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sábado, 28 de agosto de 2010

O gato Siamês


1
Maxiliano Gonçalves abriu as cortinas de cetim e em seguida as janelas de seu quarto. A agradável brisa da manhã soprou eriçando seus ralos cabelos grisalhos e o sol da aurora deram evidências deveras as suas rugas. O velho debruçou-se sobre o peitoril da janela e contemplou a virgindade daquele sábado imaculado com os pássaros cantantes, o céu de anil com pouquíssimas nuvens e um baço espectro da lua. Sobre a mesinha de uma gaveta, ao lado da cama, um copo d’água junto a um envelope com um comprimido dentro, sob o copo, um bilhete.
Maxiliano sorriu ao ler o bilhete, de seus 3 filhos, a caçula Laura Gonçalves era a mais apegada a ele e a mais querida. Enfiou o comprimido na boca e tomou dois longos goles da água morna fazendo seu pomo-de-adão mover-se para cima e para baixo. O velho havia passado por uma ponte de safena havia 2 meses, o remédio lhe fora recomendado a fim de afinar o seu sangue.
Quarenta minutos mais tarde, o velho sentiu um mal súbito e caiu morto na cozinha de casa.
Maria das Graças, a empregada, o encontrou caído perante a geladeira entreaberta. Estava pálido e com os olhos arregalados lhe dando um aspecto hediondo. Um filete de saliva havia secado no canto de seus lábios formando uma diminuta espuma, suas calças estavam manchadas pela urina, os gelados dedos da morte o tocaram de vez. A empregada berrou em desespero. Seu patrão, Maxiliano Gonçalves, viúvo, 57 anos, falecera.
2
O domingo fora a antítese daquele sábado, o céu era nebuloso, o vento era gélido, os piares dos pássaros deram lugar a um lúgubre granar de um corvo e Maxiliano Gonçalves jazia em um luxuoso caixão repleto de flores. Um véu branco cobria seu rosto que apesar de toda a mortalha impregnada, tinha um aspecto agradável.
Os 2 filhos homens do velho recebiam os pêsames dos amigos. Estavam em seus impecáveis ternos pretos e por trás de seus caros óculos escuros. Laurinha era a imagem da desolação. Segurava as mãos sem vida do pai apertando-as com força.
-Pai, por que o senhor foi morrer? – murmurava ela – Você prometeu que iria estar na minha formatura, lembra que você me disse isso antes da operação? Não é justo, você me prometeu. – As lágrimas rolavam por sua face sem o menor pudor.
Horas após o enterro, os 3 filhos reuniram-se diante de uma mesa de mogno a fim de discutir a divisão dos bens do pai. Simão, Gilberto e Laurinha. Os homens tinham as feições resignadas, de fato, os óculos em seus rostos não escondiam tristeza e sim resignação.
3
- O que aconteceu?- Ele se perguntou.
Acordou sobre uma confortável almofada em cima da poltrona de sua biblioteca.
-Mas que diabos estou fazendo aqui?- Ele conjecturava o hiato que havia em suas memórias. A última imagem que tinha de sua casa era a cozinha, mais precisamente a sua geladeira.
-Lembrei! Eu estava com sede, sim, eu estava com muita sede e de repente... Senti uma tontura e tudo se apagou.
Ele desceu de sua poltrona e estranhou a perspectiva inferior que estava tendo de sua biblioteca.  Caminhou em passos dificultosos ante um espelho redondo localizado ao lado de um velho relógio de pendulo e se assustou com o que viu.
-Meu Deus! Estou no corpo de Fido, o gato de Laurinha, mas que diabos está havendo? Será que isso é um pesadelo?
Ouviu um burburinho vindo do andar de cima e assentiu que eram seus filhos. Dirigiu-se até lá deixando o espelho que refletiu a imagem bonachona e preguiçosa de Fido para trás.
4
Os filhos discutiam quando Fido adentrou no escritório de Maxiliano e sentou-se sem ser percebido num canto qualquer.
-Não quero discutir sobre o dinheiro agora – dizia Gilberto – só o que faço questão no momento, é a cobertura da Barra e o Mercedes conversível.
-Quando você vai crescer Gilberto? – retrucou Simão – Sabe quem temos que analisar com calma todas as ações da empresa e vendê-la a um preço justo.
-Gente, pelo amor de Deus! –bramiu Laurinha em prantos – mal o enterramos, por que temos de falar disso agora?
-Ah vamos Laurinha!- disse Simão – o velho já era pra ter batido as botas há 2 meses, aquela ponte de safena só estendeu o que era pra ter acontecido.
Laurinha ficou pasma e sequer conseguiu dizer algo, soluçava.
Gilberto passou a mão sobre o ombro da irmã dizendo:
-Não fique assim Laurinha, o tempo vai curar isso, vá por mim.
Ela meneou a cabeça e disse em seguida:
-Mas por que vocês querem vender a empresa?  Sabem que ela significava muito para o papai, sabem o quanto ele lutou para deixá-la no topo e ainda mais, sabe o quanto ele odeia aquele senhor Anderson Peregrino.
-Negócios são negócios Laurinha – disse Simão – o doutor Peregrino está disposto a pagar uma boa grana pela firma e creio que nenhum de nós será capaz de administrá-la.
5
Ele assentiu toda a situação.
-Merda, eu morri. Voltei no corpo de Fido.
Maxiliano estava perplexo com a situação. Duplamente perplexo. Dizem que os gatos são um facilitador para a passagem no outro mundo, um mediador entre o mundo dos vivos e dos mortos, mas o velho jamais acreditara nisso. E, o que ele também não queria acreditar, era que seus filhos pouco se importavam com sua morte e estavam dispostos a vender a sua empresa a qualquer custo.
-Bastardos ingratos! Depois que tudo que fiz por eles.
6
Gilberto levantou-se da mesa, tirou os óculos escuros do bolso do paletó e pôs no rosto.
-Já disse, não quero discutir isso. Façam o que quiserem e depois me passem a minha parcela. Só faço questão do Mercedes e da cobertura na Barra.
-Você é muito filho da puta! – gritou Laurinha – vocês dois são. Não passam de dois filhos das putas gananciosos!
-Ah não fode Laurinha – replicou Gilberto – foda-se aquele velho, e o que o Simão disse é verdade, ele durou demais. Como dizem, já foi tarde!
Gilberto ia se dirigindo para a porta do escritório e Fido avançou sobre suas pernas. Ele chutou o gato e o bichano rolou sobre o tapete persa.
-Maldito saco de pulgas!
Simão olhou severamente para a irmã antes de também se levantar da mesa. As mãos delas cobriam o rosto molestado pela tristeza. Ele suspirou fundo e disse:
-Você precisa entender a vida, Laurinha, a dele se foi e a nossa restou, pense nisso.
Laurinha ficou solitária e desolada no escritório. Caíra novamente em prantos e debruçou-se sobre a mesa. Fido caminhou para perto e pulou em seu colo. A jovem acariciou seu animal de estimação.
-Oh, minha doce Laurinha, você sempre foi meu tesouro.
7
Gilberto estacionou o Mercedes na garagem de seu falecido pai. Falava ao celular e entrou na residência e por lá permaneceu por uns 15 minutos antes de voltar ao veículo.
-Ora Joana – dizia ele ao celular – eu já lhe falei, os inquilinos do meu pai vão deixar a cobertura mês que vem e a casa será nossa... O que? ... Claro que daremos uma festa, já andei conversando com uns amigos a respeito disso, e digo a você que vai ser o bicho.
Gilberto ainda ao celular, ligou o carro, deu ré e saiu pelas ruas do Rio de Janeiro. O vento soprava contra ele movimentando seus cabelos que iam à altura dos ombros. Os óculos escuros estavam em seu rosto e lhe davam um aspecto bem burguês.
-Ainda não sei sobre a grana da empresa, Simão que está tratando isso e que saber, nem quero me meter nisso... E você acha que vou deixar ele me passar à perna? Faça-me o favor, Joana! Antes de ele pensar em me foder, eu o fodo duas vezes... Bem vou desligar o celular antes que eu seja multado.
Gilberto ligou o rádio do carro e uma música do Ac/dc tocava na rádio. Ele cantarolou acompanhando o refrão da música.
-I’m on the highway to hell!
Fido esgueirou-se pelo banco de trás do carro que um dia fora seu e postou-se no banco do carona sem que Gilberto o notasse. Ele batia com as mãos no volante acompanhando o ritmo da música e o gato o observava com olhos vítreos. Fido desceu do banco e foi-se na direção do freio e acelerador. Passou por baixo de sua perna direita e postou-se entre ela e a esquerda. As garras saltaram de suas patas e ele cravou-as no saco do motorista. Gilberto gritou de dor e num gesto de auto-reflexo, moveu bruscamente o volante levando o carro para a contramão.
