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sexta-feira, 4 de março de 2011

O Primeiro Segredo ( de Ana )

O filho à frente; atrás, sua mãe. Desciam os dois pela escada de madeira que levava do mezanino até a sala de estar. O barulho dos pés estacando no chão, os rangidos sôfregos do pinho e o som cada vez mais fugidio das vozes a se afastar do seu aposento no segundo andar da casa eram seus olhos. Difícil não ter como ver; ainda mais difícil é fazer da diversidade infinita dos sons sua bússola. Foram anos aprimorando forçosamente os ouvidos de cego. São os melhores entre todos, com efeito, mas a custa de muita dor e desengano; os primeiros anos da cegueira são um florete enterrado na alma.

Estava de costas para a porta entreaberta de sua biblioteca agora inútil. Tão inútil quanto fedorenta e mofada. Ninguém mais lia seus livros. Ana, a mulher, não tinha o hábito; seus filhos, Érico e Manoel, tampouco. A cada dia que passava, sentia a vida microbiótica passear e fazer lar entre as páginas de sua vida. Estranhava os odores a cada dia mais incisivos, conquanto soubesse que, além da audição, todos os outros sentidos despertaram da letargia quando o pictórico morreu por detrás do glaucoma. Com o olfato passa o mesmo. O sujo fedia mais; o limpo ficara a cada dia mais odorífico.

Os livros que no passado viviam sendo folheados agora se resignavam, escorados pelos outros livros, escorando-os também; permaneciam como no dia em que o oftalmologista recomendou-lhe que cessasse a leitura . Cada um fazendo o peso necessário para igualar a força que vinha do peso dos outros livros justapostos. Não há nada mais aconchegante que uma biblioteca; não há nada mais meu que minha biblioteca. Passava as mãos sobre as obras; Vinha-lhe à mente que tudo que lera transformara-se na nuca lipídica e abaulada de seu tio Facundo ou numa rodovia feita só de quebra-molas; assim, acariciando os exemplares empilhados nas estantes e sem retirá-los de seus espaços exíguos, bolinando-os, apalpando-os, roçando a palma de sua mão direita nas capas, sentia como se encoxilhava a superfície dos enredos ali aprisionados. Doía-lhe que de tudo que pôde sorver das frases, períodos, parágrafos, epígrafes, preâmbulos, prólogos, epílogos e capítulos só lhe restara o exoesqueleto, a casca - Pelo menos ainda tenho mãos.

Costumava passar horas tentando rebocar da memória a textura dos invólucros, quais deles eram em alto relevo, quais erodiram quase por completo, quais amassaram; se naquela prateleira estavam os tomos de sua enciclopédia, se na outra os russos, acolá os modernistas. Se não podia inventar seu próprio braile quando dedilhava suavemente a revestidura, criava em sua mente um novo mapa em três dimensões, onde toda senda dava num livro. Se Madame Bovary virara o homem-barata, já não fazia diferença; quem se importaria com seus silogismos no breu; se esse é fino, deve ter cem páginas; se tem cem páginas e as mesmas esfarelam em minhas mãos, deve ser “O Relato de um Náufrago”. Uma página parcialmente rasgada, uma orelha, a textura das folhas traziam à baila estórias aleatoriamente, ensejando o batismo do objeto-livro, mesmo que dentro dele houvesse um romance distinto: quem se importa? Ninguém os lê nem sabe que os quero ler novamente. Quem há de entender que preciso conversar com meus livros outra vez? Preciso saber quem são eles, quem são seus vizinhos na estante, se se sentem bem com o bolor que não para de ficar mais impertinente às minhas narinas.

Pela janela do segundo andar, tudo é inteligível; ausculta tudo através do mínimo som que entra pelas orelhas; o mundo ganhara, além de um cego, um mexeriqueiro: já desceram as escadas; atravessaram a sala; agora, o quintal; Érico abre o portão e Ana o segue; Ana pede que Érico venha ver seu pai mais vezes, que demova Manoel da ideia de viver na Austrália; Érico está em silêncio; deve estar olhando para chão por sentir-se atalhado – se não, deve estar assentindo com a cabeça; Érico se afasta do portão da casa, contorna o carro e lhe abre a porta fechada; fecha-a novamente; pega alguma coisa no porta-luvas – logo, não contornou o carro coisíssima nenhuma -, fecha-o e dá a coisa a Ana; Ana parece choramingar e, num átimo, já não está mais a cobrar nada do filho; Érico caminha em torno do carro; Ana vai atrás e se debruça na janela do motorista; Ana diz a Érico que quer despedir a empregada, Tudo está um caos, sobretudo a biblioteca, Parece que ninguém quer mexer nela, meu filho, já é a terceira empregada, droga; Érico diz que está na hora de vender a tralha toda do velho, Ele não vai voltar a enxergar, mãe; Ana o admoesta, Seu pai agora escuta tudo, tome cuidado, Fale baixo, Você sabe muito bem que se ele souber que estamos pensando em vender seus livros ele enlouquece, Você estará longe na hora da confusão, eu que tenho que agüentá-lo; Érico diz que está bem, que se ele gosta tanto, que se explodam o cheiro de mofo e a zona, que se ficasse cego, também não quereria que vendessem seu carro, que entendia seu pai; Ana afastou-se do carro; Érico ligou o motor; a partir daí tudo virou um vórtice sonoro de metal, combustão e rudez; o carro movimentou-se e o som roufenho foi se amainando; quando o sinal fechou, Érico e seu carro viraram a esquina sumindo da vista de Ana, que desdobrou um papel, Deve ter sido isso que Érico lhe deu ; Ana fechou o portão vagarosamente e voltou a casa.

Ao adentrar a sala, sentou-se no sofá e ali ficou. Ligou o televisor, pôs o volume bem baixo e começou a tricotar. Uma hora se passara desde a saída de Érico. Subiu para ver como estava seu marido.

“Algum problema, Érico?”

“Não... Mas venha cá, meu amor”.

Ana, que havia entreaberto a porta da biblioteca, acabou por entrar e sentou-se à mesa junto a seu marido. Ele estava ereto na cadeira, como sempre; as mãos espalmadas sobre o escrínio; sob uma delas um texto escrito a lápis. Ana levantou a mão esquerda de Érico, puxou suavemente a folha de papel ofício rabiscada; Érico, impávido, não se opôs. A caligrafia de Érico ainda continuava bela e esguia, mas as linhas entrecortavam-se, confundindo a leitora.

“Eu preciso morrer para ver se consigo ler novamente. Se continuar sem ler, comerei meus livros pra ver se um ácaro, lá do meu estômago, me conta alguma estória da qual já esqueci”.

Ana sorriu indecisa depois de ter lido a confissão em silêncio; Érico também, depois que ela dobrou o papel e aspergiu das narinas o ar e o muco; assim sorria.

“Ana, sabe a parede da porta? Pegue algum livro na estante e leia alguma coisa pra mim”.

“Pego”, e depois de franzir a testar e titubear um pouco, foi até os livros e trouxe consigo um exemplar de uma coleção de três tomos.

“A Origem das Espécies. Não é um dos seus preferidos, não é? Lembro bem de você falando de Darwin quando ainda ia para a Igreja. Você parou de ir à Igreja, mas nunca acreditou que a gente viesse do macaco”.

“Darwin nunca disse isso, embora eu tenha certeza que ele quisesse. Só não conseguiu provar; morreu antes”.

Ana sorriu estridente. Chegou a olvidar o quanto a cegueira de seu Homem lhe irritava.

No primeiro folhear descuidado - aquele que só um não- leitor faz, como um menino que chuta uma bola pela primeira vez - um papel amarelado desprendeu-se do abraço das páginas e voou ao sabor do austro gelado que entrava pela janela aberta, caindo no chão. Ana olhou para Érico, e era como se ele tivesse programado aquilo; as mãos ainda estavam sobre sua mesa; a expressão, intacta. A cegueira não lhe impediu de sentir que sua mulher logo descobriria que havia planejado aquele momento. Tencionou explicar a situação, mas não pôde esquivar-se do desejo de saborear a reação da mulher, através de sua voz.

