhete, ou sei lá o quê, dentro de um dos livros que você vivia comprando no sebo?”.

Agachou-se; o bilhete voara até a parede da porta, sob uma das estantes; ajoelhou-se e esticou o braço direito para coletar o papelzinho. Enfim pegou-o.

“É um texto meu”, falou Érico, placidamente eufórico.

“Sério? Você nunca deu pra escrever... Bom, pelo menos você me disse”.

Ana, leitora enferrujada, começou a ler. As letras pequeninas lhe embaralhavam a compreensão mais que o texto de Érico. Não havia nada empolado ou prolixo. Era um relato de um dia vivido no longínquo ano de mil novecentos e oitenta e sete.

Assim que percebeu que sua mulher começara a leitura, Érico lhe pediu que lesse à voz alta. Ana assustou-se, pois se sentira, por toda a vida, tolhida da literatura pela a obsessão de ler do marido. Como contar a ele que achei o máximo os livros que leu e releu quando ainda não tinha cabelos brancos, quando ainda vivia a se divertir com os amiguinhos da escola, pensava, tola, pois Érico tornara-se paulatinamente mais misantropo enquanto via seus queridos afastando-se do seu legado, que era o quê e do quê tinha lido.

“Pensei que só eu havia amado esse dia”, disse Ana, olhando para a janela. “Quer dizer que você gostava mesmo dos meus primos de Minas, né? Que ironia! Jurava, contava pra todos, pra mamãe inclusive, que você se sentia mal na companhia deles. Por essa eu não esperava... Mas...”, e Ana, gargalhando, continuou, “eu me lembro; você sempre dizia o contrário. Lembra da briga que tivemos quando eu surtei ao ouvir de você, mais uma vez, que era besteira minha, que você gostava da capialzada?”

“Lembro-me bem”, respondeu Érico, petrificado,“mas eu sabia que era culpa minha, em parte. Quando voltamos de Minas, nós estávamos no carro, descendo a serra de Petrópolis, eu te disse que havia adorado seu primo Mourão. Nunca tinha visto uma pessoa tão da roça como ele. Pronto: você cismou que eu odiava as viagens, suas primas, andar pelo cafezal... até da sua mãe você achava que eu gostava menos quando viajamos juntos pra lá.”

“Você gostava mesmo, Érico?”, perguntou-lhe, com os olhos enternecidos.

“Eu adorava. Só costumava ficar quieto, pois pensava que todos já soubessem que os visitava a contragosto, ora. Você também não ficaria?”

Ana se calou. Um pouco envergonhada, desviou o olhar dos óculos escuros do marido; esquecera-se, como sempre esquecia, desde quando a cegueira ainda era deveras parcial, que Érico não lhe via, tampouco seu constrangimento. Há algum tempo vinha alimentando a teoria de Manoel. Seu filho mais novo cria que seu pai desenvolvera um sexto sentido; não entendia como um cego podia ser tão autômato e sagaz. Ficaram todos os de casa com medo das revelações e da sabedoria que nem Érico sabia que lhe atribuíam. Não havia sabedoria qualquer, somente os outros sentidos puderam libertar-se enfim do jugo da visão.

Sem precisar que lhe pedisse Érico, Ana pôs-se até a estante da janela que dava para o pátio interno da casa. Érico sentiu o ar em movimento expelido contra seu rosto, a despeito do vento que subitamente parara de soprar: Ana pusera-se de pé açodadamente na direção de algum livro que acabara de divisar, feito um furacão.

Não exatamente. Foi como uma corrida que se dá quando se chega à praia, quando só se deseja uma única meta, que é estar submerso na confluência onde se produz a espuma branca do litoral que assoma espremida pela areia pálida e o horizonte de azuis indefinidos: quem já desembestou numa correria infantil para cair de maneira cambaleante no mar sabe que não se delimita o pedacinho de água no qual se vá jogar o corpo; simplesmente se vai, com objetivo definido, mas sem alvo para mirar e acertar, como se a areia lhe empurrasse para que o mar decida onde se dará o banho. Não é o banhista quem delibera sobre onde saciará seu desejo de água salgada; nem as bandeiras vermelhas do Corpo de Bombeiros são capazes de deter a força motriz da areia e o canto-da-sereia do mar.