Um ônibus que passava a alta velocidade não conseguiu frear o veículo e a colisão fora forte. Gilberto morrera na hora.
8
Os programas sensacionalistas comparavam a tragédia da família Gonçalves com a famosa família Kennedy. Dois dias após o enterro de Gilberto, Simão e Laurinha com Fido no colo tentavam decidir o que fazer com a herança que teriam de dividir.
-Bem, Laurinha, sei que estamos passando por atribulações, mas nesse momento temos que ser fortes.
Não obstante, o gato nos braços dela o incomodava.
-Mas o que diabos esse gato fazia no carro dele? – Perguntou Simão.
-Eu não sei - respondeu Laurinha com o olhar ausente – porém os bombeiros disseram que foi um milagre ele ter escapado do acidente.
-Bem, dizem que gatos têm 7 vidas, talvez só lhe reste 6 agora.
Um sorriso amarelo brotou no rosto de Simão e ele ameaçou uma carícia em Fido, contudo o gato mostrou suas presas demonstrando que não queria ser tocado por aquele sujeito. Simão recolheu a mão, pegou uns papeis sobre a mesa e colocou em sua pasta.
-Bem, devo fechar o negócio com o Dr. Peregrino ainda nessa semana, irei te manter a par de tudo o que está acontecendo. Deseje-me sorte.
O olhar ausente de Laurinha permaneceu. Fido o observou saindo com olhar iracundo.
9
Simão estava animado com a partilha em menos pessoas, mais do que isso, sabia que Laurinha era tola, fácil de ser manipulada e fácil de ser enganada.
-Está tudo correndo bem. Laurinha certamente nem saberá o valor que venderei a empresa, fato que a morte de Gilberto me lucrou uns 7 milhões por baixo.
Tomava um revigorante banho enquanto sua casa era invadida por um ser não desejável. Um gato para ser mais exato.
Fido vasculhou o local como um soldado que estuda o perímetro antes de tomar qualquer ação. Olhou para a escada de corrimão que dava acesso ao segundo andar e ficou estático, pensativo. Naquele momento, Simão começou a cantarolar no banheiro e aquilo pareceu que o estimulou a agir mais depressa. Fido subiu a escada. Logo no início do segundo andar, havia um quarto de hóspedes com um ventilador próximo a porta. O gato estudou o fio do ventilador e uma iluminação aflorou seus pensamentos.
Com a boca, ele levou a extremidade do macho da tomada até o corrimão e deu 4 voltas pelas pequenas balizas que davam suporte. Uma boa armadilha se levar em consideração que fora tramada por um gato siamês. Todavia, era preciso atraí-lo. Simão saiu do banheiro envolto por um roupão de banho azul e ligou o moderno rádio de sua sala de estar. Música clássica explodia no ambiente. O gato visualizou sobre um pedestal naquele corredor, um jarro de aspecto caro, mas que na verdade não era muito valioso. Correu até lá e derrubou o jarro fazendo-o espatifar-se sobre o chão.
Gilberto preparava o jantar quando estranhou o ruído. Abaixou o volume do rádio. Empunhou a faca que segurava e subiu a escada cautelosamente.
-Quem está ai?
Fido, encolheu-se sob a base do ventilador do quarto de hóspedes, o fio estava em sua boca.
-Quem está ai? – Insistiu.
Subia os degraus cautelosamente, um a um. Seus poros exalavam nuvens de tensão. Chegara ao andar de cima, passara pelo quarto de hóspedes onde jogara um olhar de soslaio. Ninguém estava ali. O cabo da faca em sua mão recebia uma considerável pressão. O gato o observava com seu olhar frio e seu aspecto bonachão. Simão fitou o jarro espatifado pelo corredor. Caminhou com menos cautela até o pedestal de gesso.  Quem teria derrubado? Ele pensou. Contudo, ao fundo do corredor uma janela encontrava-se aberta com suas cortinas sacolejando devido à brisa noturna. Sorriu e o sorriso não demorou a se tornar uma estridente gargalhada. A faca já não mais estava firme. Assentira que fora o vento que derrubara o tal jarro.
-Toda essa história está deixando minha mente em frangalhos- disse ele- depois de fechar esse negócio certamente passarei um mês de férias pela Europa, não, Canadá.
Ele girou sobre os calcanhares não dando importância para os cacos do jarro sobre o tapete no corredor. Iria descer, aumentar o potente som de sua sala de estar e voltaria a preparar o jantar em sua luxuosa cozinha.
Fido aguardava o momento certo. Simão caminhava batendo com a lateral do gume da faca na palma da mão e quando ia deixando para trás a porta do quarto de hóspedes, o gato puxou o fio para trás esticando-o. Simão tropeçou e rolou a escada fazendo um ruído oco. Rolou os 15 degraus e uns metros no andar de baixo caindo de barriga para cima. De alguma maneira, a faca entrara em seu ventre. O seu roupão de banho não demorou a ter uma tonalidade escarlate na altura do abdômen. Apalpou o roupão molhado e levou os dedos manchados de sangue ante os olhos. Ao vê-los rubros, ele tomou ciência que estava em grandes apuros. Ouviu o ronronar vindo do alto da escada, ergueu a cabeça para fitar o autor daquele ruído, aquela ação parecia que lhe roubava suas últimas forças, os olhos que estavam fendidos se arregalaram num súbito e último horror. A última imagem que tivera em vida, fora o gato siamês de sua irmã caçula o encarando com seus olhos vítreos e desafiador. O mesmo gato que estava no carro de seu irmão do meio. Suas últimas palavras foram:
-Você, foi você...
Morrera com o dedo indicador apontado numa imperativa acusação para o alto da escada.
10
Duas semanas se passaram e a família Gonçalves (Laura Gonçalves) fora assunto em todos os veículos de imprensa, desde os tabloides de poucos centavos ao conceituado Jornal Nacional. Laurinha se tornou uma espécie de celebridade mórbida. Uma sobrevivente de mortes e acontecimentos bizarros em sua família.
-Oh minha doce Laurinha- Murmurava Maxiliano na confortável poltrona de sua biblioteca.
Ela estivera ausente por 12 dias, fugia do cruel assédio da imprensa e fugia do cheiro da morte que rondava o seu sangue. Fido ficara em casa sob os cuidados de Maria das Graças.
Em um sábado semelhante ao dia da morte do velho, Fido ouviu alguns risos e gemidos vindo do quarto de Laurinha. Com seu semblante de preguiça perpétua, ele caminhou até a porta que estava entreaberta do quarto dela. Adentrou deslizando seus peludos flancos pelas quinas de madeira.
Laurinha transava com um homem. Um homem mais velho do que ela. Maxiliano o reconheceu, tratava-se de Anderson Peregrino. Ele gozou e rolou para o lado na cama.
-Puxa, ainda não consigo acreditar na sorte que tivemos, tudo conspirou em nosso favor. -Disse ele.
Laurinha o olhou sem dizer nada.
-Primeiro seu pai, depois seus irmãos.
-É, poupou o meu trabalho que eu tive com meu pai.
Os músculos do gato estavam estagnados, Maxiliano tentava se mexer, mas sequer saía do lugar.
-O que está fazendo Laurinha? O que está falando? Não me diga...
-O que você fez para apagar o velho?
-Troquei o remédio dele por uma substância a base de Estricina. Deixei um bilhete meloso do tipo: Papai do meu coração, não se esqueça do seu remédio, beijos da sua filha favorita, Laurinha. E foi só esperar a notícia chegar e simular uma tristeza.
Ela começou a reeditar o teatro que fizera no sepultamento do pai.
-Sua frieza me assusta, Laura Gonçalves. – Disse ele sorrindo.
-Isso não me importa, o que importa é que agora somos o casal mais rico do país.
Anderson assentiu.
A paralisia muscular de Maxiliano/Fido havia passado para seus pensamentos. Jamais imaginara que sua querida filha caçula havia tramado a sua própria morte, mais do que isso, um sentimento de culpa (que ele não sentiu por ter matado seus filhos, que apesar de vis, jamais matariam o próprio pai) o aflorou. Quando ele começara a retomar os movimentos, a visão ia ficando turva e o som disforme.
-Não! Como pôde Laurinha? Como pôde?
O gato pulou sobre a cama, porém Maxiliano não estava mais lá. Laurinha o acariciou.


quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Sobre os sonhos: compressão e alargamento.

Nunca fui de sonhar nas minhas noites de sono. Ao dia, é o inverso; sonho acordado. Mas, nesses últimos meses tenho tido o prazer difuso dos sonhos; é como se fosse um garoto imberbe, um aprendiz, ou como se houvesse perdido o tempo correto para aprender o alfabeto ou a leitura e a escrita e estivesse agora numa classe de aceleração; se todos da minha idade, suponho, têm o contato corriqueiro com o mundo dos nossos desejos desvelados – e, se é assim, muitos até enjoaram de sonhar, ou até não há mais por que perder minutos do dia seguinte tentando dar solenidade e objetividade ao que acontece sempre, dia após dia – eu vivo algo que pode se comparar ao sabor do primeiro beijo, ao calor das amizades da adolescência.

Depois de um bom tempo depois de sua morte, sonhei com minha avó Alice. Ela conversava comigo do mesmo jeito que sempre fez: sua devoção aos detalhes mais pormenorizados do seu passado, do seu querido Tio Quincas – que deve ter morrido uns trinta anos antes do meu nascimento, mas eu o tinha como um tio avô que só deveria morar muito longe, mas jamais morto, de tanto que minha avó o idolatrava e lhe queria bem -, do seu segundo filho que morreu ainda bebê, faziam-na revirar os olhos para o alto, como quem devia apontar as memórias para o revés do chão e das coisas do presente. No auge da narrativa, fechava os olhos; nessas horas sempre sorria, mas sem parar de falar – quem a conheceu sabe que ela não parava nunca.

Foi um dos meus primeiros sonhos depois de muitos anos, quando, lembro-me bem, sonhava sempre em estar voando baixo, lentamente, sem sentir o vento, escutando todas as conversas alheias, aquelas que ansiava desmascarar na realidade de pessoa acordada, e isso era impossível. Não havia muito que apreciar de sonhos como aqueles: era o que eu queria saber da vida das pessoas. Vai ver eu me desiludi tanto com os meus sonhos de urubu mexeriqueiro que deles abdiquei desapercebidamente minha vida.

Esse sonho que tive coma minha avó foi, inequivocamente, um augúrio. Se meus sonhos pretéritos careciam de signos mais complexos e jorravam frivolidade, os de agora, os que anunciam meus trinta anos, são o oposto. Trata-se de uma profusão de sinais sobrepostos e desorganizados, de maneira que, mesmo que sejam tudo menos a repetição idiota dos tempos que plainava sobre as amendoeiras e mangueiras do meu bairro, ainda assim, é possível notar um padrão.

Depois que eu e meus pais nos mudamos de Santíssimo, minha avó foi morar com minha Tia Mara; foi justo aí, nesse lugar, que sonhei com ela papeando comigo. Nunca fiquei tão distante dela quanto nos últimos anos de sua vida, mesmo que nesse ínterim, somente nos seus derradeiros momentos a velhice a tenha ceifado a habilidade de tagarelar. No meu sonho, eu a escutava contar da sua professora primária em Portugal, mas não dos lugares onde eu ouvi a mesma estória por diversas vezes – seu quarto ou o carro do meu pai – e sim do seu novo aposento, onde viveu seus últimos dias. Ali, minha avó foi incapaz de conversar comigo daqueles melodramas, fosse pelo tempo curto das visitas que fazia – sem contar que ela parecia mesmo interessada em conversar com a minha esposa, que sempre estava comigo -, fosse pela sua saúde debilitada. Eu sonhei que minha avó falava de um lugar onde ela pouco pôde fazê-lo; e nesse ambiente etéreo, o sonho era mesmo muito crível: tudo estava disposto como sempre esteve, naquela casa em Bangu. As paredes e o teto, seus santos, as fotos dos netos e bisnetos, a copa, a cozinha, as garrafas d’água e o banheiro; todos em tamanho e em cores reais.

Mais uns dias e sonhei que estava sentado na sala da minha primeira casa, no Bairro Jabour. Eu empurrava um carrinho de brinquedo; fazia curvas em alta velocidade, cantava os pneus. Ao levantar a cabeça, deparei-me com um cômodo gigantesco: o teto ficava a uma dezena de metros da minha cabeça, as paredes eram muros de um castelo de realeza inconteste, os quadros dispunham-se distantes uns dos outros, a escada de madeira escura estava a léguas, a janela que dava para a rua escondia-se atrás de uma cortina que mais parecia o pano desfraldado a esconder o picadeiro antes de assomarem os palhaços e os mágicos, a porta parecia a da Igreja que ficava a vinte passos do portão de casa e minha mãe, minha madrinha e meus primos conversavam longínquos como os transeuntes de qualquer centro comercial num dia de Domingo.

Sufocado pela abundância de espaço, eu gritei pela minha mãe. Tão logo me escutou, desamarrou seu avental de suas costas e veio me acalentar. Com três passos de girafa, me alcançou e me deu colo; ao me levantar com seus braços de Golias, parei de chorar, e o chão ficou distante e inatingível; meu medo foi arrefecendo; meus primos vieram brincar comigo e minha madrinha me trouxe uma colher de iogurte. Acordei.

Com a minha avó, estava num cômodo verossímil; com minha mãe, num exagero caudaloso de espaço e distância. Em todos os meus sonhos recentes, meu passado é de dimensões pelágicas, e eu estou sempre metido na inviabilidade quilométrica da minha semi- consciência.

Quando sonho acordado, perco, dessa feita, a noção exata dos ambientes onde ainda transcorrem ininterruptamente as minhas memórias. Elas são recontadas diariamente; como qualquer estória é reeditada a cada vez que alguém a conta, assim também o são as que habitam nosso cérebro. Entretanto, fora da subjetividade feérica, os contadores subvertem as personagens aos fluxos intermitentes da memória, ao sabor dos interlocutores – o jargão “eu aumento, mas não invento” cai bem nessas horas -; já nos sonhos, o surreal amplia os panos de fundo e tempera as paisagens, mantendo intactos os interlocutores, os narradores e suas falas. Cada vez, pois, que relembro das situações mais recônditas da minha infância, excepcionalmente das que contam da minha primeira casa, me vejo numa terra de gigantes, de prados insuperáveis e de quartos inexcedíveis. Quando minha mãe some, hoje, sonhando com o ontem, dos meus olhos para ir ao trabalho enquanto choro na janela da sala, é como se ela tivesse feito uma peregrinação, ao percorrer aquela rua enorme feito uma via expressa e interminável, onde segue até depois do horizonte; e de lá volta, para subir aquelas escadas de terraplanagem para me abraçar. E não são somente as coisas de criancinha que tomaram a poção mágica que as tornaram gigantes. A cada dia que me lembro do meu segundo grau e daquelas risadas que pareciam que nunca chegariam ao fim, me vejo numa sala absurdamente grande, disfuncional e sem propósito; os professores num tablado gigante e nós espalhados, sentados nas carteiras, como as árvores do cerrado.

Voltei a sonhar e, creio, foi sintomático. Pouco antes do meu primeiro sonho depois de anos – passeava numa praia infinita e retilínea – acordei de madrugada em minha cama e senti sufocado pelo teto do meu quarto. Tive a límpida sensação de poder tocar a lâmpada apagada se assim o quisesse – bastava esticar os braços. Olhei para os lados e senti tudo muito perto, como se tivesse sido trancado num claustro onde a porta diminuíra a ponto de não permitir a passagem de um adulto.

E mesmo sabendo que toda sapiência contém em si a presunção inerente de quem sempre será um inepto frente ao desconhecido que jamais será desvirginado, eu sou, ainda, um bom aluno. De tudo preciso saber, nem que seja para me garantir o acesso às boas conversas ou para desbaratar os que são tão presunçosos quanto eu – ou quanto qualquer um, em última análise. Ampliar o conhecimento traz sempre uma sensação de locupletamento e uma exígua a esta que, ainda que não assuma a forma de discurso, pois é meio estranho dizer para os outros o tempo todo que “só sei que nada sei”, é tão latente quanto o sorver das coisas novas. Destarte, quero dizer, nunca estamos receptíveis a tudo que possamos entender e aprender. Você pode ter uma memória de elefante e uma capacidade de raciocínio pródiga, mas jamais poderá abrir mão daquela fantasia de sabichão que veste sempre que alguém lhe ensina algo interessante, lógico, se for esse o seu caso.

Todavia, se não somos capazes de desencalacrar as sofismas no primeiro contato com as mesmas, é fácil notar que é ligeiro o tempo que levamos para juntar os caquinhos e produzir um conhecimento de verdade. Tão logo estamos novamente fingindo que podemos entender tudo aquilo que assoma no televisor, no history channel, e já estamos de posse do entendimento mais encorpado daquilo que fingimos entender completamente dias antes. E é justamente aí nesse ponto que a vida nos comprime, como as paredes e o teto do meu quarto comprimiram-me, no prólogo dos meus sonhos.

Não importa que agora eu saiba de astronomia, das ciências sociais, que eu leia Dostoievski e o seu Razumikhin, que é capaz de nos fazer entortar a ética dos homens e bolinar a moral – para o bem da humanidade, nunca é demais grifar isso. As esplanadas continentais abertas nessas múltiplas facetas da vida e do entendimento da própria são tudo menos o axioma do homem que se diz livre porque pensa. O mundo parece me esmagar a cada dia que passa. Depois que descobri que o universo teve um começo e que o firmamento é um controvertido sem-fim com um final, voltei aos tempos de menininho quando pulava feito um coelho para pegar alguma estrela da cortina negra da noite. Como retroceder assim é impossível, todo o universo agora está caindo na minha cabeça, diminuindo, a ponto de sentir que não seria loucura poder acariciá-lo com a palma das mãos.