“O que é isso, Érico?”, e nada respondeu. “Será que alguém pôs algum bilhete, ou sei lá o quê, dentro de um dos livros que você vivia comprando no sebo?”.

Agachou-se; o bilhete voara até a parede da porta, sob uma das estantes; ajoelhou-se e esticou o braço direito para coletar o papelzinho. Enfim pegou-o.

“É um texto meu”, falou Érico, placidamente eufórico.

“Sério? Você nunca deu pra escrever... Bom, pelo menos você me disse”.

Ana, leitora enferrujada, começou a ler. As letras pequeninas lhe embaralhavam a compreensão mais que o texto de Érico. Não havia nada empolado ou prolixo. Era um relato de um dia vivido no longínquo ano de mil novecentos e oitenta e sete.

Assim que percebeu que sua mulher começara a leitura, Érico lhe pediu que lesse à voz alta. Ana assustou-se, pois se sentira, por toda a vida, tolhida da literatura pela a obsessão de ler do marido. Como contar a ele que achei o máximo os livros que leu e releu quando ainda não tinha cabelos brancos, quando ainda vivia a se divertir com os amiguinhos da escola, pensava, tola, pois Érico tornara-se paulatinamente mais misantropo enquanto via seus queridos afastando-se do seu legado, que era o quê e do quê tinha lido.

“Pensei que só eu havia amado esse dia”, disse Ana, olhando para a janela. “Quer dizer que você gostava mesmo dos meus primos de Minas, né? Que ironia! Jurava, contava pra todos, pra mamãe inclusive, que você se sentia mal na companhia deles. Por essa eu não esperava... Mas...”, e Ana, gargalhando, continuou, “eu me lembro; você sempre dizia o contrário. Lembra da briga que tivemos quando eu surtei ao ouvir de você, mais uma vez, que era besteira minha, que você gostava da capialzada?”

“Lembro-me bem”, respondeu Érico, petrificado,“mas eu sabia que era culpa minha, em parte. Quando voltamos de Minas, nós estávamos no carro, descendo a serra de Petrópolis, eu te disse que havia adorado seu primo Mourão. Nunca tinha visto uma pessoa tão da roça como ele. Pronto: você cismou que eu odiava as viagens, suas primas, andar pelo cafezal... até da sua mãe você achava que eu gostava menos quando viajamos juntos pra lá.”

“Você gostava mesmo, Érico?”, perguntou-lhe, com os olhos enternecidos.

“Eu adorava. Só costumava ficar quieto, pois pensava que todos já soubessem que os visitava a contragosto, ora. Você também não ficaria?”

Ana se calou. Um pouco envergonhada, desviou o olhar dos óculos escuros do marido; esquecera-se, como sempre esquecia, desde quando a cegueira ainda era deveras parcial, que Érico não lhe via, tampouco seu constrangimento. Há algum tempo vinha alimentando a teoria de Manoel. Seu filho mais novo cria que seu pai desenvolvera um sexto sentido; não entendia como um cego podia ser tão autômato e sagaz. Ficaram todos os de casa com medo das revelações e da sabedoria que nem Érico sabia que lhe atribuíam. Não havia sabedoria qualquer, somente os outros sentidos puderam libertar-se enfim do jugo da visão.

Sem precisar que lhe pedisse Érico, Ana pôs-se até a estante da janela que dava para o pátio interno da casa. Érico sentiu o ar em movimento expelido contra seu rosto, a despeito do vento que subitamente parara de soprar: Ana pusera-se de pé açodadamente na direção de algum livro que acabara de divisar, feito um furacão.

Não exatamente. Foi como uma corrida que se dá quando se chega à praia, quando só se deseja uma única meta, que é estar submerso na confluência onde se produz a espuma branca do litoral que assoma espremida pela areia pálida e o horizonte de azuis indefinidos: quem já desembestou numa correria infantil para cair de maneira cambaleante no mar sabe que não se delimita o pedacinho de água no qual se vá jogar o corpo; simplesmente se vai, com objetivo definido, mas sem alvo para mirar e acertar, como se a areia lhe empurrasse para que o mar decida onde se dará o banho. Não é o banhista quem delibera sobre onde saciará seu desejo de água salgada; nem as bandeiras vermelhas do Corpo de Bombeiros são capazes de deter a força motriz da areia e o canto-da-sereia do mar.

Como se um ímã indeciso a houvesse atraído, Ana trafegou sobre os tacos corridos e tomou para si um livro qualquer; não porque assim o quisesse, mas devido ao aparvalhado caminhar sem destinatário correto. Tonta, usou o livro espesso e pesado que acabara de retirar da estante como pêndulo; jogou-se na cadeira, assustada, como se sentisse a Terra claudicar em sua órbita sob seus pés.

“Mas, o que é isso?”, perguntou Érico, confuso, buscando na sua escuridão privada as mãos de sua mulher. ”O que foi, Ana, está sentindo bem?”

“Estou”, secamente. E estava de verdade. Mesmo que lhe faltasse direção àquele momento, Ana sentiu-se livre, como se toda a biblioteca fosse a cadeira da qual acabara de se levantar para nela sentar-se novamente, munida de um livro. Refestelada, logo se recompôs, faminta por outra surpresa de Érico.

“Veja”, e apontou a capa do livro que pegara a Érico, como se não houvesse mais cego no recinto, “esse você ganhou do Pacheco, se lembra? Aquele de lá da Cidade, do trabalho...”

“Claro”, exultou Érico, levantando as sobrancelhas como se fosse abrir os olhos, “são as crônicas de João do Rio. Ele sempre me dizia que trabalhávamos onde não deveria haver prédio nem escritório, só um morro cheio de gente pobre”.

“Sei... O Castelo”.

Novamente, um papel desprendeu-se das páginas emboloradas e flutuou docemente até o chão. A data: vinte e cinco de Novembro de mil novecentos de setenta e um.

“Sabe do que se trata este?”, perguntou Ana, lutando contra a súbita ideia que lhe aflorava: fora enganada por décadas, através de tirinhas de papel sórdidas. Condenou sumariamente seu marido de traição, por não carregar o opróbrio da vida dupla (tripla?quádrupla?) em seu coração. Nem a cegueira lhe atenuara o delito.

“Se soubesse, estaríamos nós aqui nesse jogo?”

E logo o ódio se transmutou em compaixão, e num pouco de langor. O velho frágil atrás de seus óculos escuros recuperara sua quintessência. Que marido seria capaz de produzir tanto sobressalto numa velha, pensou Ana, bendizendo a trama extemporânea guardada e enovelada pelo velho cego marido.

E não havia nada de impróprio; era só mais uma recordação; um dia na Quinta da Boa Vista com a mulher e o Júnior - ainda não havia Manoel. Uma mistura de alegria, saudosismo e enfadamento mutilou a singeleza do momento. Nem a confirmação – inócua, pois sabia que Érico amava a paternidade e o matrimônio – dos dias felizes da mocidade fora suficiente para suplantar a necessidade da surpresa fustigada pelo conteúdo do primeiro segredo; e se lesse então outra estória de família, já não lhe seria suficiente; sem perceber, seus piores pesadelos de mulher traída – jamais consignados – penetravam em seus pensamentos, escrevendo motes fantásticos em sua mente, num átimo, num espaço infinitesimal de tempo, ali, sentada, ao lado de um cego, como se já estivessem as tramas prontas, ou adormecidas. Saber do que jamais imaginara conhecer a respeito do cônjuge prosaico se lhe tornara precípuo.