Como se um ímã indeciso a houvesse atraído, Ana trafegou sobre os tacos corridos e tomou para si um livro qualquer; não porque assim o quisesse, mas devido ao aparvalhado caminhar sem destinatário correto. Tonta, usou o livro espesso e pesado que acabara de retirar da estante como pêndulo; jogou-se na cadeira, assustada, como se sentisse a Terra claudicar em sua órbita sob seus pés.

“Mas, o que é isso?”, perguntou Érico, confuso, buscando na sua escuridão privada as mãos de sua mulher. ”O que foi, Ana, está sentindo bem?”

“Estou”, secamente. E estava de verdade. Mesmo que lhe faltasse direção àquele momento, Ana sentiu-se livre, como se toda a biblioteca fosse a cadeira da qual acabara de se levantar para nela sentar-se novamente, munida de um livro. Refestelada, logo se recompôs, faminta por outra surpresa de Érico.

“Veja”, e apontou a capa do livro que pegara a Érico, como se não houvesse mais cego no recinto, “esse você ganhou do Pacheco, se lembra? Aquele de lá da Cidade, do trabalho...”

“Claro”, exultou Érico, levantando as sobrancelhas como se fosse abrir os olhos, “são as crônicas de João do Rio. Ele sempre me dizia que trabalhávamos onde não deveria haver prédio nem escritório, só um morro cheio de gente pobre”.

“Sei... O Castelo”.

Novamente, um papel desprendeu-se das páginas emboloradas e flutuou docemente até o chão. A data: vinte e cinco de Novembro de mil novecentos de setenta e um.

“Sabe do que se trata este?”, perguntou Ana, lutando contra a súbita ideia que lhe aflorava: fora enganada por décadas, através de tirinhas de papel sórdidas. Condenou sumariamente seu marido de traição, por não carregar o opróbrio da vida dupla (tripla?quádrupla?) em seu coração. Nem a cegueira lhe atenuara o delito.

“Se soubesse, estaríamos nós aqui nesse jogo?”

E logo o ódio se transmutou em compaixão, e num pouco de langor. O velho frágil atrás de seus óculos escuros recuperara sua quintessência. Que marido seria capaz de produzir tanto sobressalto numa velha, pensou Ana, bendizendo a trama extemporânea guardada e enovelada pelo velho cego marido.

E não havia nada de impróprio; era só mais uma recordação; um dia na Quinta da Boa Vista com a mulher e o Júnior - ainda não havia Manoel. Uma mistura de alegria, saudosismo e enfadamento mutilou a singeleza do momento. Nem a confirmação – inócua, pois sabia que Érico amava a paternidade e o matrimônio – dos dias felizes da mocidade fora suficiente para suplantar a necessidade da surpresa fustigada pelo conteúdo do primeiro segredo; e se lesse então outra estória de família, já não lhe seria suficiente; sem perceber, seus piores pesadelos de mulher traída – jamais consignados – penetravam em seus pensamentos, escrevendo motes fantásticos em sua mente, num átimo, num espaço infinitesimal de tempo, ali, sentada, ao lado de um cego, como se já estivessem as tramas prontas, ou adormecidas. Saber do que jamais imaginara conhecer a respeito do cônjuge prosaico se lhe tornara precípuo.