Difícil dizer onde isso começou e mais leviano ainda afirmar que a desconstrução da didática astronômica serviu de estopim para o que vivo. Dessa e de qualquer outra relação de causa e efeito, creio, não poderei lançar mão. Mas o fato é que tudo está diminuindo, desde aquilo que jamais qualquer ser humano poderá sequer imaginar até a cidade, o mar e o corredor do meu apartamento.

Quanto mais caminho para a metade da minha vida, mais o passado se amplia e mais o presente recua em todas as suas extremidades. Se parasse novamente de sonhar e voltasse a ocupar a ribalta onírica somente daqui a quinze anos, que tamanho teria meu pai? E minha mãe, nas suas idas ao trabalho? E a minha primeira bola, como a chutaria? Em contrapartida, qual seria o tamanho das coisas tangíveis? Será que até o ar me imputaria seu empuxo?

A minha avó encolheu tanto em sua vida! Imagino que ela deveria ter uns vinte centímetros a mais do que tinha ao falecer. Claro que sei que o corpo desgasta-se, que a máquina cansa e que não há carne, pele e órgãos que não pendam para o chão depois de tantos anos sob o jugo da massa de um planeta inteiro. O que me deixa digressivo é a casamata invisível onde nos metemos cuja escolha de não permanecer não nos foi conferida.

Vó Alice jamais teve a oportunidade de saber da dialética, tampouco do fim das ideologias; nunca quis meter o bedelho nessas searas e em tantas outras. Ainda que, ao contrário, ela de muito soubesse, saberia só ela das coisas que aprendera, encerrando em si mesma um cabedal de múltiplas conclusões e elucubrações; ou seja: cada um sentirá o céu arriar, o mundo compactar-se em escalas distintas, à sua maneira. E a minha sobrinha Clarice? Como será que se apoderará de um conhecimento disponível muito mais avolumado que o da minha geração? Com que idade ela vai ver o mundo começar a diminuir a sua volta?

Há um momento único na vida da pessoa em que há simetria entre o que se foi e o que se é. Justamente quando temos menos habilidades para compreender de forma mais plausível a transitoriedade e a complexidade das coisas, bem aí, somos proporcionais: o passado é vívido – todas as pessoas que depois desbotam do fundo das gavetas da memória, os rostos, a professora do primeiro ano na escola, os amigos, os conhecidos, os primeiros inimigos, os primos de terceiro grau, o primeiro beijo, o segundo e surrupiado beijo, as peladas, as festas de aniversário, as broncas dos pais – e o presente não é acometido pelo nanismo que nos espreme, a partir dali, contra o ar e as paredes. E ninguém tem a obrigação aos dezenove, dezoito anos de prever tudo isso que escrevi até aqui.

Mais interessante e deveras agastante é tomar nota que, mesmo depois de mortos, seguimos o destino de encolher cada vez mais. O que são os mortos senão aquilo que está no ínfimo interstício que há entre as pedras e os grãos de areia? Depois que o coração para de bater e o cérebro desliga, já não são mais as paredes ou o ar ou a abóboda celeste que diminuem de escala, e sim a matéria orgânica em que nos transformamos de uma hora para outra. Com estupenda celeridade, a morte completa brutalmente aquilo que aumenta de intensidade com a sutileza dos grandes artesãos, quando ainda somos seres vivos.

Esse lado da moeda já está bem claro para mim: o futuro é compressão. Mas essa é a metade da missa, apenas. Quando estava para morrer, minha avó completou seu último aniversário. Meus tios já haviam me avisado que a velhinha que lutara contra a falência do cérebro, que a despeito das péssimas condições do corpo avassalado pelo tempo seguia com as faculdades mentais inoxidáveis, havia perdido a lucidez. De fato, estava absorta, irreconhecível; talvez porque estivesse preocupada em reconhecer as amplidões contínuas as quais haviam acabado de se apresentar a ela. Eu teimo em acreditar que a senilidade é nada mais que isso: ela estava finalmente numa terra de Tios Quincas gigantes e entes queridos inextricáveis. Essa é a passagem cujo toda pessoa vai atravessar. Ao contrário do túnel escuro que as pessoas morrem de pavor só de pensar que um dia ele possa mesmo existir, a passagem vai se abrindo, desde o momento que o nosso passado vai virando memórias, e dessas memórias vão se empilhando as lembranças que sobraram, quase aleatoriamente, borrando os quadros imaginários que pensamos infantilmente termos pintado todos com uma tinta anti- bolor e olvido. É como pegar os restos do frango assado para fazer um empadão e depois pegar os restos do empadão de frango para botar num sanduíche: isso é memória. Minha avó, que um dia foi compressão e amplidão ao mesmo tempo, num corpo só, hoje é uma parte microscópica do planeta, entre grãos, e uma outra parte, imaterial, solta no seu solitário e ignoto cosmos, do tamanho que só o infinito pode ser.

O ceticismo do homem culto – ou, em última instância, do homem velho, que será sempre mais astuto e experiente na velhice do que foi na juventude - é resultado direto do encolhimento do mundo. Saber que, mesmo que dure muito tempo, vamos achar as respostas para as perguntas que fazemos é irrefreavelmente entediante. Ainda bem que existe o outro lado das coisas. Ao tentar controlar tudo o que está a minha volta, percebi que o futuro é mais incerto do que o julgamento divino derradeiro. Não saber ao certo com quem nos encontraremos e de que forma estaremos e estarão todos e tudo ao redor é o mistério que nem os ecos do Big Bang – cada vez menos “big” – nem as pirâmides do Egito jamais poderão exceder.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tempero

Paulinho saiu do trabalho no mesmo horário de sempre, ordinário com ele só. A pasta preta, a camisa amarela e os passos embotados da pressa cotidiana. Queria voltar para casa. Seria possível, se corresse mais um pouquinho, pegar o segundo tempo do jogo. Barcelona em campo: passes, cadência, arte... Paulinho imantado pela bola partiu desenfreado até o ponto de ônibus.

A fome bateu. Lembrou que a sua Belinha faria um peixinho frito, daquela leva da última pescaria com os amigos. Paulinho, afortunado, levara de tudo um pouco do mar. Deixou com inveja os companheiros de anzóis e boias. Quando sentiu o peso do isopor nos seus ombros, pensou num jantar. Estavam ele e Belinha à luz dos candelabros, fartando-se de lulas e robalos, cruzando olhares lânguidos e perscrutadores. Anunciava-se uma madrugada de desejos conclusos.

Mais ordinário que Paulinho era o dia: 21 de Outubro. Nem naquele mês, nem no próximo, nem no anterior existia premissa para um presente. Regalo datado, esperado, sazonal feito uma colheita, não cabia. Mas a impertinência odorífica do mar agarrou-se aos pêlos do nariz do agraciado pescador. Viu Belinha em casa, de avental, preparando a sua janta, de cabelos amarrados, à medida que se aproximava da peixaria.

Passou pelos peixeiros e as senhoras que reviravam os olhos das garoupas e periciavam os camarões. Olhando-as fixamente, seguindo a dança das facas amoladas, trombou com uma mulher. Perdeu o prumo. Cambaleou, manteve-se de pé; trapezista, deu de cara com uma lojinha de bijuterias. Na estante, um anel. Um círculo cor de cobre, trançado de Rapunzel. Não era data de ninguém; não tinha dono o dia: nem aniversário, nem exéquia; nem para lembrar, nem para esquecer. Jamais tinha dado à Belinha presente que não tivesse conexão com aniversário, Natal ou dia dos namorados. Sacou do bolso as cédulas; comprou o anel. Pô-lo no bolso da calça.

Ao chegar ao lar, o televisor estava transmitindo o jogo. Assim era Belinha. Lembrara de Paulinho. Quando ouviu sua voz, estava de costas para o marido, cabelos enfiados na mantilha, preparando a corvina. Paulinho a envolveu. Roçando suas ancas e beijando seu pescoço, ao abrir seu punho cerrado mostrou-lhe o presente. Belinha arrancou o pano da cabeça; seus cabelos libertos e o anel: Paulinho enlouqueceu. Ela o empurrou sorrindo, disse para que esperasse um pouco. Queria fazer do peixe mais um dos seus encantos, sem perceber que ela o cozinhava, mas o tempero, a essa altura, era dele.