No decorrer do dia, a tonteira não cedeu, nem a perscrutação dos livros, nem a exumação dos segredos – uns nem tão secretos assim; outros, segredos fátuos, como jamais imaginara ser da índole de quem lhes conservara inauditos; alguns, eróticos, lascivos, poligâmicos. Que força levara Érico a despir-se tão desmesuradamente, não se conhece. Mais imprevisível foi a reação faustosa de Ana frente a uma torrente de bilhetes, anotações e missivas; todos, ora punham-na à guisa de protagonista, ora transversalmente citavam-na. Digamos que para alguém que não gozou ou se locupletou dos doces defeitos dos personagens feericamente inescrupulosos dos romances, visto que não os leu jamais, sua reação jubilosa foi estranha: o primeiro romance lido por ela, em anos, ou pelo menos a sensação lúbrica da leitura, inundava-a, e através da sua própria vida: uma biografia não autorizada de Ana em pequenas doses de papéis escritos às pressas. Érico chegou a pensar, ao longo de vinte livros abertos e dezoito textos revelados, que o choque causado em Ana fora tão doloroso que o desespero manifestara-se feito uma zombaria, como se a Ana de sua adolescência, soterrada pela repetição dos rituais diários, pelo casamento, pelos filhos, pelas novelas da televisão, pela influência daninha e reacionária dos pais rompera as amarras do claustro mais inextricável de sua alma embrutecida, ressuscitando num corpo velho. Não que isso não causasse alegria em Érico, mas, quiçá pela ousadia de revelar parte de sua vida a quem, em tese, não deveria ter tomado nota de pensamentos tão pretéritos já numa idade avançada, quando a convivência massiva implica – ou assim o deveria, segundo o que se espera dos velhos casais - o fim dos segredos a dois, assustou-se.

Ao longo do terceiro dia de leituras, Érico enfastiou-se. Ana, menos, entretanto já estava tomada por outra premência; queria ler um livro. Nem sequer passava por sua cabeça contar a seu marido de seu desejo crescente. A vergonha de ceder a uma intenção antiga de Érico demoveu-a menos da ideia da confissão a qual ela inferira com razão ser uma fraude, um plágio grosseiro: Ana poria dentro de um dos livros de Érico um relato sobre seus três últimos surpreendentes dias.

Tão fácil quanto esconder de Érico que estava lendo um romance foi escolhê-lo. Fê-lo porque era fino. A primeira página foi de leitura digerível, quase prazerosa, o que se constou até o final do romance.

Érico manteve-se distante de tudo depois de ter sido deflorado através de seus textos outrora ignotos. Feliz, queria o silêncio. Outrossim, não pensava em regressar tão cedo àquele escrínio onde se lhe apresentaram milhares de personagens, centenas de estórias, ao longo de uma vida - contando com a última, a sua, a dos bilhetes.


Depois de anos sem ler um único romance, prestes a interromper sua guerra fria com os livros, Ana deixara Érico aos cuidados de Manoel. Este viera até a casa dos pais lhe contar sobre uma viagem que faria. Não era a Austrália o destino, e sim o Vietnã. Cego, dessa vez totalmente , da visão e dos outros sentidos que lhe restaram, pela ira de ver o filho partir sem motivo plausível senão o desejo de alienar-se de tudo, Érico pela última vez ralhou com o rapaz.

Ana saiu silenciosamente de casa, livro às mãos, sentou-se no banco da praça ao lado da Igreja Católica ( uma espécie de adro público ),no Jabour, onde morava desde o casamento. Sentada no banco do tabuleiro de damas, tentou escrever o que um dia, como lhe fizera o marido, jogaria na cara de Érico. Como uma bicicleta enferrujada que só anda até se partir a corrente, não saiu das primeiras linhas. A praça pululava de amigas, vizinhas e outros circunstantes. Estava sendo observada pelos que já a conheciam e que maquinalmente acharam estanho seu comportamento. Assustou-se, dobrou o papel em que escrevia e se levantou do banco. Pela última vez- pensara -, sentiu-se novamente velha, iletrada, subtraída. Queria ler e leu, em que pese o livro pueril, isso ela sabia. Já escrever, não pôde. Retornou a casa. Manoel já havia saído. Érico dormia refestelado no sofá. Subiu até seu quarto, sentou-se na cama e abriu a gaveta de seu criado-mudo. Sem saber se por inapetência somente ou por um sentimento que não podia defini-lo como ódio, argúcia ou benevolência, guardou ali mesmo, na gaveta atulhada de contas pagas, convites de festas de casamento e anotações desnecessárias o primeiro parágrafo do primeiro de tantos segredos que doravante seriam revelados e detonados feito uma bomba, no futuro.

Do fundo do receptáculo, o seu valhacouto, retirou outro papel, o que recebera de seu primogênito no dia que Érico lhe abriu as páginas de seus livros com tudo de secreto que lá havia. Dobrou-o, mais até do que acabara de fazer com seu primeiro segredo; dobrou-o uma, duas, três vezes, como se temesse que alguma palavra dali escorresse e fugisse do papel em direção a Érico, como uma namorada antiga e irrefreavelmente apaixonada, mesmo que já não lhe pudesse tocar com os olhos seu leitor-homem, devoto fidelíssimo e apaixonado do léxico por uma longa vida. Quando Érico despertou e lhe chamou da sala, Ana Pôs o papelzinho entre as páginas do livro que acabara de ler.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