No decorrer do dia, a tonteira não cedeu, nem a perscrutação dos livros, nem a exumação dos segredos – uns nem tão secretos assim; outros, segredos fátuos, como jamais imaginara ser da índole de quem lhes conservara inauditos; alguns, eróticos, lascivos, poligâmicos. Que força levara Érico a despir-se tão desmesuradamente, não se conhece. Mais imprevisível foi a reação faustosa de Ana frente a uma torrente de bilhetes, anotações e missivas; todos, ora punham-na à guisa de protagonista, ora transversalmente citavam-na. Digamos que para alguém que não gozou ou se locupletou dos doces defeitos dos personagens feericamente inescrupulosos dos romances, visto que não os leu jamais, sua reação jubilosa foi estranha: o primeiro romance lido por ela, em anos, ou pelo menos a sensação lúbrica da leitura, inundava-a, e através da sua própria vida: uma biografia não autorizada de Ana em pequenas doses de papéis escritos às pressas. Érico chegou a pensar, ao longo de vinte livros abertos e dezoito textos revelados, que o choque causado em Ana fora tão doloroso que o desespero manifestara-se feito uma zombaria, como se a Ana de sua adolescência, soterrada pela repetição dos rituais diários, pelo casamento, pelos filhos, pelas novelas da televisão, pela influência daninha e reacionária dos pais rompera as amarras do claustro mais inextricável de sua alma embrutecida, ressuscitando num corpo velho. Não que isso não causasse alegria em Érico, mas, quiçá pela ousadia de revelar parte de sua vida a quem, em tese, não deveria ter tomado nota de pensamentos tão pretéritos já numa idade avançada, quando a convivência massiva implica – ou assim o deveria, segundo o que se espera dos velhos casais - o fim dos segredos a dois, assustou-se.

Ao longo do terceiro dia de leituras, Érico enfastiou-se. Ana, menos, entretanto já estava tomada por outra premência; queria ler um livro. Nem sequer passava por sua cabeça contar a seu marido de seu desejo crescente. A vergonha de ceder a uma intenção antiga de Érico demoveu-a menos da ideia da confissão a qual ela inferira com razão ser uma fraude, um plágio grosseiro: Ana poria dentro de um dos livros de Érico um relato sobre seus três últimos surpreendentes dias.

Tão fácil quanto esconder de Érico que estava lendo um romance foi escolhê-lo. Fê-lo porque era fino. A primeira página foi de leitura digerível, quase prazerosa, o que se constou até o final do romance.

Érico manteve-se distante de tudo depois de ter sido deflorado através de seus textos outrora ignotos. Feliz, queria o silêncio. Outrossim, não pensava em regressar tão cedo àquele escrínio onde se lhe apresentaram milhares de personagens, centenas de estórias, ao longo de uma vida - contando com a última, a sua, a dos bilhetes.


Depois de anos sem ler um único romance, prestes a interromper sua guerra fria com os livros, Ana deixara Érico aos cuidados de Manoel. Este viera até a casa dos pais lhe contar sobre uma viagem que faria. Não era a Austrália o destino, e sim o Vietnã. Cego, dessa vez totalmente , da visão e dos outros sentidos que lhe restaram, pela ira de ver o filho partir sem motivo plausível senão o desejo de alienar-se de tudo, Érico pela última vez ralhou com o rapaz.

Ana saiu silenciosamente de casa, livro às mãos, sentou-se no banco da praça ao lado da Igreja Católica ( uma espécie de adro público ),no Jabour, onde morava desde o casamento. Sentada no banco do tabuleiro de damas, tentou escrever o que um dia, como lhe fizera o marido, jogaria na cara de Érico. Como uma bicicleta enferrujada que só anda até se partir a corrente, não saiu das primeiras linhas. A praça pululava de amigas, vizinhas e outros circunstantes. Estava sendo observada pelos que já a conheciam e que maquinalmente acharam estanho seu comportamento. Assustou-se, dobrou o papel em que escrevia e se levantou do banco. Pela última vez- pensara -, sentiu-se novamente velha, iletrada, subtraída. Queria ler e leu, em que pese o livro pueril, isso ela sabia. Já escrever, não pôde. Retornou a casa. Manoel já havia saído. Érico dormia refestelado no sofá. Subiu até seu quarto, sentou-se na cama e abriu a gaveta de seu criado-mudo. Sem saber se por inapetência somente ou por um sentimento que não podia defini-lo como ódio, argúcia ou benevolência, guardou ali mesmo, na gaveta atulhada de contas pagas, convites de festas de casamento e anotações desnecessárias o primeiro parágrafo do primeiro de tantos segredos que doravante seriam revelados e detonados feito uma bomba, no futuro.