sábado, 24 de julho de 2010

O ursinho de Samantha


A mudança
Samantha Alvarez, adolescente no auge de seus 17 anos ajeitava as últimas coisas para mudança de sua família. Nem havia deixado o iminente antigo lar e uma aura nostálgica já lhe assolava. Seus olhos lacrimejavam toda vez que fitava cada cantinho de seu quarto.
-Filha, posso jogar essas coisas fora?
Samantha desviou o olhar vazio de um canto de seu quarto para sua mãe, a mesma segurava uma caixa com coisas que tencionava doar ou até mesmo jogar fora.
- Mãe, temos mesmo que sair de Campo Grande? E meus amigos? Minha escola?
Sueli Alvarez pôs a caixa que segurava no chão, e com um olhar compreensivo, caminhou até a filha abraçando-a. Samantha chorou sobre o abraço aconchegante e cheio de ternura de sua mãe.
- Deixe disso Samantha, você vai poder visitar seus amigos aqui em Campo Grande sempre que puder e além do mais, vamos morar na zona sul do Rio, perto da praia, perto dos pontos turísticos e tudo mais.
-Mas eu gosto de Campo Grande. –Insistia a adolescente.
-Mas é uma nova etapa em nossas vidas Samantha, especialmente para seu pai.
Samantha ergueu o olhar cheio de lágrimas para a mãe, sua expressão ficou singularmente carrancuda. A jovem não gostava que a mãe referisse seu padrasto como pai.
-Seu padrasto. – Retratou Sueli.
Após alguns segundos de total silêncio, Sueli dissimulou apontando para a caixa de coisas que não seguiriam para mudança. Fitou um surrado urso de pelúcia azul e branco.
-Olhe só, seu velho urso.
Sueli abaixou e tomou o tal urso em mãos. Seus pêlos artificiais irritaram as narinas de Sueli que explodiu em quatro espirros.
-Seu pai lhe trouxe esse urso quando você tinha 2 anos, foi tão estranho: aquela noite chuvosa, seu pai bêbado como um gambá e com um embrulho de jornal velho em mãos. Estava tão chapado que havia dito que comprara o seu anjo da guarda.
A boca de Sueli arreganhou-se em um sorriso.
-O engraçado é que você nunca deu um nome pra esse urso.
- Pois é, eu sempre o chamei de Ursinho. – Assentiu Samantha
-Bem então posso doá-lo? – Indagou Sueli.
-Sim- Respondeu Samantha com um monossílabo.
Faltavam poucas horas para Samantha, Sueli e Antunes deixarem a velha casa localizada na zona oeste do Rio. Contudo, Sueli havia jogado poucas coisas daquela caixa ao lixo, a grande maioria seria doada para uma creche nas redondezas. Havia muitas bonecas e jogos.  Quando os funcionários da creche tocaram a campanhinha da iminente ex-residência de Samantha, Sueli os atendeu com um belo sorriso estampado na face, entregou para os homens a caixas contendo o urso de pelúcia e o demais brinquedo.
-Muito obrigada por virem buscar. – Agradeceu Sueli.
-Que nada senhora, nós é que agradecemos a doação.
Samantha que observava tudo pela janela de seu quarto, sentiu um súbito e tenebroso remorso. Era como se alguém estivesse tirando uma parte de si.
- O que foi que eu fiz? – se perguntava – Estou deixando ir uma coisa que meu pai me deu.
Samantha correu, desceu as escadas, atravessou a sala de estar, cruzou a varanda e visualizou os homens já além do portão em cima da calçada.
-Esperem! – Gritava ela.
Sueli e o marido observavam atônitos a atitude de Samantha.
Os homens olharam para a jovem correndo em sua direção e também não entenderam.
-Senhores, me desculpem, mas tem uma coisa nessa caixa que eu gostaria de ficar.
-Sim claro minha jovem. – Disse um dos homens.
E Samantha estendeu a mão levando-a para dentro da caixa, revirou algumas bonecas e pegou o seu surrado Ursinho.
Sueli sorriu e se abraçou a Antunes.

Casa nova, vida nova
A adaptação de Samantha ao novo lar fora melhor do que ela mesma esperava. Em menos de um mês, já tinha feito novos amigos e mal parava em casa. Seu velho urso que antes ficava jogado em algum lugar da antiga casa em Campo Grande, agora tinha um local especial sobre a mesa do computador em seu quarto. Esporadicamente, Samantha o acariciava.
Dois homens com uniformes do condomínio conversavam olhando para a residência de Samantha Alvarez. Tratavam-se do jardineiro e do porteiro.
O porteiro com sua camisa de mangas longas azul e sua gravata preta perguntava:
- Cara, mas você não acha que está se arriscando demais não?
-Não Severino – dizia o jardineiro com sua roupa grossa e toda verde – tudo vai dar certo, o homem viajou a negócios, com duas mulheres em casa fica mais fácil. Eu entro, pego o que tenho de pegar e saio.
O porteiro coçava a cabeça demonstrando inquietação. O jardineiro havia percebido.
-Severino o plano é perfeito, você desliga a força do condomínio e quando tudo se apagar, inclusive as câmeras de vigilância eu ajo. Você faz todo o procedimento como se tivesse faltado luz e depois de 10 minutos você religa tudo.
Severino notou que a expressão de seu companheiro era singelamente diabólica, preferiu não dizer nada, mas concordou apesar de achar que o plano do jardineiro não daria certo.

Plano posto em prática
Em uma quinta feira nublada, Severino estava tenso e apreensivo. Em 25 minutos ele iria se dirigir até a casa de força do condomínio e desligaria a chave que deixaria tudo no escuro. Todavia, algo que não fora planejado pelo jardineiro aconteceu; Antunes padrasto de Samantha adentrava no condomínio com seu veículo, buzinou para Severino que respondeu com um sorriso amarelo e um tímido aceno.
-Isso vai dar merda. – Praguejava o porteiro.
Atrás de uma árvore, o jardineiro aguardava as luzes se apagarem. Já tinha visto através do monitor da portaria que a câmera não tinha alcance para filmá-lo naquela posição. E a chegada inesperada de Antunes parecia que não o intimidava, estava decidido a entrar.
-Anda logo seu paraíba filho da puta, desliga logo a merda da chave.
Sueli ficara surpresa com a chegada do marido. Assistia à novela enquanto Antunes trancava a porta.
-Pensei que você só chegaria amanhã.
-É que cancelaram uma reunião e nos encaixaram num vôo da ponte área. Onde está Samantha?
-Em seu quarto no computador. –Respondeu Sueli.
Finalmente as luzes se apagaram. Na casa de força do condomínio, Severino murmurava:
-Ele que decida se vai entrar ou não, a minha parte está feita.
Vestido todo de preto, o jardineiro caminhou em passos confiantes para a casa que planejava invadir. Pensava:
-Eu conheci o ex-morador dessa casa, sei o número do cofre e duvido que eles tenham mudado, vai ser fácil.
-Droga! Ninguém merece ficar sem luz nesse calor. – reclamava Antunes – Sueli onde está a lanterna?
Sueli levantou do sofá e caminhou tateando pela escuridão.
-Está na gaveta da cozinha. –Respondeu ela caminhando para buscá-la.
O jardineiro já diante da porta da frente da casa tirou de seu bolso uma chave e a enfiou na fechadura. A porta se destrancou. O invasor girou a maçaneta e abriu a porta lentamente. Olhou pela pequena fresta criada da porta semi-aberta, mas não poderia ver nada além do que o intenso negrume.
Antunes ao sentir uma brisa gelada em suas costas virou-se para trás e se deparou com a porta aberta e uma silhueta parada defronte ao umbral.
-Quem é você? – Perguntou estarrecido o proprietário da casa.
A penumbra mascarava qualquer movimento que qualquer pessoa pudesse fazer. Antunes não pôde notar que o invasor havia sacado uma arma. O disparo fora abafado pelo silenciador da pistola, no entanto, Antunes caíra sobre a mesinha de vidro da sala. A mesinha explodiu em estilhaços fazendo um enorme barulho que o invasor não planejava que acontecesse.
Sueli ao ouvir a mesinha se quebrando, correu de volta para sala.
-O que houve Antunes?
Porém Antunes não respondia, estava inerte no chão.
Sueli abaixou para assistir o marido, mas uma coronhada lhe fez cair desfalecida sobre o corpo ensangüentado de Antunes. O invasor olhou para a escada com uma frieza incalculável.
Samantha conversava com amigos pela internet quando tudo ficou escuro.