[Trecho] A Guerra Santa

O MERCENÁRIO

1
Existe um bar na periferia de North City que apesar da pouca badalação em comparação as boates e aos pubs do centro e da região litorânea da cidade, é tão frequentando quanto. No entanto, por mais que o movimento no local perpetue até as mais altas horas da madrugada, seus frequentadores passam longe do glamour vivido pelos atores, atrizes, músicos, empresários, esportistas e políticos que contemplam aqueles ambientes com suas ilustres presenças. Seus fieis frequentadores em contrapartida, não passam de gângsteres, prostitutas, cafetões, viciados e pessoas em geral com uma miserável perspectiva de encher a cara de cerveja, dar umas tacadas de sinuca assim como uma foda com as namoradas e se tiverem tempo, arranjarem uma briga durante esse meio termo. O estabelecimento atende pelo simpático nome de TOCA DOS RATOS e o cheiro lá dentro não é os dos melhores. Uma mistura de cevada e nicotina. Isso para não mencionar os banheiros.
Um homem estava sentado em uma mesa completamente consumida pelo vandalismo dos frequentadores. Há 3 dias, tal mesa serviu como um escudo numa tentativa mal sucedida de esfaqueamento. O cidadão que ia ser apunhalado ergueu a mesa em defesa aparando o objeto pontudo que lhe penetraria no peito. O atacante no ato de tentar tirar a faca enterrada naquela madeira, perdeu segundos preciosos, dando assim a oportunidade do defensor contra golpear com uma garrafada bem no centro de sua cabeça fazendo-o cair desfalecido.  Havia vulgaridades entalhadas na mesa, algumas sem nexo, outras engraçadas que chegou a fazer o homem emitir um espectral sorriso no canto dos lábios. Vulgaridades como : ESCREVI, SAÍ CORRENDO, PAU NO CU DE QUEM TA LENDO.  XOXOTA É MUITO BOM.  BOCETA TINHA QUE NASCER EM ÁRVORES.  A garçonete chegou e deixou a cerveja que pedira sobre aquela superfície judiada e empoeirada. O homem agradeceu com um simples menear de cabeça. Seus cabelos eram rubros como o sangue e desgrenhados como o de um morador de rua. A barba quase alaranjada por fazer, percorria a extensão de seu rosto criando uma camada de pelos sobre sua tez. Uns óculos escuros de aros redondos escondiam seus olhos, embora o ambiente fosse mal iluminado, ele insistia em não tira-lo do rosto. Um cigarro pendia no canto de sua boca, havia algumas herpes naqueles lábios. Vestia uma descolada jaqueta de couro preta sobre uma blusa também preta com as iniciais J. W. estampada. Usava um jeans surrado que exibia seu joelho esquerdo, e uma grotesca bota de xerife do velho oeste cobria seus pés. Seu nome, JACK WEST.
Alheio às tacadas de sinuca e ao burburinho instaurado na Toca dos Ratos, Jack West observava com olhos vítreos um papel que acabara de tirar do bolso da jaqueta.  O conteúdo do papel era algo que lhe interessava, mais do que isso, era algo diferente de todos os trabalhos que já executara até então, algo que lhe dava uma ambígua sensação de temor e anseio. Indubitavelmente, a missão mais difícil de sua longa carreira de assassino.
- Snake, o grande manipulador das chamas, o homem que ao lado de Spider, o mestre dos raios, destruiu a cidade de Paladium.  – Ele balbucia.
Ele tira o cigarro da boca e amassa a guimba contra a própria mesa por falta de um cinzeiro. O papel tem outra folha anexada e West passa os olhos nos anexos sem muito interesse. 
Nesse curto período, surge no bar uma jovem de 17 anos munido de um belo par de pernas, vestida com um minúsculo short jeans que está mais para um cinto do que para um short propriamente. Sua bunda fica bem evidenciada naquelas vestes. Seu nome é Ju Felina, tem um longo cabelo preto de índia que vai a altura da cintura, seios medianos escondidos por um top branco e usa brincos de argolas. Seus lábios são grossos e lentes verdes ornam seus olhos lhe dando um certo charme.  Ju passa sob os olhares contidos de todos os homens ali presente. Seus saltos, estalam a cada passada. Ela caminha com um olhar imponente e o nariz empinado não ligando se está esbarrando nas mesas pela Toca dos Ratos e tampouco, esquentando se está pisando no pé de alguém. Esbarra na mesa cujo um homem ruivo ler um papel fazendo sua long neck oscilar naquela superfície. O ruivo apara a garrafa evitando-a que caia. Porém ela chama sua atenção e por alguns segundos, ele a observa com um olhar vagamente ardoroso com relação aquele traseiro. Porém, não demora em voltar a se concentrar em seu trabalho.
Otto Heidfelt, conhecido como O Garra, devido a uma enorme tatuagem de uma garra de tigre em suas costas, está diante do balcão e se irrita com o que acabou de ver. Ele fita o desconhecido sobre a mesa a 10 metros de distância e franze seu cenho num único sobrolho. Ju Felina chega perto dele e o beija calorosamente apertando suas unhas postiças contra o seu peito. Porém, mesmo beijando-a, seus olhos não deixam o desconhecido.
- O que foi Garra ? – Ela indaga.
- Aquele homem – ele aponta para West – aquele homem teve a coragem de olhar pra você diante da minha presença.
Ju dá um suspiro que denota.  Ah, outra vez isso. E contemporiza lamentando não ter entrado no bar como uma cidadã normal:
- Deixa isso pra lá, Garra, ele deve ser apenas um viajante perdido.
Otto aperta com forças as magras bochechas dela e a olha bem nos olhos com fúria.
- Escute aqui! Ninguém, olha pra mulher do Garra, entendeu bem? Ninguém!
Ju diz algo, porém sua voz sai indecifrável.
- O que está dizendo?  - Ele pergunta.
Ela se livra do rude aperto de Garra e repete.
- Está me machucando seu imbecil!
Garra estala os dedos e dois brutamontes que jogavam uma partida de sinuca se põem a disposição de imediato interrompendo a disputa.  Um careca alto com uma bizarra cicatriz em forma de X na testa e com inúmeras tatuagens nazistas pelos braços, junto de um corpulento homem com a barba ocupando boa parte do rosto, usando uma bandana do Sepultura, com uma barriga protuberante a alguns centímetros além do cinto da calça, se aproxima de Otto.
- O que foi Garra? – Perguntou o careca.
- Aquele sujeitinho ali perdeu a noção do perigo. – Limitou-se Otto.
- Aquele com o cabelo de fogo? – Apontou o barbudo.
Otto assente.
- Vamos lá ter uma palavrinha com ele. – Disse o barbudo estalando os dedos da mão direita contra a palma da esquerda.
- Garra, por favor. – Insistia Ju.
- Não se meta nisso, Ju. – Garra espalmou a mão para ela.
West acabara de dobrar o papel e por no bolso de sua jaqueta quando 3 sujeitos pararam diante de sua mesa.  Jack ergue os olhares para eles e reticente, saboreia o ultimo gole de sua cerveja. Os homens permanecem impassíveis e com caras de poucos amigos encarando-o. Com toda a serenidade do mundo, West pergunta:
- Algum problema, rapaziada?
- Está vendo aquela mulher ali parada em frente ao balcão? – Garra aponta para Ju – Ela é minha namorada.
- Meus parabéns – responde Jack – é uma bonita moça, apesar de ser um pouco nova pra você, não acha?
O sangue subiu a cabeça de Otto a ponto de apitar pelas orelhas como uma panela de pressão. Naquele instante, por mais que aquele forasteiro se curvasse aos seus pés e lambesse suas botas, não seria suficiente para escapar de uma boa surra. Com os dentes trincados, ele rosnava:
- Ninguém olha para ela, entendeu? E ninguém zomba da minha cara!
Jack West ergue as duas mãos até a altura dos ombros e com um dissimulado sorriso se desculpa:
- Ora, não me leve a mal, cavalheiro, eu não sabia que ela era sua namorada e eu não olhei para ela com olhos libidinosos. Olhei apenas por curiosidade. Vamos fazer o seguinte, eu pago uma cerveja para vocês e esse mal entendido acaba por aqui, o que me diz?
Otto hesita por um milésimo de segundo, contudo, pega a garrafa vazia sobre a mesa e a quebra na quina formando uma arma pontuda e perigosa. As conversas e as tacadas que aconteciam na Toca dos Ratos cessam de imediato. Todas as atenções estão voltadas para eles.
- Abaixa essa garrafa, cara, acha mesmo que tudo isso vale a pena a terminar assim? Por que simplesmente não aceita a minha cerveja? – Falava West.
- Acho que esse falastrão está a fim de perder a Língua, Tom. – Falava o careca ao Barbudo.
- Eu também acho, Kerry, está falando demais pro meu gosto. – Replicava o barbudo.
-Bem, eu não quero confusão, se me deixarem apenas ir embora, eu vou agradecer, pois não quero machucar ninguém aqui. – Dizia Jack levantando-se lentamente ainda com as duas mãos erguidas.
Embora o sujeito seja tão alto quanto eles, os três se entreolham e dão uma longa risada.
- Você parece que não entendeu – rosna Garra – a pessoa que vai sair machucada aqui, é você!
Assim que acabou de falar, Garra se precipita em ataque na direção de Jack West. Em um movimento uniforme, ele tenta atingir Jack na altura do abdômen levando a ponta da garrafa em uma linha reta. Todavia, West em uma lépida e ágil técnica evasiva, se esquiva facilmente do golpe e segura o braço direito de Garra.
- Eu disse que não queria machucar ninguém! – Rosna West agora com os dentes trincados.
Em um curto instante de tempo, do ataque precipitado de Garra a defesa de Jack West, o ruivo quebra o braço do valentão deixando-o em um ângulo hediondo. Foi possível ouvir o estalo dos ossos se quebrando em 3 partes diferentes. O esgar foi inevitável na expressão de cada um ali que testemunhava aquela briga. Otto urrava um grito esganecido e implacável de dor. A mão que segurava a garrafa se abriu como uma aranha espatifada não tendo forças nem para segurar uma pena. Seu braço agora estava mais para um S do que um membro de seu corpo. As lágrimas desciam de seus olhos e toda a sustentação de sua perna se foi. Caiu de joelhos com a mão esquerda apalpando a arruinada parte de seu corpo como se ela pudesse curá-lo.
- Ahhhhhh! Meu braço, ele quebrou meu braço! – Gritava Otto.
Perplexo pela agilidade do oponente, Kerry, o careca, avançou sem confiança para atacar, porém, antes mesmo que pudesse erguer os punhos e efetuar um único soco, West num piscar de olhos, já estava a 5 centímetros dele e o careca da cicatriz levou um soco que parecia mais um atropelamento de carreta do que propriamente um soco. Voou uma distancia de mais ou menos 10 metros. Atravessou por cima do balcão e se chocou contra as prateleiras espelhadas quebrando inúmeras garrafas. O golpe lhe provocou um deslocamento de maxilar que Kerry tivera de alimentar a base de líquido por 6 meses tendo também de se comunicar a base de papel e caneta por quatro.
Tom, não estava mais confiante, não estava hesitante e tampouco estava com medo. Estava horrorizado. Diante dos olhos incrédulos das pessoas que ele sempre intimidou, não sabia se demonstrava uma dignidade e enfrentava o forasteiro, ou se preservava a sua integridade física e fugia como uma criança assustada. Olhou para trás e se assustou com a distância que o soco dele fizera com que um grandalhão como Kerry, fosse arremessado. Olhou para baixo e viu Otto completamente inutilizado com seu braço apontando em 4 direções diferentes. O tempo era curto e ele tinha que decidir logo; Jack West dava passos em sua direção. Todavia, havia uma saída, pelo menos ele julgou que fosse uma.  O barbudo Tom levou a mão para trás e de lá tirou um .38 que jazia sob a sua blusa, presa na altura do cóccix. Rapidamente, ele a apontou para Jack West com suas mãos trêmulas de indecisão e medo. Houve um pequeno alarido quando Tom sacou o revólver, por mais que o bar fosse barra pesada, jamais houvera um assassinato no local.
- Para trás! – Gritava Tom – Para trás ou eu juro que meto uma bala nessa sua cara!
Jack West ignorou os imperativos e continuou a avançar na direção de Tom que caminhava para trás. Tirou o óculos do rosto revelando seus olhos implacáveis, seus olhos assassinos num cruel verde rubi.
- Você é louco? Não vê que estou armado? – Dizia Tom com a voz mais trêmula do que uma garotinha.
- Se está armado, por que não atira? – Desafiava West.
Tom era um rato encurralado. Não tinha saída, se quisesse ter alguma chance de levar a melhor naquele embate teria de puxar o gatilho. E, como Jack West continuava avançando impiedosamente em sua direção com seus olhos desafiadores e cruéis, ele assim o fez.
Um estampido ecoou na Toca dos Ratos. A Maioria das testemunhas fecharam os olhos de imediato não querendo presenciar tal espetáculo dantesco. Porém, assim que abriram, viram o mesmo forasteiro de pé diante de Tom. Dessa vez, ele tinha o braço esquerdo erguido na altura do rosto com o punho fechado.
Será que Tom errou o tiro? Esse foi o questionamento que rondou a cabeça de todos ali presente. Contudo, quando Jack West desfez o punho cerrado, o projétil do .38 caiu de sua mão como um truque de mágica, fazendo um barulho metálico ao atingir o chão. A perplexidade foi tamanha.
- Q-Q-Q-Q- Quem é você? –Perguntou Tom com os olhos formando dois Os em sua face.
- Eu me chamo Jack West. – Respondeu o forasteiro antes de socar a enorme pança de Tom fazendo-o vomitar tudo que comera naquele dia. Há quem dissesse que vomitara a própria merda. O barbudo se viu perdendo todo o ar.  Foi como ser atingido por um meteoro incandescente bem na boca do estomago. Segundos após vomitar, tudo ficou baço em sua visão e ele caiu de cara na sua própria nojeira.
Jack olhou ao redor e pela primeira vez desde a inauguração da Toca dos Ratos em North City, o silêncio reinou. Salvo é claro, pelos gemidos agonizantes de Otto com seu braço completamente destruído. Ele foi ao balcão e perguntou quanto custara a cerveja. A garçonete que naquele momento não sabia nem qual era o número de seu sapato devido ao seu sumo estarrecimento, gaguejou tanto que fora impossível manter uma comunicação básica. West assentiu e deixou uma nota de 5.
- Pode ficar com o troco.
Tornou a por de volta os óculos de volta no rosto e saiu do bar para cumprir a sua missão.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Martim