Do fundo do receptáculo, o seu valhacouto, retirou outro papel, o que recebera de seu primogênito no dia que Érico lhe abriu as páginas de seus livros com tudo de secreto que lá havia. Dobrou-o, mais até do que acabara de fazer com seu primeiro segredo; dobrou-o uma, duas, três vezes, como se temesse que alguma palavra dali escorresse e fugisse do papel em direção a Érico, como uma namorada antiga e irrefreavelmente apaixonada, mesmo que já não lhe pudesse tocar com os olhos seu leitor-homem, devoto fidelíssimo e apaixonado do léxico por uma longa vida. Quando Érico despertou e lhe chamou da sala, Ana Pôs o papelzinho entre as páginas do livro que acabara de ler.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

[Trecho] A Guerra Santa

O MERCENÁRIO

1
Existe um bar na periferia de North City que apesar da pouca badalação em comparação as boates e aos pubs do centro e da região litorânea da cidade, é tão frequentando quanto. No entanto, por mais que o movimento no local perpetue até as mais altas horas da madrugada, seus frequentadores passam longe do glamour vivido pelos atores, atrizes, músicos, empresários, esportistas e políticos que contemplam aqueles ambientes com suas ilustres presenças. Seus fieis frequentadores em contrapartida, não passam de gângsteres, prostitutas, cafetões, viciados e pessoas em geral com uma miserável perspectiva de encher a cara de cerveja, dar umas tacadas de sinuca assim como uma foda com as namoradas e se tiverem tempo, arranjarem uma briga durante esse meio termo. O estabelecimento atende pelo simpático nome de TOCA DOS RATOS e o cheiro lá dentro não é os dos melhores. Uma mistura de cevada e nicotina. Isso para não mencionar os banheiros.
Um homem estava sentado em uma mesa completamente consumida pelo vandalismo dos frequentadores. Há 3 dias, tal mesa serviu como um escudo numa tentativa mal sucedida de esfaqueamento. O cidadão que ia ser apunhalado ergueu a mesa em defesa aparando o objeto pontudo que lhe penetraria no peito. O atacante no ato de tentar tirar a faca enterrada naquela madeira, perdeu segundos preciosos, dando assim a oportunidade do defensor contra golpear com uma garrafada bem no centro de sua cabeça fazendo-o cair desfalecido.  Havia vulgaridades entalhadas na mesa, algumas sem nexo, outras engraçadas que chegou a fazer o homem emitir um espectral sorriso no canto dos lábios. Vulgaridades como : ESCREVI, SAÍ CORRENDO, PAU NO CU DE QUEM TA LENDO.  XOXOTA É MUITO BOM.  BOCETA TINHA QUE NASCER EM ÁRVORES.  A garçonete chegou e deixou a cerveja que pedira sobre aquela superfície judiada e empoeirada. O homem agradeceu com um simples menear de cabeça. Seus cabelos eram rubros como o sangue e desgrenhados como o de um morador de rua. A barba quase alaranjada por fazer, percorria a extensão de seu rosto criando uma camada de pelos sobre sua tez. Uns óculos escuros de aros redondos escondiam seus olhos, embora o ambiente fosse mal iluminado, ele insistia em não tira-lo do rosto. Um cigarro pendia no canto de sua boca, havia algumas herpes naqueles lábios. Vestia uma descolada jaqueta de couro preta sobre uma blusa também preta com as iniciais J. W. estampada. Usava um jeans surrado que exibia seu joelho esquerdo, e uma grotesca bota de xerife do velho oeste cobria seus pés. Seu nome, JACK WEST.
Alheio às tacadas de sinuca e ao burburinho instaurado na Toca dos Ratos, Jack West observava com olhos vítreos um papel que acabara de tirar do bolso da jaqueta.  O conteúdo do papel era algo que lhe interessava, mais do que isso, era algo diferente de todos os trabalhos que já executara até então, algo que lhe dava uma ambígua sensação de temor e anseio. Indubitavelmente, a missão mais difícil de sua longa carreira de assassino.