O ursinho de Samantha
Samantha esperou a luz voltar ainda defronte ao monitor, mas não fora apenas uma pequena queda de energia. A escuridão permanecia.
-Logo agora.
Contudo, um enorme barulho que provinha da sala lhe causou uma expressão de assombro. Samantha levantou-se da cadeira helicoidal e caminhou com passos cautelosos até a porta de seu quarto coberto pela escuridão. Suas pupilas se dilataram e sua visão fora se acostumando com o negrume. Ao chegar à porta, Samantha ouviu passos subindo a escada. Seu coração batia acelerado, no fundo, ela sabia que algo estava errado.
Os passos já estavam pelo corredor que levava até ao quarto, Samantha recuava com seus olhos fixos na porta. Os passos cessaram, Samantha podia sentir uma presença atrás da porta de seu quarto, a maçaneta girava lentamente, a jovem lamentou não tê-la trancado.
O invasor sem perder a calma abriu a porta com a arma apontada para a jovem.
-Calma, só quero o que está no cofre e ninguém vai se machucar. – Disse o homem.
Samantha estava assustada, jamais tivera uma arma apontada para si. O invasor penetrava no quarto e se dirigia até uma das paredes. O homem tirou o quadro que escondia o cofre e digitou o código que o abriria. Samantha estava preocupada com sua mãe, mas lhe faltava coragem em perguntar se ela estaria bem.
Para a surpresa do invasor, não havia nada no cofre, absolutamente nada. Aquilo o irritou profundamente.
-Vocês estão morando na maior residência do condomínio e não tem jóias no cofre? – Gritava o jardineiro.
Samantha ficava cada vez mais assustada com o nervosismo do ladrão.
-Como você explica isso garota?- Perguntou o iracundo invasor.
-Eu não sei senhor. – Respondeu Samantha com a voz trêmula.
O homem aplicou uma forte tapa no rosto de Samantha, a mesma chocou-se contra a mesa do computador fazendo cair uns CDs, livros e seu velho urso de pelúcia. Samantha gemeu de dor e pôs a mão na face estapeada. O invasor consultou o relógio antes de reparar nas belas curvas da apavorada jovem.
-Bem já que tenho 6 minutos, não vou sair de mãos vazias.
O invasor jogou Samantha em cima da cama e começou a apalpá-la.
-Você é bem gostosinha garotinha.
Samantha tentava retrucar:
-Por favor, não, isso não!
Ameaçou gritar, mas o homem abafou seu berro com uma das mãos e com a outra mantinha a arma na cabeça dela.
-Se gritar, você morre entendeu?
O choro de Samantha também ficara abafado pela mão do invasor.
-Entendeu?- Insistia o homem.
Samantha gesticulou positivamente com a cabeça.
O invasor rasgou a fina blusa da jovem deixando seus médios seios desnudos. O homem acariciava-os.
Apavorada, Samantha clamava por ajuda em seus pensamentos:
-Por favor, alguém me ajude. Socorro, pai!
O homem rasgou a calcinha de Samantha e começou a desabotoar a sua calça, em seguida disse:
-Não se preocupe meu bem, vai ser bom, dizem que a primeira vez é inesquecível.
A lua cheia finalmente havia aparecido sobre o céu nublado, um pouco de iluminação natural adentrou pela janela. Samantha insistia com seus pensamentos:
-Por favor, Pai aonde é que você esteja, por favor!
Quando o invasor pôs o pênis para fora da calça, uma enorme e súbita sombra surgiu projetada numa das paredes que a lua cheia iluminava. Um grunhido sinistro e apavorante chamou a atenção do invasor que instintivamente olhou para trás. Uma enorme criatura, não, um enorme urso azul e branco com mandíbulas soltando filetes de saliva.
-Mas que diabos! - Resmungou o homem boquiaberto.
O urso com suas garras tão afiadas quanto uma katana fez um corte no peito do invasor que berrou de dor. Um jato de sangue manchou as paredes. Samantha se encolheu na cabeceira da cama. O homem tentou atirar mas ao esticar o braço, fora surpreendido por uma abocanhada. O urso arrancou-lhe o membro de seu oponente facilmente. O braço caíra no chão com a mão ainda segurando-a e o dedo no gatilho. O grito de dor do invasor fora tão alto que todo o condomínio pôde ouvir.
-Meu Deus! – Resmungou Severino.
O Homem caiu no chão completamente ensangüentado e a mercê do urso.
-Me deixe em paz sua criatura do demônio, me deixe em paz! – Gritava o homem.
Porém o urso estava decidido. Atacou impiedosamente o invasor.
Samantha apenas ouvia os ossos e vísceras do assaltante sendo mastigada pelo urso e também podia ouvir seus últimos suspiros e gemidos. Ela observava apenas o dorso azul de seu salvador que se alimentava de sua presa. Sua expressão era de total agradecimento, e as palavras de sua mãe zumbiam em seus ouvidos.
“Estava tão chapado que havia dito que comprara o seu anjo da guarda.”
-Obrigada pai.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A Rede

Quando virou a esquina do calçadão com a Viúva Dantas, sentiu que iria fatalmente perdê-lo de vista em meio a tanta gente; mesmo que ainda não fosse o horário mais profícuo à concentração de transeuntes, as ruas estavam apinhadas de trabalhadores, estudantes, consumidores e pessoas de todo tipo. Na pequena calçada da loja de roupas, que fica ainda menor em decorrência do uso indevido do espaço público pelos desregrados lojistas do varejo, Mário sentiu que deixaria o seu alvo escapar da mira.

Munido de pressa, viu desaparecer repentinamente a sua boa educação. Esbarrou numa normalista que deu um gritinho de espanto, derrubou um dos cabides da loja que irregularmente expunha moletons em promoção e pisou no calcanhar de uma senhora muito gorda que lhe repreendeu com uma voz grossa e imperativa. Mário não lhe deu a mínima e, ao chegar à parte mais larga da calçada, derrubou os penduricalhos de uma ambulante que vendia óculos e prendedores de cabelo. O coro contra o desajeitado pedestre foi ganhando corpo, quando Mário já estava novamente no rastro do seu objetivo móvel. Se quando, momentos antes, por força do fino pavimento, onde suscitara as reações mais nervosas, o rapaz não pensou em nenhum momento em evitar o choque com as pessoas que o atrapalhavam, não seria agora, desimpedido, que iria retroceder, nem que fosse só para pedir desculpas.

Nos últimos seis meses, Mário desenvolveu um hábito estranho: seguia as pessoas. Diferente de um tarado ou de um detetive particular, não tinha um objetivo definido ao seguir os outros pelas ruas dos subúrbios da cidade. Parecia um piloto de corridas de automóvel que se recusa a ultrapassar seu oponente, deliciando-se simplesmente com a perseguição inócua. Como não queria ser pego nem pegar ninguém atado a um segredo, desenvolveu aspectos particulares para a sua voraz diligência diária.

Um detetive, por exemplo, age com a finalidade de desnudar seu alvo. Em qualquer romancezinho policial pode-se observar que o sujeito designado para a função de desmascarar alguém desenvolve um método, que pode até começar com uma despretensiosa perseguição. Contudo, o perseguido sempre some quando pega um ônibus; quando se mistura à multidão que, por vezes é uma manada intransponível; quando entra num prédio suspeito ou quando, no cantão mais improvável da cidade, saca o seu cartãozinho telefônico e faz uma ligação suspeita num orelhão. Se fosse eu o contratante desse serviço sujo, não me abalaria com provas insípidas. De pronto, cobraria do investigador uma foto, um vídeo, uma carta, uma testemunha... Jamais poria em risco um reles namorico por suspeitas irrefreavelmente levianas, muito menos um relacionamento onde estivesse impressa a minha vida toda.

Como Mário não tem que provar nada a ninguém e sai por aí depois do trabalho a seguir qualquer um que lhe traga interesse, sua técnica se baseia em alongar sua diversão até onde começa a engendrar-se o perigo de ser descoberto. Se um profissional do rastreamento vê que sua vítima se aproxima da zona onde não produziria provas contra si mesma, ele sai de cena e volta seus pensamentos para outros fronts: apura as informações que colheu, revela suas comprometedoras fotos, faz telefonemas maliciosos ou conta as boas novas ao seu patrão desconfiado.

Se Mário fosse um estuprador, por exemplo, tentaria estabelecer uma prévia relação com a vítima ou a atacaria em determinado ponto que reunisse condições de indelével privacidade, como fazem esses facínoras. Mas o trôpego e aparvalhado observador – em última análise é isso mesmo que ele se tornou nos últimos tempos – age como quem fica em cima do muro, no meio do caminho entre o estuprador e o detetive particular: o primeiro chega às vias de fato, é descoberto por vontade própria; o segundo só começa a sua diligência seguindo os passos dos outros porque não tem indícios concretos do “crime” – se assim não fosse, nem se disporia a andar feito um gato atrás de um rato.

Aquela já deveria ser a vigésima “vítima” de Mário. Nesses jogos que estabelecera, sentia o corpo mais desperto; tudo lhe aguçava os sentidos. Não era raro perceber que seu coração batia no ritmo da ferina euforia. Não queria ser pego; mas não queria, não obstante, deixar de sentir que poderia ser desmascarado. Quando sentia que a pessoa à qual seus movimentos convergiam poderia num súbito interpelá-lo, sentia uma torrente de pânico atravessar seu corpo inteiro. Não havia espelho à mão, mas sabia que, tão logo o medo lhe combalia as pernas, sua pele se manchava de escarlate, como se seu sangue invadisse as ranhuras e as pavunas de sua epiderme. Corava a ponto de sentir sua temperatura corpórea subir. Então, via todos os olhares convergirem na sua direção. Tinha medo dos velhos que passavam por ele. Achava que os velhos poderiam descobrir seu segredo. Não sabia do que tinha mais medo nessas horas, se era de ser confundido com um tratante ou de ter que contar para o mundo todo que vivia a seguir as pessoas sem ter motivo aparente. De uma hora para outra, numa fração de segundos, começava a sentir uma vergonha tão colossal, que ouvia Deus lhe dizer, com o dedo em riste e os cabelos despenteados e hirtos de ira, que o inferno lhe aguardava de braços abertos. Quando Deus apelava para a decepção que a sua mãe sentiria ao tomar conhecimento de sua estranha mania, retrocedia, fraco e vermelho de vergonha.