Dez anos trabalhando na mesma seção com meu velho amigo. Era mesmo meu camarada. Levei-o para jogar na minha pelada; a pelada dos meus amigos de infância e da escola. Passamos, juntos, duas viradas de ano com minha mulher e filhos, na casa onde vivi os meus melhores dias, onde construí meu lar e eduquei minhas crianças.

No quinto mês desde o nosso encontro – uma amizade quase instantânea -, me lembro, chamei-o para a praia. Não tinha família no Rio e isso me entristeceu. Falei com Marta. Ela também ficou triste. Disse-me para que o levasse conosco para um programa de família; queria conhecer aquele rapaz quase trintão de quem tanto lhe falara. Passamos em seu apartamento em Bangu e lá o apanhamos; conversava com as crianças e logo ficaram amigos. Na praia, construiu um castelinho; havia uma princesa presa numa masmorra fria, escura e úmida. Assim começou com a história e meus filhos ficaram enlevados; Martim seguia narrando a fábula, enchendo-a de personagens; havia ogros, um rei tirano, uma corte ressentida de não ver mais sua princesa, uma feira muito movimentada, uma bruxa e um príncipe arguto e ambicioso.

Marta me olhou e sorriu discretamente; não queria interromper o divertimento das crianças. Espantara-nos a destreza com que conduzia o conto e como o fazia com firmeza. As crianças interferiam; quando queriam mais um personagem ou mesmo quando não lhes agradava o papel para cada um deles criado por Martim, ele mudava o rumo dos fatos. Sem render-se ao locupletamento dos meus meninos, fez com que tudo seguisse verossímil até o final: o ogro traíra o príncipe, domara todo o povo e fizera da princesa seu mártir, mantendo-a presa na masmorra ao dizer a todo povo que ficara louca de tanto sofrer nas mãos do seu pai déspota que fora assassinado por seu filho, antes de ser destronado pela tramoia do ogro cinzento e desbotado, pelo qual tomaram partido, lá pelo meio da história, meus filhos.

Marta o interpelou, “Mas que final horrendo, Martim!”, mirando-o por cima de seus óculos de Sol.

“Ah, mãe”, disse Pedro, tremendo de excitação por ter colaborado diretamente com o prognatismo do príncipe que era belo e róseo no início,“ você não vê aqueles filmes de terror com o meu pai?”.

Marta balançou a cabeça como quem concorda a contragosto com uma criança que tem razão. E Pedro a tinha. Adorávamos os filmes de terror – ou melhor, os de suspense. Passávamos horas vendo a coleção do Hitchcock que ganháramos de presente de casamento de um velho amigo. Assim que descobrimos que um VHS poderia ser convertido para o DVD, gastamos uma grana violenta com um moleque de dezoito anos viciado em computador que se aproveitara da demanda gigantesca engendrada pelos cinéfilos órfãos do videocassete.

Martim disse que a arte, principalmente a literatura, não moldava os caracteres dos jovens, que se assim fosse os pais deveriam tapar os ouvidos das crianças toda vez que o padre proferia seu sermão, ou desligar o televisor quando percebessem a afeição magnética das crianças pelos vilões das novelas.

“O senso de justiça das crianças é até maior que o nosso. Vê o exemplo do castelinho de areia e do reino despótico do deserto do Grumari:” - foi o nome que deu ao feudo erguido à sombra daquele guarda-sol – “O Rei não era boa pessoa, mas, como era Rei, você não falaria nada se ele subjugasse o ogro e seu filho traidor. O ogro só trocou um mal por outro, e ninguém garante que ele, daqui pra frente, mesmo que tenho mentido e vilipendiado o príncipe, não seja um monarca austero. Na História, há centenas de casos de Chefes de Estado assassinos que fizeram muito pelo seu povo. Na verdade, o povo quase nunca assume a sua responsabilidade; aquela estória de cidadania...”