- Snake, o grande manipulador das chamas, o homem que ao lado de Spider, o mestre dos raios, destruiu a cidade de Paladium.  – Ele balbucia.
Ele tira o cigarro da boca e amassa a guimba contra a própria mesa por falta de um cinzeiro. O papel tem outra folha anexada e West passa os olhos nos anexos sem muito interesse. 
Nesse curto período, surge no bar uma jovem de 17 anos munido de um belo par de pernas, vestida com um minúsculo short jeans que está mais para um cinto do que para um short propriamente. Sua bunda fica bem evidenciada naquelas vestes. Seu nome é Ju Felina, tem um longo cabelo preto de índia que vai a altura da cintura, seios medianos escondidos por um top branco e usa brincos de argolas. Seus lábios são grossos e lentes verdes ornam seus olhos lhe dando um certo charme.  Ju passa sob os olhares contidos de todos os homens ali presente. Seus saltos, estalam a cada passada. Ela caminha com um olhar imponente e o nariz empinado não ligando se está esbarrando nas mesas pela Toca dos Ratos e tampouco, esquentando se está pisando no pé de alguém. Esbarra na mesa cujo um homem ruivo ler um papel fazendo sua long neck oscilar naquela superfície. O ruivo apara a garrafa evitando-a que caia. Porém ela chama sua atenção e por alguns segundos, ele a observa com um olhar vagamente ardoroso com relação aquele traseiro. Porém, não demora em voltar a se concentrar em seu trabalho.
Otto Heidfelt, conhecido como O Garra, devido a uma enorme tatuagem de uma garra de tigre em suas costas, está diante do balcão e se irrita com o que acabou de ver. Ele fita o desconhecido sobre a mesa a 10 metros de distância e franze seu cenho num único sobrolho. Ju Felina chega perto dele e o beija calorosamente apertando suas unhas postiças contra o seu peito. Porém, mesmo beijando-a, seus olhos não deixam o desconhecido.
- O que foi Garra ? – Ela indaga.
- Aquele homem – ele aponta para West – aquele homem teve a coragem de olhar pra você diante da minha presença.
Ju dá um suspiro que denota.  Ah, outra vez isso. E contemporiza lamentando não ter entrado no bar como uma cidadã normal:
- Deixa isso pra lá, Garra, ele deve ser apenas um viajante perdido.
Otto aperta com forças as magras bochechas dela e a olha bem nos olhos com fúria.
- Escute aqui! Ninguém, olha pra mulher do Garra, entendeu bem? Ninguém!
Ju diz algo, porém sua voz sai indecifrável.
- O que está dizendo?  - Ele pergunta.
Ela se livra do rude aperto de Garra e repete.
- Está me machucando seu imbecil!
Garra estala os dedos e dois brutamontes que jogavam uma partida de sinuca se põem a disposição de imediato interrompendo a disputa.  Um careca alto com uma bizarra cicatriz em forma de X na testa e com inúmeras tatuagens nazistas pelos braços, junto de um corpulento homem com a barba ocupando boa parte do rosto, usando uma bandana do Sepultura, com uma barriga protuberante a alguns centímetros além do cinto da calça, se aproxima de Otto.
- O que foi Garra? – Perguntou o careca.
- Aquele sujeitinho ali perdeu a noção do perigo. – Limitou-se Otto.
- Aquele com o cabelo de fogo? – Apontou o barbudo.
Otto assente.
- Vamos lá ter uma palavrinha com ele. – Disse o barbudo estalando os dedos da mão direita contra a palma da esquerda.
- Garra, por favor. – Insistia Ju.
- Não se meta nisso, Ju. – Garra espalmou a mão para ela.
West acabara de dobrar o papel e por no bolso de sua jaqueta quando 3 sujeitos pararam diante de sua mesa.  Jack ergue os olhares para eles e reticente, saboreia o ultimo gole de sua cerveja. Os homens permanecem impassíveis e com caras de poucos amigos encarando-o. Com toda a serenidade do mundo, West pergunta:
- Algum problema, rapaziada?
- Está vendo aquela mulher ali parada em frente ao balcão? – Garra aponta para Ju – Ela é minha namorada.
- Meus parabéns – responde Jack – é uma bonita moça, apesar de ser um pouco nova pra você, não acha?
O sangue subiu a cabeça de Otto a ponto de apitar pelas orelhas como uma panela de pressão. Naquele instante, por mais que aquele forasteiro se curvasse aos seus pés e lambesse suas botas, não seria suficiente para escapar de uma boa surra. Com os dentes trincados, ele rosnava:
- Ninguém olha para ela, entendeu? E ninguém zomba da minha cara!
Jack West ergue as duas mãos até a altura dos ombros e com um dissimulado sorriso se desculpa:
- Ora, não me leve a mal, cavalheiro, eu não sabia que ela era sua namorada e eu não olhei para ela com olhos libidinosos. Olhei apenas por curiosidade. Vamos fazer o seguinte, eu pago uma cerveja para vocês e esse mal entendido acaba por aqui, o que me diz?
Otto hesita por um milésimo de segundo, contudo, pega a garrafa vazia sobre a mesa e a quebra na quina formando uma arma pontuda e perigosa. As conversas e as tacadas que aconteciam na Toca dos Ratos cessam de imediato. Todas as atenções estão voltadas para eles.
- Abaixa essa garrafa, cara, acha mesmo que tudo isso vale a pena a terminar assim? Por que simplesmente não aceita a minha cerveja? – Falava West.
- Acho que esse falastrão está a fim de perder a Língua, Tom. – Falava o careca ao Barbudo.
- Eu também acho, Kerry, está falando demais pro meu gosto. – Replicava o barbudo.
-Bem, eu não quero confusão, se me deixarem apenas ir embora, eu vou agradecer, pois não quero machucar ninguém aqui. – Dizia Jack levantando-se lentamente ainda com as duas mãos erguidas.
Embora o sujeito seja tão alto quanto eles, os três se entreolham e dão uma longa risada.
- Você parece que não entendeu – rosna Garra – a pessoa que vai sair machucada aqui, é você!
Assim que acabou de falar, Garra se precipita em ataque na direção de Jack West. Em um movimento uniforme, ele tenta atingir Jack na altura do abdômen levando a ponta da garrafa em uma linha reta. Todavia, West em uma lépida e ágil técnica evasiva, se esquiva facilmente do golpe e segura o braço direito de Garra.
- Eu disse que não queria machucar ninguém! – Rosna West agora com os dentes trincados.
Em um curto instante de tempo, do ataque precipitado de Garra a defesa de Jack West, o ruivo quebra o braço do valentão deixando-o em um ângulo hediondo. Foi possível ouvir o estalo dos ossos se quebrando em 3 partes diferentes. O esgar foi inevitável na expressão de cada um ali que testemunhava aquela briga. Otto urrava um grito esganecido e implacável de dor. A mão que segurava a garrafa se abriu como uma aranha espatifada não tendo forças nem para segurar uma pena. Seu braço agora estava mais para um S do que um membro de seu corpo. As lágrimas desciam de seus olhos e toda a sustentação de sua perna se foi. Caiu de joelhos com a mão esquerda apalpando a arruinada parte de seu corpo como se ela pudesse curá-lo.
- Ahhhhhh! Meu braço, ele quebrou meu braço! – Gritava Otto.
Perplexo pela agilidade do oponente, Kerry, o careca, avançou sem confiança para atacar, porém, antes mesmo que pudesse erguer os punhos e efetuar um único soco, West num piscar de olhos, já estava a 5 centímetros dele e o careca da cicatriz levou um soco que parecia mais um atropelamento de carreta do que propriamente um soco. Voou uma distancia de mais ou menos 10 metros. Atravessou por cima do balcão e se chocou contra as prateleiras espelhadas quebrando inúmeras garrafas. O golpe lhe provocou um deslocamento de maxilar que Kerry tivera de alimentar a base de líquido por 6 meses tendo também de se comunicar a base de papel e caneta por quatro.