Entretanto, Mário teve poucos reveses nessa ignóbil empreitada. Na maioria das vezes, o rapaz seguia as meninas, os velhos, os estudantes; até os saltimbancos, que do calçadão rumavam para casa ao até amanhã do Sol no oeste, serviam de alvo. O que Mário sentia ao seguir as pessoas era muito difuso. Havia dias em que ele se deleitava em olhar as pernas dos sujeitos. Quando, no meio da caminhada, os alvos móveis mudavam o passo, tentava adivinhar a transmutação de um pensamento em outro; achava que a ira expressava-se nos joelhos – “quanto mais raivosa estiver uma pessoa, maior o impacto do peso do corpo nos joelhos”. Numa sexta-feira à tarde, através de uma senhora de uns cinquenta anos, que coçava insistentemente as costas e olhava para as sacadas dos prédios, descobriu que assim - como ela fazia - portavam-se os apaixonados. Era chato seguir os que andavam carregando a paixão por alguém, porque, segundo ele, era sempre igual ( passos indecisos, lentos, muitos movimentos dos braços e cabeça ). Os apaixonados, além de não lhe causar inquietude e curiosidade, também não lhe impingiam medo algum, sacando-lhe parte importante do prazer que tinha em ser a sentinela insólita dos anônimos. Ademais, os apaixonados eram tão distraídos que ele não via a menor possibilidade de ser desmascarado por algum deles.

Os que ele chamava de loucos eram os mais interessantes, sem dúvida. De certa maneira, depois de meses de prática, conseguia prever os passos de cada um de seus objetos fugazes do desejo. “Uma bolsa de grife combinada com tal calçado, e para a esquerda não haveria de ir aquela mulher; um sapato e um cabelo bem cortado... Para direita não, nem pensar; não para aquela região do bairro”. Só que, quanto mais louco fosse o sujeito, mais imprevisível ele se tornava. Como Mário se tornara ansioso com esse negócio de seguir os outros, mal ele saía do pardieiro subalugado em que trabalhava desbloqueando telefones móveis, e tratava de seguir a primeira alma que passasse por ele. Se não estivesse tão afoito, teria escolhido sempre os loucos porquanto assim se divertia feito uma criança.

Ao chegar à esquina da Viúva Dantas com a Aurélio Figueiredo, o sinal de trânsito fechou para os transeuntes. Se tivesse que disputar espaço, nesse momento, não seria com normalistas ou senhoras gordas, e sim com as vans e ônibus que chegaram a impeli-lo a dar um passo atrás: o primeiro ônibus lhe despejou uma ventania com cheiro de óleo de freio, em seguida, uma van buzinou estridente. Ao ver-se dentro da rua, viu o motorista da van lhe dar o dedo médio na ponta do seu braço esquerdo imperativamente esticado para fora da janela, enquanto o veículo se afastava rapidamente lhe dando as costas. Nesse momento descuidou-se do seu alvo e voltou para a calçada. Alguém gritou: “Cuidado aê, porra; quer morrer?”. Mario olhou, de cima do meio fio, de soslaio para trás levantando a mão direita, como quem pede desculpas e agradece ao mesmo tempo.

Recomposto, viu seu alvo no outro lado da rua dobrar a esquina para a direita. Já estava ele em frente à banca de jornal, misturando-se à multidão que saía do supermercado caçando os táxis que ali se amontoavam. Mário rezou para que o sinal fechasse logo. Nem foi preciso, pois a rua ficou vazia de automóveis por alguns segundinhos, e nesse espaço o voraz observador se embarafustou. Numa caminhada que mais se assemelhava a uma encrespada marcha atlética, chegou ao outro extremo da rua e seguiu pela calçada em direção ao seu alvo, encontrando-o alguns metros depois. O Senhor de barba cerrada, camisa branca e bermuda estampada virou para trás quando já chegara ao ponto das vans que partiam dali para várias regiões de Campo Grande.

Nesse instante, como se fosse um bandido, desviou o olhar e virou-se inteiro para a banca; pediu ao jornaleiro uns cinco pacotes de figurinhas da copa do mundo, tirando desajeitadamente as moedas que tinha no bolso. Ao olhar novamente na direção do barbudo, viu que ele não entrara nas vans e seguia em frente. Estava quase em frente à loja de bicicletas, numa parte da calçada onde sempre se ajuntavam pouquíssimas pessoas. Quando notou que sua brincadeira teria sequência, que o alvo não subira num daqueles automóveis, deu as moedas ao jornaleiro do jeito que as retirara do bolso, sem contar quanto tinha em mãos.

“Pode ficar com o troco” – disse Mário. Como sabia que as figurinhas valiam muito menos do que aquela montoeira de níquel, não se preocupou que o jornaleiro lhe pudesse cobrar o que faltava. Enfiou as figurinhas no bolso e partiu à caça do seu alvo.

O senhor barbudo dobrou a esquina e entrou na Avenida Cesário de Melo na direção da Assembleia de Deus. Como estava muito distante a essa altura, teve que apertar bastante o passo. Passou pela loja de bicicletas quase correndo. Enfim, dobrou a esquina. Lá na frente, para lá da Igreja, estava o seu entretenimento do dia. Já podia, então, libertar-se daqueles minutos anteriores de esbarrões e quase atropelamentos para decifrar o alvo da ocasião. Entretanto, Mário sabia que tinha perdido minutos importantes, que são justamente os primeiros da caçada. Quando, diariamente, se vê ainda na multidão do centro de Campo Grande, pode seguir as pessoas numa distância bem mais razoável. Seu barbudo de meia idade já despachara aquela frenética multidão; agora está bem mais tranquilo e parece mais decidido ao andar do que minutos atrás. A proximidade lhe tem revelado muitas impressões nessas últimas perseguições. A prática havia lhe dado precisão aquilina. Quando os seguidos saíam daquele perímetro irritante de lojas e passeatas multitudinárias, já estava em condições de desenhar na sua mente, num piscar de olhos, o elemento que estava sendo observado. No meio da multidão, sabia, todo o sentimento de um a pessoa fica à flor da pele, visível no trotar perturbado pela inquietação.

Mas o Senhor barbudo o despistara. No meio dos encontrões, perdeu a concentração, e a distância que já tinha se acostumado a manter das pernas em foco se alterou substancialmente. Ao passar pela calçada da Igreja, viu o Senhor se distanciar. Tinha o barbudo apertado o passo, assim como ele mesmo fizera há minutos atrás, em frente às bicicletas. O alvo então atravessou a Avenida Cesário de Melo, correndo para se desvencilhar de uma moto que passara numa velocidade de grande prêmio. Logo concluiu que o Senhor fizera isso para não ser atropelado, seguindo assim bairro adentro. O observador estava aturdido e suando em bicas, andando numa velocidade fora de cogitação quando deu início à carreira que agora lhe tirava o ar do peito. Mesmo assim continuou:

“Não consigo ver o que ele faz, que droga... É melhor eu voltar... Agora não, esse velho já me fez andar, correr, comprar figurinhas que eu nem precisava! É só apertar um pouquinho o passo... Ele nem parece aquela senhora que quase me pegou na semana passada, em frente ao hospital. Eu sentia que ela estava me olhando, eu tenho certeza! Quando ela pegou o celular, foi para contar da perseguição para o filho, ou marido...Sei lá! Só sei que ela me viu, com certeza me viu. Mas esse aí não.. ele é o quê? Será que é um ‘louco’? É isso; acho que deve ser um desses. Não consigo ver sua pernas direito...Os braços! Acabou de mexer os braços. Esta se alongando, não está nem aí para mim.”

Mas, o que eram os “loucos”? Era uma insígnia que não representava literalmente o que eram aqueles transeuntes. Mário teve a ideia de chamá-los assim pela variação que classificou de bipolar: quem normalmente anda com a cabeça baixa, o faz até chegar ao seu destino. Quem tem passos largos, segue a passos amplos até o final. Os braços sempre estão no mesmo lugar, assim como os joelhos que sempre sentem o mesmo impacto a cada pisada. Os loucos não eram assim. As variantes eram completamente desprovidas de ordem e sentido. Não é que cada pessoa fosse um robô numa linha de produção; é que cada mudança, na maioria das pessoas, respondia a uma lógica, uma espécie de roteiro. Por exemplo: há questão de três semanas, Mário seguiu um rapaz de cabelos lisos e blusa verde. Esse rapaz andava com passos muito curtos. Mesmo quando teve que correr para atravessar uma rua, que estaria em instantes abarrotada de automóveis, o garoto manteve seus passos de formiga, mesmo que mais rápidos e pesados do que os de então. Seus braços arquearam na corrida, mas logo voltaram ao normal quando o perigo passou. Esse garoto não era um louco, nem um pouco.