“Claro. Eu, por exemplo, nem lembro em quem votei pra vereador, e isso só tem uns seis meses. Mas não precisa ser tão dramático; só falei que o fim foi terrível, e não foi?

Fiquei com medo de a tarde terminar mal, mas quando vi a Marta dando corda na conversa, tranquilizei-me. Era assim que demonstrava afeto. Antes de namorá-la, discutíamos sobre tudo e todos; quase nunca concordávamos e, segundo ela, apaixonou-se por mim justamente quando a chamei de burra por não concordar comigo acerca a Guerra dos Bálcãs. Ela disse que percebera em mim alguém para discutir fervorosamente até a velhice.

“Não achei terrível.”

“Nem eu”, disse Soninha, minha filha mais nova, que decidira pela continuidade do cárcere da princesa.

Sorri. Fiz questão de olhar para Marta nessa hora, enquanto eu passava protetor solar nas crianças. Ela segurou o sorriso com dificuldade. Martim nada percebeu.

“Eu sempre gostei das crianças, apesar de não ter filhos.”

Todos ficaram em silêncio. Só o barulho das ondas que resfolegavam as partículas de água no céu azul.

“As crianças – Martim quebrando o silêncio – possuem ética, nós não. O que nós fazemos é polir as palavras e deixar bem claro para o mundo todo o que nos incomoda; aquilo que não queremos que seja feito conosco. O problema é que os adultos fazem com os outros justamente aquilo que os incomoda.”

“Tá legal, Martim, o que você diz, então, daquelas crianças que desde novas são líderes? Elas são fortes de espírito, tenazes e fazem das outras crianças da mesma idade gato e sapato. Na última reunião de pais, a Tia Márcia, professora da Soninha, disse que ela brincava só do que queria, que, além disso, todas as outras crianças do seu círculo de amiguinhas faziam só o que ela ordenava”.

Soninha estava olhando o mar enquanto passava-lhe o creme protetor nas costas. Fingiu que não falavam dela.

“Ela faz isso porque é dela. Pior será se não continuar fazendo depois de velha. Ninguém ensinou isso pra ela. Nessa idade se aprende a escovar os dentes, escrever, pintar, pique-esconde, mas não isso. O que a professora não lhe disse foi se as outras crianças estavam felizes brincando com a Soninha”. A menina virou para Martim e sorriu abertamente. “Bom, pela cara dela ninguém ficou triste, não é verdade, Soninha?”

“Não”, lacônica.

“Marta, desde cedo, as crianças já mostram o que são, e todas se respeitam mutuamente. O problema é que o tímido escolhe ser advogado; o forte vira polícia; o encostado, professor; o feio quer ser ator e o triste vira empreendedor.

“Como assim? – perguntei enquanto me levantava para levar as crianças até a água.

“Como os pais, os professores, os psicólogos e todos os outros são, na maioria das vezes, aquilo que não nasceram para exercer, eles acham normal que os pequenos sigam qualquer caminho profissional, como se isso não representasse a frustração eterna. Isso é tão forte na nossa sociedade que nos desacostumamos a ver aquilo que é tão óbvio. Ninguém vê isso nas crianças; muito pelo contrário, antes dos filhos nascerem, já queremos que eles sejam médicos, advogados... É triste.”

Marta e eu nos fitamos novamente. Um vento frio veio do mar. Levei as crianças para um último banho e fomos embora.


Transcorreram-se os anos após aquele primeiro dia em família. Martim logo afamilhara-se, não antes de contar a sua origem; como fora parar em Campo Grande vindo do interior do Estado. Não tinha Pai nem mãe, só uma tia que vivia num asilo em Angra dos Reis. Não era próximo dela. Era uma estranha, dizia.

As crianças cresceram. Martim e elas tornaram-se amicíssimos. Soninha ainda estava na escola e Pedro, no primeiro semestre da faculdade. Martim tornara-se o melhor tio, o mais amigo. Era duro quando tinha que ser. Jamais se metera nas minhas ordens ou admoestações, tampouco nas de Marta. Diferente dos meus irmãos que davam de ombros para tudo aquilo que não fosse relativo aos seus filhos, Martim tinha tempo de sobra para as crianças. Com Pedro, ia aos shows de rock. Comprou-lhe uma guitarra quando passou para o ensino médio. Matriculou-o numa aula de música. A verdade é que isso mudou a vida do meu filho. Ele se tornou mais compenetrado e culto, sem ficar esnobe. A cumplicidade entre os dois era latente. Em certos momentos me batia um ciúme, mas Marta logo ria de mim quando lhe confessava esse sentimento tolo. Não era algo que me fazia mal, tampouco, ao contrário. Gostava do meu filho, que gostava de mim – e muito, eu podia sentir – e gostava de Martim com um amigo; o melhor que ele tinha.

Soninha tornou-se uma menina linda. Era forte, tinha os olhos redondos e convexos e a boca pequena como se tudo fosse de moça em seu corpo, menos os lábios. Era decidida, justa e amiga de muitas pessoas. Tinha uma coisa que eu adorava nela desde as primeiras manifestações do seu caráter : sempre escolhia os enjeitados da escola para levá-los a nossa casa. A amizade de Soninha significava muito para seus queridos e o apreço dos outros por ela era cultivado; gostava de estar com que lhe queria bem. Dura quando devia ser – não gostava de mentiras – e afável na medida certa. Com quinze anos tornara-se o porto-seguro de muita gente, inclusive da mãe.

A minha relação com Martim fortalecera-se a tal ponto que ele se tornara meu melhor amigo. Meus amigos também se tornaram amigos dele. Onde eu estivesse, também estava Martim. Se chegasse sem ele à casa de minha mãe ou no Maracanã, as pessoas perguntavam-me por ele, como se vivesse comigo debaixo do mesmo teto. E não era exagero dizê-lo. Martim adentrava minha casa à hora que queria e a deixava também quando lhe convinha. Marta o adotara como um irmão. Viviam conversando sobre tudo. Por vezes, chegava a casa e os dois estavam em guerra discutindo sobre quem era melhor: John ou Paul; quem acabou com os Beatles, Linda ou Yoko; se ainda existia esquerda no Brasil; se havia efeito estufa ou não.

Ela adorava debater infrutuosamente e ele também. Eu passei a gostar cada vez menos disso. Como Marta não mudara nada desde aquele dia em que se enamorou por mim, minha taciturnidade crescente foi nos afastando, mas em momento algum me sentia pressionado a falar mais. Martim fazia as minhas vezes – e com maior habilidade, isso é irrefutável.

Não sentia ciúmes, juro. Meu amigo cuidava das preliminares e eu fechava noite. Parece estranho, mas Martim percebia com facilidade quando deveria se retirar mais cedo. Nunca cheguei a conversar com ele sobre o tema, nem com minha mulher, mas certos assuntos deixavam-na excitada; ela os puxava com Martim como fazia comigo. Algumas taças de vinho a mais e Marta sentava-se no meu colo enquanto falava de Kafka e Tolstoi com nosso amigo. Defendia hirtamente seus pontos de vista para depois beijar o meu pescoço de leve; parecia olhar para Martim nessas horas. Antes que aqueles colóquios começassem a remeter a uma suruba mais do que a um reles bate-papo, ele saía e nós transávamos; àquela altura do casamento, nossas melhores transas sempre decorriam de longas noites de conversa-fora com Martim.


Tudo começou a mudar quando seu primo apareceu em Campo Grande procurando por per ele. Ao entrar no prédio da Secretaria da Receita Federal, o homem moreno e alto, depois de passar pelos seguranças, dizendo-se parente de Martim Delgado, adentrou nossa sala. Ao vê-lo, Martim descompôs-se; Cláudio e Beto, que trabalhavam conosco, nada perceberam. Eu conhecia bem meu amigo; aquele silêncio gélido não combinava com ele, tampouco a impessoalidade com que recebera a visita, depois de tantos anos, de um parente que, pelo menos para mim, a quem foi dito que só restara uma tia na vida, não existia.