Tom, não estava mais confiante, não estava hesitante e tampouco estava com medo. Estava horrorizado. Diante dos olhos incrédulos das pessoas que ele sempre intimidou, não sabia se demonstrava uma dignidade e enfrentava o forasteiro, ou se preservava a sua integridade física e fugia como uma criança assustada. Olhou para trás e se assustou com a distância que o soco dele fizera com que um grandalhão como Kerry, fosse arremessado. Olhou para baixo e viu Otto completamente inutilizado com seu braço apontando em 4 direções diferentes. O tempo era curto e ele tinha que decidir logo; Jack West dava passos em sua direção. Todavia, havia uma saída, pelo menos ele julgou que fosse uma.  O barbudo Tom levou a mão para trás e de lá tirou um .38 que jazia sob a sua blusa, presa na altura do cóccix. Rapidamente, ele a apontou para Jack West com suas mãos trêmulas de indecisão e medo. Houve um pequeno alarido quando Tom sacou o revólver, por mais que o bar fosse barra pesada, jamais houvera um assassinato no local.
- Para trás! – Gritava Tom – Para trás ou eu juro que meto uma bala nessa sua cara!
Jack West ignorou os imperativos e continuou a avançar na direção de Tom que caminhava para trás. Tirou o óculos do rosto revelando seus olhos implacáveis, seus olhos assassinos num cruel verde rubi.
- Você é louco? Não vê que estou armado? – Dizia Tom com a voz mais trêmula do que uma garotinha.
- Se está armado, por que não atira? – Desafiava West.
Tom era um rato encurralado. Não tinha saída, se quisesse ter alguma chance de levar a melhor naquele embate teria de puxar o gatilho. E, como Jack West continuava avançando impiedosamente em sua direção com seus olhos desafiadores e cruéis, ele assim o fez.
Um estampido ecoou na Toca dos Ratos. A Maioria das testemunhas fecharam os olhos de imediato não querendo presenciar tal espetáculo dantesco. Porém, assim que abriram, viram o mesmo forasteiro de pé diante de Tom. Dessa vez, ele tinha o braço esquerdo erguido na altura do rosto com o punho fechado.
Será que Tom errou o tiro? Esse foi o questionamento que rondou a cabeça de todos ali presente. Contudo, quando Jack West desfez o punho cerrado, o projétil do .38 caiu de sua mão como um truque de mágica, fazendo um barulho metálico ao atingir o chão. A perplexidade foi tamanha.
- Q-Q-Q-Q- Quem é você? –Perguntou Tom com os olhos formando dois Os em sua face.
- Eu me chamo Jack West. – Respondeu o forasteiro antes de socar a enorme pança de Tom fazendo-o vomitar tudo que comera naquele dia. Há quem dissesse que vomitara a própria merda. O barbudo se viu perdendo todo o ar.  Foi como ser atingido por um meteoro incandescente bem na boca do estomago. Segundos após vomitar, tudo ficou baço em sua visão e ele caiu de cara na sua própria nojeira.
Jack olhou ao redor e pela primeira vez desde a inauguração da Toca dos Ratos em North City, o silêncio reinou. Salvo é claro, pelos gemidos agonizantes de Otto com seu braço completamente destruído. Ele foi ao balcão e perguntou quanto custara a cerveja. A garçonete que naquele momento não sabia nem qual era o número de seu sapato devido ao seu sumo estarrecimento, gaguejou tanto que fora impossível manter uma comunicação básica. West assentiu e deixou uma nota de 5.
- Pode ficar com o troco.
Tornou a por de volta os óculos de volta no rosto e saiu do bar para cumprir a sua missão.