O Senhor seguiu na direção da estrada do Cabuçu, dobrando à direita, onde havia, no final da rua, uma gigantesca casa localizada num terreno tão gigantesco quanto. Para proteger aquele feudo, só mesmo um muro tão alto como aquele. Nesse momento, Mário pensou em desistir: não fazia muito sentido para ele seguir uma pessoa a qual o seu arsenal de teorias não se aplicava. Pensou. Repensou. Chegou a parar um pouco. Olhou para trás e viu um casal de namorados a se afastar, em sentido oposto. Nunca havia seguido um casal antes e isso poderia lhe dar muito mais subsídios que mais um reles louco – se é que ele era mesmo isso. Subitamente, elucubrou que pessoas em contato tendem a complementar o andar de um no outro, num esforço mútuo, abrindo mão de seu conforto para harmonizar a dupla. Sua mente borbulhou. Estava diante de poder medir o caráter e a relação de forças de um enlace amoroso só pelo andar duplicado dos casais apaixonados. Mas lembrou-se do senhor de bermuda estampada e voltou a sua meta primeira.

Correu. Quando chegou ao enorme muro chapiscado do casarão, notou-se naquela desconfortável posição de não se saber o que se espera do outro lado da cegueira. Estava visualmente obstruído pelo muro. Isso tudo foi suficiente para uma simples arrefecida, somente. Mario, então, cedeu ao seu desejo incontrolável e dobrou o muro.

“Por que demorou, seu merda? Por quê? Resolveu brincar logo comigo, hein?

Mário sentiu seu estômago virar do avesso. Seus lábios enrijeceram e seus punhos involuntariamente cerraram. Seu pesadelo ganhara vida do jeito mais inverossímil e escandaloso.

“Sabe o que eu não entendo? – gritou o senhor caminhando lentamente em direção a Mário, que estático ficou – Porra, você passou pelo menos um mês inteiro andando atrás dos outros feito um fodido de um tarado, e logo comigo você pensa em desistir? Parou por quê, seu verme? Imbecil!”

Não sabia o que fazer. Pensou em sair correndo, mas inferiu que aquilo era coisa da polícia ou de alguém mandado por uma de suas vítimas. Tentou falar, mas não conseguiu.

“Fala meu filho - disse o senhor, passando as duas mãos no cabelo, num tom ligeiramente menos agressivo, que se assemelhava a uma pesada bronca de um pai ao seu filho - por que o senhor veio ao meu encontro?

“Senhor, - respondeu feito uma criança quando mente descaradamente ao diretor da escola -, eu não vim ao seu encontro; nós só nos encontramos porque o senhor parou de andar. Se não fosse isso, estaria te seguindo até agora”.

Citei o exemplo do menino da escola. A inflexão usada por Mário na fala acima poderia remeter a um garoto numa sala trancada, tremendo até a última víscera para convencer o seu algoz do irrefutável; no entanto, Mário falou a mais límpida verdade.

“Bom, se é isso, melhorou – respondeu o senhor ao abotoar sua camisa. Mas, me diga uma coisa: Amanhã você vai continuar com isso? Tomara que sim, porque se o senhor resolver parar – e não esquente comigo, por favor, sou assim mesmo, desde os tempos que seguia qualquer um, como você faz muito bem – não vou ter quem seguir e a corrente vai se quebrar.

Mário estava tão confuso e gelado que demorou alguns segundos para vislumbrar o cenário de horror o qual o atingira.

“Corrente, Senhor, mas o que é isso?”

Quando fez a pergunta, o barbudo da bermuda estampada contorceu o rosto e coçou a bochecha e as têmporas. Estava irritado, xingando-o de tudo o que era possível. No meio da loucura tanto de um, que escutava os impropérios com a parcial surdez causada por um invisível fone de ouvido, quanto do outro que gritava e cuspia frases desconexas, o abalado perseguidor conseguiu distinguir alguns verbetes como rede, homens, amigos e, por final, - quando, numa luta contra sua própria privação de sentidos, retornava à lucidez – tristeza.

“Agora, ninguém vai mai me perseguir; nem o Major Quinteiros, nem meu primo bocó, nem a velhinha, coitada. Vai ficar triste”. Essa foi a última coisa dita pelo homem que já estava meio de costas para Mário, andando em direção ao mesmo Centro comercial onde tudo tivera início.

A palavra “velhinha” fez novamente com que voltasse ao soturno mundo do mais violento distúrbio mental. Lembrou da velhinha que perseguira dias antes – não era bem uma velha, mas nesse instante, tudo do que podia recapitular era uma senhora indefesa e senil. Depois, andando sem rumo, atordoado e com dores por todo o corpo, rememorou cada pessoa que fora vítima das suas desatinadas persecuções.

Não parava de se perguntar de onde aquele senhor viera e como haveria de saber de todo o seu segredo. Queria entender onde se encaixava a velhinha. Não achou resposta que não o deixasse em dúvida se estava louco ou não. Chegou a divagar sobre seu estado mental: “Isso só pode ser coisa da minha cabeça; eu nunca persegui ninguém”. Sentia-se muito distante daquele encontro de momentos antes. Parecia ter entrado num universo paralelo de dúvidas e hipóteses levianas. Quis ligar para seus pais, mas logo demoveu a si mesmo da ideia. Não tinha como somar os pontos, ligar os fatos: ou estava louco ou estava sob os olhos de alguém por algum tempo.

Errando não se sabe por onde, num estágio mental deplorável, que lhe distorcera categoricamente a noção exata do tempo, ainda nas ruas residenciais do bairro, teve o ensejo azado para refletir sobre as suas prioridades. Percebeu que perdera muito tempo em esquisitices. Chocou-se com seu próprio estado psicológico quando lembrou da resposta que dera ao barbudo. “Como pude responder aquilo? Que resposta idiota foi aquela? Mas não era isso mesmo, não foi aquilo mesmo que aconteceu? Se o barbudo me desse a chance, não estaria eu atrás dele ainda por essas ruas cheias de pessoas que um dia vou seguir também?...Como? Seguir? Porra, ainda estou pensando nessas babaquices? Nossa, mal acabaram de me desmascarar e eu estou novamente com vontade de perseguir os outros!... Que merda de rede é essa que esse barbudo maluco falou? Sic..Eu nem consigo me lembrar direito das coisas que aquele filho da puta me disse gritando; que merda! Merda!”

Foi pra casa e acordou no dia seguinte às duas da tarde. Perdera um dia quase inteiro de trabalho. Seu insalubre quarto subalugado ficou fechado, e ele então viu que sua vida mudara. Não haveria de esquecer nunca mais daquele senhor de camisa branca nem daquilo que conseguira apreender de seus gritos de enfermo mental. Não sentia mais a menor vontade de seguir as pessoas. Estava assustado.

Foi para o calçadão de Campo Grande, para o seu negócio, de sorte que parecia haver mil olhos sobre ele. Sentiu-se num reality show exibido exclusivamente para o inferno, de onde riam sem parar do seu pânico. Foi encolhendo, olhava para todos os lados. Não queria ver nunca mais aquela barba cerrada na sua frente.

Quando saiu do trabalho, justamente na sua cotidiana hora de perseguir as pessoas, lembrou da barba, dos gritos e entrou em desespero. Não sabia o que fazer; se ia para a sua casa ou se arrumava alguém para seguir. Resolveu voltar para a sua cama, mas naquela mesma calçada estreita, apertado entre as mulheres em estado de compras e os moletons, teve a certeza de ver um homem com uma bermuda estampada passar por ele. Estava de cabeça baixa, estatelado de medo. Não quis olhar para trás. Aquela palavra “rede” começou a latejar em seu cérebro.

“Meu Deus, existe um horda de loucos seguindo os outros por aí, e mais uma outra sendo seguida voluntariamente! E eu sou a ponta do iceberg: eu criei isso! Como pude... E agora...Não quero saber disso, não quero!”

Quando decidiu livrar-se dos grilhões invisíveis atados pelo senhor barbudo do dia anterior, uma multidão veio correndo em sua direção. Alguém gritou que estava ocorrendo um arrastão. Mário se sentiu dentro de um metrô lotado: não podia ir nem vir, só levantar a cabeça para respirar. Na hora, preso entre mulheres com bolsas de plástico cheias de roupas, novamente conversou com a sua consciência:

“Tá, tá legal... Tudo bem, eu vou seguir alguém”.

Para Mário, aquele tumulto foi o início do seu calvário, um aviso vindo diretamente dos confins do desconhecido, de onde alguém havia aprisionado seu destino para sempre: claro augúrio. Depois de sair do centro de Campo Grande, voltou para o mesmo lugar. Escolheu alguém para seguir: um homem de cerca de vinte e cinco anos com um sorvete nas mãos. Já não tinha mais como se perder no próprio pensamento para saber se o alvo era um louco, ou um apaixonado ou alguém de passos curtos. Seguia para ser seguido e não desatar a corrente criada por ele próprio.