Sorri para o homem, mas só porque pensei que Martim sorrira assim que o sujeito identificara-se (“Martim Fonseca Delgado?”, leu de um pedaço de papel amassado que levava à mão). Martim levantou-se e tirou-o para conversar no corredor. Alguns minutos se passaram e não consegui controlar minha curiosidade – não era bem isso: foi uma mistura de excitação e preocupação, senti um mau augúrio mais do que vontade de xeretar a vida alheia.

Passei pelo corredor como quem vai pedir uma garrafa de café fresco na cozinha. Martim sequer me olhou, ao oposto do primo vindouro. Parecia querer- me contar algo, como se me conhecesse e soubesse da amizade que Martim e eu devotávamos um ao outro. Fui até outra seção; enrolei para não dar na telha; puxei papo com a senhora do RH. Quando retornei a minha sala, Martim estava suando e seu primo havia sumido.

“Martim, onde está seu primo?”

“Foi embora. Nem sei se é meu primo. Nunca vi a figura. Veio me pedir dinheiro. Com certeza é algum espertalhão de Angra que ficou sabendo que minha tia tinha um sobrinho que vivia no Rio há muito tempo.”

“Mas ele sabia seu nome”, dei sequência à conversa, conquanto estivesse nítido que meu amigo não queria remoer o assunto.

“É, mas e daí? Se ele não soubesse de nada, como viria até aqui no Rio para me extorquir?”

“Era isso que ele queria?”

“Sei lá, Juca!”, gritando, como o vira fazer em pouquíssimas oportunidades - pensando bem, Martim jamais gritara antes . “Um cara desses, molambento que só, parecendo um fantasma, chamando o primo querido pelo nome completo só pode querer o quê?

Verdade. Algum proveito ele queria tirar.

E eu queria saber da verdade. Martim já dera infinitas provas de seu carinho pela minha família. Eu não desconfiava de nada daquilo que contara há anos atrás. Meu amigo tinha uma vida ilibada, e ponto final! Eu sentira uma curiosidade hercúlea, e só. Mas isso não é pouco.


No fim de semana, sem contar a Martim, fui a Angra dos Reis com Marta. Pedro ficou no alojamento da UFRJ e Soninha com sua madrinha no Recreio dos Bandeirantes, para ir à praia e a um show que haveria no Via Parque.

Quando cheguei do trabalho no dia da visita do falso primo, contei tudo que ocorrera a Marta. Ela achou tudo muito estranho; ao contrário de mim, ainda nutria algumas desconfianças em relação ao passado de Martim, mas achava que era algo bobo, que, se não queria contar-nos nada, era para não nos aborrecer com reminiscências enfadonhas. Mesmo assim, repreendeu-me duramente por meu comportamento. Logo você que vive falando mal da minha irmã e de suas fofocas, me disse. Senti-me mal depois disso. Marta tinha razão, e um remorso timidamente lúgubre me acometeu, além de não aguentar ver na minha mulher a figura materna, ralhando comigo; cortava-me o tesão cada vez mais difícil de fazê-lo emergir até minha pele e membro. Já transava com a mesma mulher havia quase duas décadas.


Chegamos à noite. Odiava viajar depois do crepúsculo, mas era necessário. Marta chegaria cansada e, com sono, dormiria feito uma pedra. E assim foi. Banhamo-nos e rapidamente Marta adormeceu. Não era o seu feitio acordar no meio da noite, ainda mais depois de uma longa sexta-feira de trabalho seguida de uma viagem longa, silenciosa, sinuosa e às escuras. Quando adormeceu, já no hotel, tentou me agarrar pelo pescoço, como um zumbi. Pedia para comê-la, mas assim fazia sempre quando estava prestas e dormir. Além disso, dizia para que ficasse no quarto, que não a deixasse só naquela cidade. Nem uma cervejinha, disse; está cheio de boteco nessa cidade. Isso dera para perceber, mesmo à noite.

Saí. Não tinha referência, somente “Martim Fonseca Delgado”. Inventara uma viagem romântica só para saciar minha curiosidade. Talvez não somente isso, mas era o que pensara desde o momento que a sudorese desmesurada descascou o escudo do meu amigo naquele escritório. Parei num restaurante e pedi uma água tônica. Perguntei ao garçom se era da cidade. Sim, era. Não sabia nada sobre Martim, tampouco da sua tia e primo. Pedi-lhe que averiguasse com seus colegas e nada. Disse-lhe que era amigo de Martim; ninguém o conhecia. Pedi-lhe a conta e fui até a rua que fica à beira-mar e deparei-me com uma aglomeração. Um barco acabara de voltar do mar com muitos peixes frescos e lulas. Esperei o furdunço dissipar-se e fui até os pescadores. Eram quatro; três adultos jovens e uma criança. Perguntei sobre Martim e sua tia. Nada. Entretanto, disseram-me para ir ao bar do Seu Eriberto, que ficava perto do hotel onde me hospedara. Lá estavam os mais velhos e cachaceiros moradores da cidade. Se o que procurava estava vivo, ali seria o melhor lugar para coletar informações. Para agradecê-los, levei um robalo. Fritá-lo-ia para minha mulher no dia seguinte.

No bar, logo vi que se tratava de uma chafurda. Não pelas mesas e cachaças dispostas nas estantes de madeira velha, mas pela clientela. O fedor não era somente do queijo curtido ou da sujeira dos banheiros. A falta de asseio dos borrachos impregnava o ar; o barulho era lancinante; cada qual tentava falar mais alto que o outro para se fazer escutar em meio a tantos bêbados. No balcão, um sujeito alto e espadaúdo conversava com o balconista. Interpelei-os.

“Com licença.”

“Como?”

“Com licença.”

“Fala alto, porra!

“Meu nome é João Carlos e estou procurando alguém da família Delgado ou Fonseca?

O grandalhão não escutou, mas o vendedor, sim.

“Vem até aqui do outro lado”, e me levou até a parte interna do balcão, de onde tirou uma chave como daquelas com que se abrem portas velhas. Subimos as escadas até dar de cara com uma porta. Estava escuro. Com dificuldade, abriu a fechadura e demos com um alpendre velho e empoeirado. A luz dos postes preenchia parte do lugar com halo forte. O homem puxou duas cadeiras de ferro enferrujado escrito “Brahma” no espaldar.

“Eu sabia que iria chegar esse dia”, disse o homem, para depois sorrir.

“Dia de quê, Senhor?”

“O dia que alguém viria desenterrar o velho Martim”

Senti meus intestinos rodopiarem. Arrependi-me de pronto. Pedi desculpas ao meu amigo Martim em silêncio, enquanto me preparava para levantar. O vendedor não me deixou e segurou-me pelo braço com força.

“Meu nome é Oswaldo, muito prazer. E o Senhor?

“João Carlos”

“Deve então ser Joca, Juca...”

“Juca”, disse-lhe, já me levantando aparvalhadamente, mas fui novamente compelido a ficar sentado por aqueles braços fortes.

“Se perguntou, é porque quer saber, então vou direto ao assunto para não perder seu tempo. Martim era diretor da Escola Municipal... Escola Municipal... Ah, deixa! Esqueci a porra do nome, é mole? haha. Bom, ele era diretor. Até aí tudo bem, tirando o fato de ser muito novo. Havia acabado de entrar no magistério e virou diretor. Alguma ele armou... Se armou! Eu não o conhecia bem antes de trabalhar com ele. Fui servente naquela época. Era uma merda de ofício, mas só tinha isso pra fazer. Angra não era o que é hoje. Quem não trabalhava para a prefeitura não trabalhava, entende?”

Coçou o queixo durante uma pequena pausa. Já não queria ouvir mais nada; ou melhor, não queria saber da verdade; mas, ouvir? Como queria!

“Tudo ia bem, até que um pai de uma aluna lá disse que o Martim havia acobertado um professor que passava a rola nas meninas. Uma semana depois, outro pai disse que o Martim não acobertava nada, que era ele mesmo que comia as crianças. Eu gostei daquilo. Adorei! Veio até TV na época pra cá. O pior veio depois: todo homem que trabalhava na escola passou a ser taxado de estuprador; e nessas horas, o povo acha mais fácil que um servente de merda passe a rola num menininho que um professor. De repente, estava trabalhando na Sodoma da Costa Verde. Todos me olhavam de canto. Todo mundo que trabalhou naquela escola ficou marcado. Mas isso já faz tempo, Seu Juca.”

Essa estória é absurda, pensei.

“No final das contas, não deu porra nenhuma pra ninguém. O Martim foi embora daqui e nunca mais voltou. Ele tem uma Tia chamada Maria do Amparo. Vive de amasso com um pescador chamado Luis Bumba.”

“E como ele é?”

“Alto. Tem a pele feito cobre, de tanto Sol que pega. Todo pescador é assim.”

Dei uns trocados ao homem. Ele aceitou dizendo que aquele papo o fizera perder alguns clientes. Sorriu e eu também, mas de nervoso que estava. Não sei se por agitação ou por não querer mais saber da verdade, esqueci de perguntá-lo sobre a tia e o primo, onde moravam, como achá-los.

Voltei ao quarto do hotel. Deitei de dorso para Marta, que me abraçou.

No dia seguinte, pagamos uma escuna que nos levou a várias ilhas paradisíacas. Tudo parecia virgem como nos primeiros dias da Terra e assim me senti, puro, com Marta. As lembranças da noite anterior foram se apagando a cada maravilha que surgia naquela baía suntuosa. O desejo profícuo de Marta ao viajar comigo passou a ser o meu também; beijávamo-nos como adolescentes, causando certa ojeriza aos os outros que embarcaram conosco no píer; as crianças sorriam e olhavam estupefatas para os pais. Éramos quase velhos, pensaram.

No hotel novamente. Dormi. Decerto, pus-me a dormir forçosamente, como quem não quer romoer maus pansamentos e produzir estórias mirabolantes e perfidiosas rolando no colchão. No entanto, sabia que se deitasse na cama dormiria com relativa celeridade, mesmo que uma parte minha quisesse elucubrar. O dia fora cansativo, mas belo e chistoso. Não queria vasculhar o passado do meu amigo de longa data, não depois daquele mar turquesa, ladeado por ilhas olivas e nuvens argentas nas arestas e cobalto no centro. Tudo ornando Marta, perfumando-a.


Nunca contei a Marta das minhas descobertas; a Martim, nem que fomos a Angra. Parece que nem Marta o informou da viagem. Se ficou sabendo, não comentou nada comigo. Nas semanas posteriores, a rotina me fizera quase nunca rememorar aquele bar fedorento; Ao inverso, contava a todos os amigos e parentes das ilhas e dos casarões incrustados nelas. Tive sucesso com o robalo que preparei artesanalmente no quarto do hotel, quando ficamos da sacada do hotel abraçados aproveitando o maral que vinha da enseada forrada pelo plenilúnio.

É difícil dizer quando a parte ignominiosa daquele fim de semana começou a me atormentar. O primeiro sintoma, o esquecimento; claro, que o dos momentos jubilosos ao lado da minha mulher; se não estivesse aqui escrevendo e recontando os fatos, não sei onde estariam enterrados na minha memória prodigiosamente seletiva o peixe frito e a lua cheia; e a Marta daquela viagem também se esvaíra completamente da minha mente.

Um leviatã ciumento e asqueroso apoderara-se de mim. Martim começara a roubar meus instantes preciosos de pai zeloso e de marido ora boquirroto, ora parceiro de minha mulher - como um côjuge sempre o é. O ônus da convivência diária começara a entornar-se todo de uma vez sobre minha cabeça; já Martim esquivava-se como toda visita alvissareira faz, assim que sua companhia latente começa aborrece os anfitriões. A concorrência tornara-se desleal. Sentia-me acuado, desrespeitado. Quis voltar aos tempos de parlatórios com Marta e ela não se interessava mais; desaprendeu a ter comigo, ao passo que com Martim seguia falando de tudo; tinham cada vez mais e acerca de tópicos cada vez mais estranhos a mim. Isso me intrigava, já que, no ambiente de trabalho, Martim não revelava qualquer interesse ou mesmo que soubesse de algo do que danava a falar em minha sala de estar com minha mulher. Era como se guardasse tudo para ela. Um ciúme dúplice traspassava-me; perdia amigo e mulher à medida que ambos se sintonizavam mais; sentia vontade de matar Martim e o invejava por ter de Marta o que me escorria das mãos. Já percebia que cruzavam olhares lânguidos. Será que isso teve início agora? Há quanto tempo tramavam às minhas costas?

Passei a patrulhar a vida de Martim. Pensei em um detetive, mas os dois que contatei eram rudes, pareciam ter saído dos filmes policiais da Tela Quente. Aqueles clichês, o cigarro, o bloquinho de notas... Passei a odiar aquela raça rapineira. Um amigo policial – um dos poucos que não tinham também a Martim na conta dos colegas – ofereceu o serviço de um larápio que lhe devia um favor, mas que, segundo ele, sabia das coisas; se houvesse traição, logo descobriria. Em uma semana e meia seguindo-o, o detetive disse a meu amigo que Martim ia da casa para o trabalho e só; só estivera com Marta quando reunimos toda a família para comemorar o aniversário de Pedro. Agradeci ao PM amigo e lhe pedi que guardasse esse segredo e que se esquecesse, se possível, que lhe pedira favor tão sórdido. Ele entendeu; também já havia recorrido à persecução de um terceiro para desbaratar a traição da mulher. Quando quis saber o desfecho do episódio, desligou o telefone celular. Nunca mais lhe liguei ou falei com ele.

Meu ódio foi me consumindo mais e mais à medida que aprendia cada vez melhor a encortinar meus sentimentos.Entrementes, um ator temporão nascera em mim. A conveniência faz o ladrão, pensei. Não haveria nada que não pudesse aprender ou utilizar de expediente para tirar a limpo o que se escondia por detrás dos perfidiosos amantes... Amantes, isso que se tornaram.

Aos poucos fui juntando os cacos. Uma conspiração maliciosa e fria sustentara esse triângulo afetuoso até aqui. Por que Marta sequer quis tomar nota das informações que colhi sobre Martim quando fomos a Angra? Ela sabia que saíra para vasculhar a vida de Martim, ou será que essa que me traiu debaixo do meu nariz durante anos pensava mesmo que iria arrumar uma viagem cálida e repentina ao mar? Nunca fora dessas coisas. Mais do que ninguém, Marta podia ler na minha mudança de hábitos que eu fora atrás da verdade. Ela estava acordada quando cheguei da rua. Eu fingi que não percebi quando me abraçou. Como sabia que estava ali, a partir daquele momento? E ela, com desfaçatez, me envolveu num gesto peristáltico, típico de casal, daqueles que, mesmo dormindo, não se deixa de fazer.

Marta e Martim me traem. Como se somente isso não bastasse para matá-los, humilhá-los; roubaram-me o afeto dos meus filhos; lenta e premeditadamente, jogaram-me para longe da vida deles; Se não fosse o costume, nem teriam de recorrer a mim para coisas básicas, como um beijo, um “parabéns, pai, pelo seu aniversário”, um conselho ou a mesada. Tudo o que se tornara minha vida já poderia ser feito sem minha aquiescência. Até as fodas da minha mulher.

Marta e Martim...

Amanhã é Sábado. Vou até Angra novamente.